terça-feira, 2 de março de 2010
Anjos (T.S. 18:37 PM)
A Teodoro de calçadas estreitas, muito trânsito e muita gente, inclusive os muitos “istas”, guitarristas , baixistas, bateristas, violonistas, tecladistas... Entre outros*.
No IPod de Nico, comprado de segunda mão, Hendrix toca "Crosstown Traffic".
Apesar das espinhas na testa, Nico não era feio, e sim, muito tímido. Não fazia sucesso com as mulheres. Passava sempre despercebido, não era alto, com seu 1,73m, e não tinha coragem de tomar a iniciativa com o sexo oposto. Mas ele não suportava mais ser o alvo preferencial das gozações dos amigos, dizendo que as espinhas eram por masturbação excessiva ou das insinuações de que era gay.
Nico, 19 anos, que gostaria de ser Nikolas, na verdade, era virgem!!!
Mari, 37 anos, que era Margarida Ely por escolha materna e escondia de todos o nome composto, descia a Teodoro Sampaio segurando as lágrimas. Voltava da farmácia onde fora comprar remédios para a asma brônquica de sua filha de nove anos. A pequena teve uma crise na escola, o que se tornava cada vez mais freqüente nos dias frios e poluídos de São Paulo. Com o pouco dinheiro que tinha só conseguiu comprar um dos remédios receitados pelo médico, o xarope, que era o mais barato. O nebulizador indicado para as crises, então, era um sonho impossível.
Nico conseguiu arrumar emprego como assistente em um estúdio de som na rua Alves Guimarães. O estúdio funcionava em uma casa antiga, na vila, entre a Teodoro e a Cardeal Arco Verde. Lá, passava o dia ouvindo os músicos tocando, bebendo e conversando sobre mulheres. E Nico só pensava nas mulheres. O uso de drogas era “quase” proibido no estúdio. Trabalhava durante o dia e a noite fazia cursinho. Cursinho não sabia direito pra que, mas sua mãe, pobre viúva e trabalhadora, sonhava em um dia ver seu filho doutor.
Mari, que nunca quis ser Margarida Ely, era professora de educação física em um colégio público na Zona Leste. Com os três mil e oitocentos reais que ganhava, fazia malabarismos para sustentar a família toda. Ela, a filha e o marido deprimido e desempregado há quase três anos.
Mari era casada há dezessete anos com Herculano, que investiu todas as economias do casal numa Academia Fitness de três andares no bairro de Santana, e perdeu tudo, inclusive sua auto-estima. Herculano, com quem começou a namorar nos tempos de faculdade, foi o seu primeiro e único homem. Herculano, que há dois anos e sete meses está jogado no sofá vendo futebol, novela e o que mais passar, com a cerveja em uma mão e o controle remoto na outra. O professor Herculano que tinha 1,92m e 90kg de músculos, hoje tem 127kg de flacidez e desesperança. O sedutor professor Herculano, que hoje, não pega mais ninguém, muito menos sua esposa.
Nico prometeu a si mesmo que com o seu primeiro salário, de um mil e quinhentos reais, que acabara de receber, separaria 2/3 para ajudar sua mãe e pagar o cursinho, e usaria o 1/3 restante com uma profissional do sexo. Assim resolveria de vez o seu problema.
Mari, não sabia o que era sexo há mais de dois anos. Mas, apesar das rugas começando a aparecer, - mais por falta de cuidados -, do alto de seus 1,81m, continuava sendo uma mulher atraente e bonita. Tinha sido Rainha dos jogos Abertos do Interior, nos seus tempos de jogadora de vôlei. A atividade constante mantinha seus músculos rijos e tudo no lugar certo. O agasalho esportivo que usava, evidenciava isso. Mesmo com algumas crises gástricas, a necessidade de sobrevivência e os cuidados com a filha não lhe davam tempo de lamentar a vida, muito menos de pensar em si mesma.
Hoje, Nico não vai ao cursinho. Hoje, ele recebeu seu primeiro salário! Sua cabeça vai a mil!!! Ele pensa e repensa milhares de vezes em como vai abordar e contratar uma profissional, se pessoalmente ou por um site no celular.
Ansioso e cansado de esperar pelo ônibus, aumenta o volume do rock no seu IPod e senta no degrau da porta do 306, um antigo prédio de quatro andares, sem elevador, ao lado do ponto de ônibus lotado. Mick Jagger canta "I can get no... Satisfaction" em seus ouvidos.
Mari chega em seu prédio, e o maldito ponto de ônibus bem em frente de sua casa, faz com que tenha que se contorcer no meio das pessoas ali estacionadas e mal humoradas para poder entrar. Depois de meia dúzia de “com licenças” e alguns empurrõezinhos, finalmente consegue chegar perto da porta. Mas, quando se distrai para pegar a chave, um vulto se levanta de repente e esbarra nela. O remédio da filha cai e se espatifa no chão!!!
Mari olha para o xarope da filha escorrendo pela calçada e grita:
- Seu filho da puta!!!!
O filho da puta nesse caso, apesar de sua mãe não exercer essa profissão, era Nico, que distraído pelo som alto, só percebera a chegada de Mari no susto, em cima da hora.
Desesperada, ela tenta salvar um pouco do remédio... Mas em vão.
Dessa vez é Mari que senta no degrau da porta e chora.
Nico tira o fone de ouvido, mas permanece imóvel, sem saber o que falar.
Mari aperta a receita do médico entre as mãos e chora ainda mais:
- O remédio de minha filha, e agora, meu Deus???
As pessoas do ponto observam e tecem comentários maldosos sobre Nico e o acontecido.
- Me..., me...me desculpa...diz ele nervoso.
- Desculpa??? Meu dinheiro acabou...e não tem mais remédio pra minha filha!!!
De repente Nico toma a receita da mão de Mari e sai correndo.
- Onde você vai moleque??? Dá minha receita de volta!!!
- Eu já volto!!! Diz ele abrindo espaço entre as pessoas.
“É maluco, pensou Mari, é só o que me faltava agora...um maluco roubou minha receita!!!”
Dez minutos depois, quando ela recomposta e conformada abria a porta para entrar em casa, ouve uma voz:
- Espera!!! Era Nico chegando, esbaforido.- Comprei o remédio da sua filha!!!
- Como assim? Pergunta Mari, sem acreditar.
- Pega aqui, diz Nico, oferecendo duas sacolas, uma maior e outra menor.
Mari pega as sacolas e vê que ele tinha comprado os três remédios! E na sacola maior estava nada menos do que o sonhado nebulizador!!!
- O...obrigada, mas não posso aceitar…diz tentando devolver as sacolas. Ela tinha feito um levantamento de preços antes e sabia que aquela compra não sairia por menos de trezentos e vinte reais.
- Aceita sim, diz ele, você sabe que sua filha tá precisando…
- Mas é muito caro!!!
- Nem pensar… Nico falava com uma segurança incomum para ele.
- Ah, e a receita tá junto do nebulizador.
- Olha, eu agradeço. Reconheço que você não é nada do que eu pensei… Desculpe ter te xingado, mas vai devolver isso.
- Não mesmo…
– Eu fico só com o xarope então… Mari tenta em vão convencer o rapaz.
-…E me desculpe pelo acidente. Diz Nico, se virando para ir embora.
- Espera!!! Grita Mari, que no ímpeto abraça fortemente o rapaz e desaba a chorar novamente. Nico fica completamente sem ação.
- Obrigada, obrigada!!! Você não imagina... Ninguém faz nada por mim, nem por minha filha. Eu precisava tanto desses remédios. Você é um anjo que Deus mandou! Diz Mari chorando.
De repente ela segura o rosto dele com as duas mãos e o beija. Beija na boca!!! Um beijo forte, úmido, chorado. Nico fica nervoso, podia contar nos dedos de uma mão o número de vezes que beijara uma garota. Nunca fora beijado com essa intensidade.
E agora por aquele "mulherão"!
Mesmo não sabendo direito o que fazer, ele acaba correspondendo. De repente sente seu membro intumescido com a proximidade do corpo de Mari, e fica envergonhado.
- Me desculpe.... Diz, tentando descolar seu corpo do dela.
Ela olha nos olhos dele e o beija de novo grudando ainda mais seu corpo no dele.
A “platéia” do ponto de ônibus começa a se manifestar contrariamente à forte demonstração de “carinho”.
Uma senhora ao lado comenta:
- É muita falta de vergonha, ela podia ser a mãe dele!!! O fato de ela ser mais alta que ele acentuava a diferença de idade dos dois.
- E ainda por cima ela é casada!!! Comenta outra.
Mari interrompe os beijos, puxa Nico e as sacolas para dentro do prédio e bate a porta.
Ainda ouvem comentários maldosos e vaias que vem de fora.
- Gente enxerida! Cuidem de suas vidas!!! Diz Mari, irritada.
- Mas você é casada mesmo? Pergunta Nico intimidado.
- Sou...aliás, era até agora. Pronto não sou mais!!! Diz Mari, tirando a aliança e voltando a beijar o rapaz.
São interrompidos novamente por um bater de porta e passos descendo as escadas.
Mari puxa novamente Nico pela mão e o leva para uma pequena porta embaixo da escada. Eles entram curvados, principalmente ela, fecham a porta e acendem a luz. É um cubículo de mais ou menos 2m por 1m. Com o teto em declive acompanhando a descida da escada, com a parte mais alta tendo não mais de 1,90 m. Cheia de baldes vassouras, produtos de limpeza e algumas baratas.
- Nós vamos ficar aqui??? Pergunta Nico incomodado.
- Sshhhh!!! Mari pede silêncio.
Os passos descem toda a escada e ouvem a porta da rua bater.
Quando ele pensa em sair, Mari o agarra novamente e entre beijos "calientes" começa a abrir o botão de sua calça. Mas para a sua surpresa encontra o “mastro” descendente.
Ela para respira forte e pergunta: - Ok, passou a vontade... Eu lembro a sua vó? Sou muito velha e caída pra você???
- Não, não é nada disso! Não mesmo!!! Você é um sonho, é linda demais!!!
- Tudo bem não precisa justificar, não... Eu forcei a barra.
- Não, eu juro, o problema não é você! Eu é que estou nervoso demais!!!
- Por que eu sou casada???
- Também... mas, principalmente, porque...
- Porque..., repete ela.
-...porque eu ... eu sou virgem... Nico se encolhe como se tivesse sido desmascarado e admitisse sua derrota.
Ela sorri e volta a beijá-lo de uma forma mais terna, sem tanta sofreguidão.
- Você é lindo! Cochicha em seu ouvido. Ela o abraça e enche de carinhos até acalmá-lo.
Quando sente que a “firmeza” dele voltou pergunta:
- Você tem camisinha?
- Uma coleção!!! Responde Nico, animado.
O que aconteceu nos próximos doze minutos é proibido para os não virgens.
Os dois saem sorrateiramente do depósito de material de limpeza, tentando se recompor, e caminham para a porta da rua. Antes de chegarem, a porta se abre e entra um senhor calvo, de óculos e pouco sorriso.
- Boa noite, Seu Adhemar, cumprimenta Mari.
- Boa noite, D. Mari.
Seu Adhemar era o síndico do prédio há mais de vinte anos. E olhando para o desconhecido Nico, como se suspeitasse de algo, pergunta:
- E esse é?
Antes que Nico com o cabelo todo desarrumado e a camisa com os botões trocados pudesse se pronunciar, Mari responde:
- Esse é meu sobrinho! Meu sobrinho predileto!!!
- Ah, muito prazer. Arrume o botão da camisa rapaz, diz Seu Adhemar, se retirando com um aceno de mão.
Os dois esperam ele se afastar e subir as escadas para caírem na risada.
Nico arruma os botões da camisa e diz:
- O nome de seu sobrinho é Ni... Ele é interrompido pela mão de Mari que tampa sua boca carinhosamente.
- Esqueça...não diga mais nada. Tá bom assim. Foi ma-ra-vi-lho-so desse jeito!
Nico espera ela retirar a mão e fala emocionado:
- Eu nunca vou esquecer!!!
- Nem eu!!! Diz Mari, com os olhos úmidos.
Após um longo abraço de despedida e um último beijo, ele sai. Ela fecha a porta lentamente sem tirar os olhos dele.
Mari resolve não colocar a aliança de volta, se enche de coragem e sobe com as sacolas. Estava decidida, que ou Herculano ou ela e a filha se mudariam daquele apartamento.
Nico, não sentia a noite fria, o ônibus logo chegou. Foi para casa com um sorriso indisfarçável, se sentindo o mais feliz dos homens. Aliás, se sentindo Homem!!!
No IPod de Nico, Paul McCartney canta “Maybe I’m Amazed”.
Naquela noite, Deus tinha colocado um anjo no caminho de cada um deles.
Entre outros*: A Teodoro Sampaio é, certamente, a rua brasileira com a maior concentração de lojas de instrumentos musicais.
Michelle e Clara
Layla, de Clapton; Julia, dos Beatles; Marina, de Caymmi, pelo menos um peso pesado Brazuca; e Michelle, também dos Fabfour.
Foram as opções que dei para o nome de nossa primeira filha.
Depois de quase dois anos casados, concordamos que era uma boa hora para termos um filho.
Pela última ultrassonografia, não restava mais dúvida do sexo da criança. Cabia agora à Lígia, a mãe, a grande escolha. Que, acreditem, se arrastou por dois meses.
Marina ela eliminou logo de cara. Era o nome de meu grande amor de adolescência. Expliquei que Lígia, de Tom, também estaria na lista, se não fosse o nome da mãe, mas acho que não convenci.
- Não me estresse, não me es-tres-se!!! Dizia, grávida de seis meses.
OK, tínhamos três opções ainda. Layla ela não gostou. Achou comum.
- Comum??? Perguntei. Já me via cantando Layla ao violão para a criança dormir.
- É, tive uma vizinha de apartamento que tinha uma poodle toy, barulhenta, chamada Layla. Não quero pensar na cachorrinha toda vez que chamar nossa filha.
Não tive como argumentar, e lá se foi minha opção predileta.
- Por que não Julia? "Seashell eyes, windy smile, calls me..."
- Julia? Dizia pensativa, no sétimo mês, torcendo o canto da boca.
- Julia é um nome lindo, sonoro!!! Um lindo nome pra uma criança linda!!! "So I sing a song of love, Julia..." Cantarolei.
Ela não disse que sim, nem que não.
No oitavo mês, acordou um dia, decidida:
- Será Michelle!!!
A opção que eu menos queria.
- Mas por que Michelle???
- Porque eu gosto!!! Respondeu.
- E Julia?
- O trato foi: suas opções e minha escolha. Respeite!!!
Era verdade, fui eu quem sugeri que fosse dessa forma. Quem mandou eu colocar Michelle na lista...
Tres Anos Depois
Michelle, ou Micha, como carinhosamente a chamava, aos tres anos, era uma criança adorável, esperta, doce e sociável. Frequentava a escolinha, e todos os dias tinha uma novidade pra contar.
Ela é do signo de Peixes e realmente nadava como um deles. Era a melhor da sua turma na escolhinha de natação.
Assistíamos desenhos animados juntos, sempre imitando os personagens. Por que as crianças assistem tantas vezes o mesmo filme?
Não via a hora de telefonar e ouvir sua voz, em minhas viagens, e ganhar seus desenhos, quando voltava para casa. Resistia colocar Micha na cama, quando adormecia em meu colo. Só o pensamento que algo de mal poderia ocorrer a ela, já me causava dor. Queria estar sempre perto para protegê-la.
Adorava azeitona. Pizza para ela só se tivesse azeitona.
Diversas vezes me flagrava cantarolando: “Michelle, my belle, sont des mots qui vont tres bien ensemble...”. Até em importantes eventos musicais do trabalho.
É, eu estava loucamente apaixonado por ela!!! Uma paixão que crescia diariamente nos últimos tres anos.
Quando temos um filho, achamos que ensinaremos muita coisa a ele, mas na verdade somos nós que aprendemos muito mais.
Lígia me censurava, disfarçando o ciúme:
- Você estraga, não educa!!!
Nosso casamento não andava grande coisa. De morno para frio, diria. Talvez até mais frio do que eu quisesse admitir. A única coisa que aquecia aquela casa, era a presença cheia de vida de Micha.
Lígia andava meio quieta ultimamente, pensativa. Parecia meio fragilizada.
Recusava minhas tentativas de diálogo. Às vezes, se trancava no quarto e chorava.
Não se mostrava receptiva para o sexo. Em nada lembrava aquela “gata selvagem”, que parecia estar em um cio permanente, dos primeiros anos de nosso namoro e casamento.
Será que não soubemos evoluir e nos adequar ao passar dos anos?
Acordei no meio da noite com Lígia me cutucando. Eram 4:20 AM. Achei que estava roncando muito alto.
- O que foi? Perguntei sonolento.
- Preciso te contar uma coisa...
“Deve ser sério”, pensei.
- Eu...eu estou grávida, disse pausadamente e sem alegria, já fiz o teste...
Não sabia o que dizer, nem como reagir.
- Pensei em tirar..., mas desisti. Contou suspirando.
- E se tirasse, não ia te contar.
- Por quê?
- Nós não estamos bem, você sabe...
- Quantos meses? Perguntei já completamente sem sono.
- Quase dois... Pra mim também foi uma surpresa...
Surpresa??? Meu coração disparou. Eu não era nenhum santo, mas vinha me mantendo fiel, e a vontade de estar perto de Michelle, não me permitia ficar longe de casa além do tempo necessário. Nunca poderia imaginar uma infidelidade por parte de Lígia. Mas ultimamente quase não “transávamos”. Será que ela tinha arranjado um amante???
Notando minha inquietação completou:
- Foi naquele sexo “burocrático”, da nossa última vez. Sossegue!
Pelo menos o meu orgulho de “macho” sentiu um grande alívio.
- E a pílula?
- Eu parei, a gente já quase não transava...
Virou as costas para mim e desabou a chorar.
Abracei Lígia com força, tentando lhe passar calor e alguma segurança.
Não trocamos mais palavras, nem dormimos até o amanhecer.
Dias depois, fui me deitar às 2:37 AM., após finalizar um artigo em inglês, para a ‘”Rolling Stone” americana, sobre os movimentos musicais emergentes no Brasil.
Enquanto me ajeito no escuro, ouço a voz de Lígia:
- Se for menina vai se chamar Clara.
- Clara? Por que Clara?
- Porque é como o céu azul, limpo, sem nuvens. Nada de trovoadas, nem tempestades. Cheio de claridade! Luz!!! Eu preciso de luz em minha vida!
- Bom, se você já decidiu. Mas, e Micha? Perguntei.
- O que tem Michelle?
- Ela não ilumina a sua vida?
- Sim, mas ilumina muito mais a sua do que a minha!
Acho que concordava com ela nesse ponto. Esperei mais um pouco e perguntei:
- E se for menino? Na verdade eu gostava da idéia de ter um casal.
- Se for menino, você dá o nome que quiser, tá bom assim? Mas sinto que é uma menina... Boa noite.
- Boa noite! Segurei e beijei a sua mão.
Antes de adormecer, pensei em Eddie, Eduardo Góes Soares do Nascimento, rockeiro fanático. Guitarrista exímio, tivemos uma banda juntos na adolescência. Eddie tinha três filhos: Eric, Jeff e Jimmy*. Em homenagem aos deuses da guitarra inglesa. E dizia que, se tivesse mais um, seria Ritchie, em homenagem a Ritchie Blackmore, do Deep Purple. Para mim o curioso, agora, era como Eddie convencera sua mulher a colocar esses nomes. Quais os argumentos que ele usara? Pelo jeito, Eddie não era somente um guitarrista virtuoso, conhecia outros truques também. Não via Eddie há alguns anos, desde que fechou sua loja de LP’s raros, Gently Weeps, no Itaim-Bibi.
Em sete de junho de 2007, sob o signo de gêmeos, conforme a profecia materna, nasceu Clara.
Eric, Jeff e Jimmy*: Clapton, Beck e Page.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Vendetta (Quinze Dias Depois)
- Tudo bem, Chico?
- Comigo tudo... responde sentado atrás de uma grande mesa com tampo de vidro.
Queria que ele tivesse parado por aí, mas o pior chato é o que responde, achando que você quer mesmo saber se está tudo bem. Apressei meus passos na direção do elevador.
- Mas a D. Alzira... Falou alto para que eu ouvisse.
A vontade de subir para o meu apartamento era grande, mas a curiosidade de saber o que acontecera com a senhora “gliptodonte” foi maior.
- O que aconteceu com a D. Alzira? Perguntei, voltando.
- É, foi vingança, doutor. Tomou dois tiros!!! Francisco arregalava os olhos, sem conter o entusiasmo, de fofocar como novidade o caso que todos no prédio já conheciam. Todos menos eu.
Morreu, pensei.- Como assim, Chico??? Saiu o morreu traduzido.
Tentava disfarçar uma antipatia latente que nutria por D. Alzira, aquela figura, que, como síndica, “governava” o prédio como se fosse o seu feudo, e me tratava com um certo ar de desprezo e superioridade, apesar de seu tamanho PP (no sentido vertical, é claro), desde que ousei a discordar dela em minha primeira reunião de condomínio, a sete anos atrás.
- Aquela gangue que invadiu o prédio quis se vingar. Hoje é quinta. Na segunda, ela ia saindo pro Banco, como de costume, às 9:50h da manhã. Aí, um carro preto, que estava estacionado, abriu a janela e deu dois tiros nela!!! Pá!!! Pá!!! atirou Francisco, imitando o revolver com a mão. - Os caras fugiram. Mas o André, da banca de jornal, anotou a placa e avisou a polícia. Eu vi tudinho, tudinho!!! disse com entusiasmo crescente.
- Pegaram os bandidos? Perguntei mostrando interesse.
- Pegaram sim doutor. Pararam o trânsito na Brigadeiro com a Paulista. Aí, a polícia achou eles e meteu bala. Um morreu, o outro ficou ferido. O que ficou ferido era meio-irmão daquele que D. Alzira matou!!!
- O Moraish!!!
- Mora quem?
- Deixa pra lá... disse eu, disfarçando pra não ter que me explicar.
"Vendetta", pensei.
-Me disseram que ele entregou os outros “cumparsa” da gangue...
- Ah é?!!! Senti um calafrio, pensando no ladrão que invadiu meu apartamento e “desfrutou” de minha intimidade escatológica. Será que ele contaria pra polícia detalhes que eu havia omitido?
E já me preparando pra subir, perguntei:- E D. Alzira?
- Ah foi operada e passa bem. Sábado vai ter uma festinha pra volta dela.
- Que bom. Essa daí é indestrutível, né? Falei sem muito entusiasmo. Estava convencido que o único jeito de termos um novo síndico era com a extinção da atual. Claro que não queria que ela morresse de verdade.
- Ah, a D. Odete, do apartamento 51, foi visitar ela. A D. Alzira falou pra ela que fuma desde os dezesseis anos, que fumava escondida do pai. Se o cigarro não matou ela, disse que não vai ser dois “merdinha” desses que vai conseguir matar. Foi ela que disse, doutor. Discursava Francisco, já quase gargalhando. Voava cuspe pra todo lado.
Fiquei enojado e antes de ficar “ensopado” saí com um aceno de despedida.
- Merdinha é esse cigarro incompetente, resmunguei com ironia.
*Vendetta: vingança de sangue das famílias mafiosas.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Conversa de Bar
Após entregar uma matéria encomendada pela revista Cultura Paulistana, sobre as caixas de som, espalhadas pelo Centro de São Paulo, tocando música erudita, e sua influência no cotidiano dos paulistanos, paro no tradicional Bar Brahma, para tomar aquele delicioso chopp. Fui só, como uma comemoração pessoal, mais pra relaxar. Gostei muito daquilo que escrevi e partes do texto voltavam a minha mente, em “looping”. Teci um panorama, tipo Louis Armstrong, cantando “What a Wonderfull World”, com cenas da guerra do Vietnam. A pressa diária e os abandonados do centro de São Paulo, embalados pela Primavera de Vivaldi. A dialética de um universo em desequilíbrio, a Sinfonia da Miséria. Senti, que apesar dos anos passados, continuava tendo “tesão” pelo meu trabalho, não me conformava com o olhar acomodado da mídia, e isso, para mim, era motivo de grande satisfação. Muitas vezes, a satisfação pessoal, é o melhor prêmio que podemos nos conceder.
Um casal de trinta e poucos anos, da mesa ao lado, levemente alcoolizados, ele mais que ela, falava alto. No começo me incomodei, queria sossego, mas acabo não conseguindo deixar de ouvir a conversa deles:
- Ah!!! O que você acha que chama mais atenção em você??? Pergunta ele, achando óbvia a resposta.
- A inteligência, o cérebro, é claro!!! Responde ela com firmeza.
“Hum, que papo de bêbado...”, pensei.
E o papo continuava:
- Você tá louca!!! Olha o tamanho do seu cérebro e olha o tamanho da sua bunda!!! Deus fez assim!!! Deus quis assim!!! Pra quando a mulher passar, os homens desejarem aquela bunda. Desejarem copular com a dona daquela bunda. É assim na natureza!!!
- Na natureza, entre os irracionais!!! Fala, já mostrando certo constrangimento, pela atenção pública gerada.
- O que seria muito mais fácil, né??? Não precisava vir pro bar, gastar dinheiro, beber muita cerveja, jogar conversa fora e só trepar depois, já sem controle total do que a gente está fazendo... Assim prejudica o padrão de qualidade!!! Hahahahaha!!! Só ele ri, achando graça de sua própria piada.
- Seu ridículo!!! Até parece que eu vou pra cama com você. Não vou com ninguém no primeiro encontro, muito menos com alguém como você!!! Seu podre!!! Responde asperamente, já irritada.
- Eu podre??? Sexo... desejo, é o instinto mais primitivo. Se fosse o cérebro o que importasse, vocês, mulheres andariam com o diploma pendurado atrás da bunda, que nem chapa de carro, e não com essas calças tão apertadas, só pra mostrar as formas a-bun-dan-tes. Ele gesticulava moldando as formas femininas com as mãos, acompanhando sua fala.
- A minha não é tão apertada...
- É sim, que eu olhei quando você foi ao banheiro. E olha que é um belo “derriére” esse emoldurado por sua calça “apertadíssima”.
- Descarado!!! Parece apertada porque tem lycra, mas não é!!! Disse desconcertada, com as mãos espalmadas sobre a bunda, mesmo sentada, tentando disfarçar o que o que já fora exposto. Ela sentia, com razão, o olhar curioso de todos ali, pairando sobre seus glúteos.
Ele ri alto, de forma irônica e bebe seu chopp, balançando a cabeça de forma negativa.
Eu, confesso, que como quase todo o bar, estava completamente absorto pela conversa alheia e nem lembrava mais de minha matéria. "Que maluco machista!!!” Pensei. ”Um porco nojento!!! E no primeiro encontro ainda...”
- E outra coisa...disse ela...Você me conheceu conversando pela net. Logo, me convidou pra sair pelas nossas conversas, pela minha inteligência!!! Isso com seus olhos já soltando faíscas.
- É verdade, ele responde, mas só depois de ver suas fotos de biquíni no Instagram!!! E dá uma sonora gargalhada.
Ela explode!!! Levanta derrubando a cadeira e se exalta:
- É por causa dessa desvalorização do cérebro, da inteligência das mulheres e de animais irracionais que nem você que a gente só vê desgraça acontecendo, feminicídio, estupro, gente sem controle, que acha que mulher é só um pedaço de carne... E quer saber, eu vou pra minha casa!!! E não vou dar pra você o prazer da companhia de meu cérebro e muito menos de minha bunda!!! Tchau, seu machista de merda!!!
Silêncio sepulcral no bar!!! Quase devolvo o chopp na caneca!!! Senti culpa, mas não pude deixar de observar seu sacolejar, enquanto ela saía raivosamente, estalando o salto alto de suas botas contra o piso de madeira. Eu e pelo menos toda a ala masculina do salão, inclusive o garçom, que balançava a cabeça, com os olhos arregalados.
Ele, o abandonado sem noção, continuou rindo, tomou o último gole de seu chopp, arrotou, e gritou:
- Garçom, traz mais um chopp, que o cérebro invejoso foi embora e levou aquela bunda maravilhosa com ele!!! Quem não tem pecado que atire a primeira pedra!!!
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Dona Shaci
Na sala, estão presentes a delegada, um escrivão ao computador, um policial em pé na porta, mantida aberta por causa do grande calor, apesar do antigo e barulhento ventilador de teto ligado no máximo, além do próprio Mukito e sua mulher.
Como em todo evento de alto teor burocrático, fazem perguntas à vítima que em nada se relacionam ou ajudam na elucidação do caso.
Delegada: - Seu Paulo, o nome de sua mãe???
- Shaci, Shaci dos Shantosh, responde Mukito.
- Como??? Pergunta a delegada, fazendo um sinal para o escrivão não digitar.
- É Shaci!!! Repete Mukitinho.
- Saci??? Pergunta a delegada, sem conter um leve riso.
Mukitinho irritado diz: - Não, não é Sachi!!! É Shaci!!!
A delegada e todos na sala, menos o próprio Mukito e sua senhora, claro, explodem em uma sonora gargalhada. Alguns curiosos vêm à porta para saber o que está acontecendo.
Sem conter sua raiva crescente, Mukitinho, tira o documento que restou na carteira vazia e quase esfrega na cara da delegada: - Óia aí, ó!!!!
A delegada, vermelha de tanto rir, lê em voz alta: - Jaci dos Santos!!! E a gargalhada volta a soar no recinto. Sua esposa, que até esse momento se mantivera calada, não se contém e cai na risada também. Mukitinho aperta a mão de sua mulher com força e a fuzila com o olhar.
- Calma Seu Paulo!!! Diz a delegada, que se volta ao escrivão e dita: - J-A-C-I dos Santos(sh), com um tom de desdém
Mukito, contrariado, resmunga consigo mesmo: - Shi esha aí não foshi deiegada e muié, merechia é unsh shopaposh!!!
*Maquinista: é um tipo de faz tudo no cinema, executa tarefas e resolve problemas com cérebro e músculos.
Baseado em fato real. Essa crônica é uma homenagem a Mukitinho e seu bom humor.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
"Voa Canarinho, voa..."
Como eu era um bebê em 1970, posso dizer, com certeza, que das seleções que vi jogar, ao vivo, na minha vida, nenhuma se compara a seleção brasileira de 1982, dirigida pelo mestre Telê Santana.
Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior, Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, Serginho e Eder. Que timaço!!! Mesmo tendo perdido Careca, nosso melhor centroavante, por contusão, às vésperas da competição, oito entre dez estrangeiros e nove entre dez brasileiros, porque sempre tem um do contra, consideravam essa seleção a grande favorita para vencer a Copa do Mundo da Espanha.
Aos doze anos, meu coração já tinha optado por ser corinthiano, mas ainda não tinha tido coragem suficiente para contar isso a meu pai, palmeirense “roxo”. Ou seria melhor dizer palmeirense verde??? O Corinthians tinha sido campeão paulista, naquele ano, e iniciara uma co-gestão entre atletas e dirigentes, que viria a ser conhecida como a “Democracia Corinthiana”.
Aos doze anos, após duas copas frustrantes, já não acreditava muito nessa história de “Amuleto da Sorte”.
Também com doze anos conheci Marina, vinda de Salvador com a família. O pai, um alto funcionário do Banco Econômico, tinha sido transferido para São Paulo.
Marina veio estudar na mesma escola, e, por sorte do destino, na mesma classe que eu. Ela usava os cabelos, longos e lisos, sempre presos. Sua pele era de um moreno aveludado, tinha grandes olhos escuros, que pareciam olhar para dentro da gente, e um lindo sorriso aberto, cheio de dentes brancos e alinhados.
Um dia sentamos em carteiras vizinhas, e meu braço roçou levemente no seu, tive uma sensação nova e deliciosa, que não queria que acabasse mais, com direito a um friozinho que subiu pela espinha. Tinha sido nosso primeiro contato físico.
Aos doze anos, meu coração já tinha optado por se apaixonar por Marina, mas eu ainda não tinha tido coragem de contar isso para ela.
Mas voltando à Copa, no dia 14 de junho, o Brasil teve uma estréia difícil contra a Rússia, do fantástico goleiro Rinat Dasayev, herdeiro de Lev Yashin, o Aranha Negra. E por falar em goleiros, o nosso, quase sempre seguro, Waldir Peres engoliu um “frango” bisonho, em um chute despretensioso, desferido por Bal da intermediária, aos 34 minutos do primeiro tempo. O nosso habilidoso quarto zagueiro Luisinho, cometeu dois pênaltis, que para a nossa sorte, o árbitro espanhol Castilho, preferiu ignorar. (Não havia conferência do lance por VAR naquela época.) Nossas jogadas de ataque, quando passavam pelo sólido bloco defensivo russo, morriam com facilidade, nas mãos de Dasayev. Era quase inacreditável!!! Seria o nervosismo da estréia??? Parecia que estávamos perdidos “num mato, sem cachorro”!!!
Fim do primeiro tempo. Confesso que ali, temi pelo pior, seria muito azar!!! "Bora" filhão, tem que acreditar! Acredita na sua sorte!!!" Incentivou meu pai, que continuava acreditando na história do Amuleto.
Minha mãe suspirou e em silêncio, me abraçou e beijou minha cabeça.
Estávamos sentados em um grande sofá marrom de couro. Meu pai na ponta esquerda, minha mãe na meia-direita e eu no meio de campo. Nosso posicionamento habitual em dias de jogo.
Começa o segundo tempo, o Brasil tenta reagir, mas o jogo continua “amarrado”.
A grande vantagem de nossa seleção é que contava com craques fantásticos!!! E quando o coletivo não funcionava, eles podiam, em um lampejo genial, mudar os rumos da partida.
Dr. Sócrates, o Magrão, representante corinthiano na seleção, tinha inclusive parado de fumar para melhorar seu desempenho atlético. Tanta dedicação não poderia ter sido em vão. E, finalmente, aos 30 minutos do segundo tempo(!!!), ele, Sócrates, passa por dois marcadores russos e manda um “canudo” no ângulo superior direito da meta de Dasayev, que ainda quase alcança a bola. É gol do Brasil!!!!! Gooooooolll!!! Pelo menos “achamos o cachorro”.
O Brasil recobrou sua confiança e partiu para o ataque, mas a partida já estava perto de seu final.
Aos 43 minutos, Paulo Isidoro, que tinha entrado no segundo tempo, cruza a bola para Falcão, que como se tivesse uma visão 360 graus, deixa a bola passar, fazendo um “corta luz” para Eder Aleixo (o “queridinho” do público feminino da época), levantar a pelota e soltar a “bomba”. Dasayev não teve tempo de reagir! Gol do Brasil!!!! Golaço!!! O gol da virada!!!! “Saímos do mato”!!!
Castilho encerra a partida, vitória brasileira!!!! "Falei, filho! Acredite, você dá sorte!!!" Gritava eufórico, meu pai. Minha mãe sorria e me enchia de beijos.
Nas partidas seguintes da primeira fase, o Brasil jogou como o grande time predestinado a ser campeão. Brasil 4X1 Escócia e Brasil 4X0 Nova Zelândia. Com uma sucessão de gols belíssimos!!!
Na primeira partida da segunda fase, reencontramos a Argentina, nós, ainda engasgados pela ”compra” dos peruanos em 78. O Brasil impôs o seu futebol com uma vitória maiúscula: 3X1, gols de Zico, Serginho e Júnior, com Ramon Diaz marcando o gol de honra dos “hermanos”. “Hermanos porra nenhuma, que eu não tenho irmão ladrão!!! Toma, Argentina!!! Toma!!! Sem roubalheira vocês não são nada!!!" Esbravejou meu pai, lembrando o suspeito título mundial Argentino de 78.
Foi uma vitória para “lavar a alma”, com direito a “sambadinha” de Júnior, nosso lateral esquerdo, comemorando o terceiro gol.
Meu pai, Rafael Mascarenhas Benedetti, cresceu na Mooca, era filho de pai italiano. E passional como todo italiano. Tudo, pra ele, era melhor se fosse da Itália. O país, a comida, as roupas, o Palmeiras, Sophia Loren... Enfim, tudo!!! Tudo menos a seleção!!! Em matéria de seleção de futebol, ele era torcedor fanático do Brasil!!! Felizmente, tudo parecia se encaminhar para o Tetra brasileiro.
No dia 5 de julho, em Barcelona, no estádio Sarriá, o Brasil enfrentava a Itália, que apesar de sua vitória de 2X1 contra a Argentina, se classificou na primeira fase com três medíocres empates. O último, contra Camarões, graças a um escorregão do goleiro N’Kono. Parecia que ia ser um jogo de gato e rato. O Brasil era o gato, lógico! E o escrete Canarinho só precisava de um empate para passar à semifinal.
Tem gente que acredita em fatalidade, mas como iríamos imaginar, que Paolo Rossi, chamado de “Il Bambino D’Oro” em sua juventude - que andou suspenso por participar da manipulação de resultados no Campeonato Italiano, que passara em branco todas as partidas da Copa, até então, ressuscitaria naquele jogo???
Para surpresa geral, aos cinco minutos de jogo, aproveitando a distração da nossa defesa, Paolo Rossi de cabeça: Itália 1X0 Brasil!!! O alívio, veio logo a seguir, Sócrates empata, em passe de Zico, batendo no contrapé do goleiro Dino Zoff!!! Parecia que, apesar do susto inicial, tudo voltava à normalidade. Mas o que é normal em uma partida de futebol? Aos 25, ainda do primeiro tempo, incompreensivelmente, Toninho Cerezo, que tinha sido palhaço de circo em sua adolescência, resolve fazer graça e dá um passe magistral para Paolo Rossi “fuzilar“ Waldir Perez: Itália 2X1!!! Serginho perde gol feito!!! Aliás, talvez o maior erro de Telê na Copa tenha sido domesticar demais o “selvagem” Serginho, pois o seu rendimento na seleção nunca foi o mesmo demonstrado em seu clube, o São Paulo.
Fim do primeiro tempo. Mas todos ainda acreditavam na virada brasileira.
Os italianos voltam para o segundo tempo se defendendo como podem, até que, aos 23 minutos, o oitavo “Rei de Roma”, Falcão, em um chute forte cruzado, da entrada da área, empata a partida.
– Gooooooool!!! "Estamos na semifinal!!! Vamos ser Tetra!!!" Comemorou, precipitadamente, meu pai.
Sejamos justos, Cerezo colaborou no lance do gol brasileiro também, levando a marcação que os italianos faziam sobre Falcão, abrindo espaço para ele marcar.
Mas sete minutos depois, após escanteio inexistente para a Itália, e bate e rebate na entrada da área brasileira, a bola sobra para ele, Paolo Rossi, que estaria impedido, se Junior não estivesse parado sobre a linha do gol. Itália 3X2 Brasil!!!
O Brasil se lança ao ataque. A Itália se defende, desesperadamente.
Gentile faz falta em Zico e rasga sua camisa. No lance seguinte, Zico, de camisa 10 rasgada, caminha com a bola na direção de Gentile que recua acovardado. Quando finalmente Gentile reúne coragem e dá o bote, toma um “corte” de Zico e cai sentado de bunda no chão!!! Lance inesquecível!!!
O Brasil não desiste, até que aos 43 minutos do segundo tempo, a cabeçada certeira de Oscar, que já tinha ultrapassado metade da linha do gol italiano, é milagrosamente defendida por Zoff!!!
O Juiz apita o fim da partida... É o fim de um sonho!!!
Não há palavras para descrever a decepção e incredulidade do povo brasileiro naquele momento. Meu pai saiu para fumar na varanda com os olhos marejados, minha mãe foi para a cozinha chorar. Eu permaneço só, naquele imenso sofá, como se minha vida tivesse perdido o rumo. Pensei em Marina, mas naquele momento nem a presença dela resolveria.
Estava provado, minha sorte já era!!! Tudo tinha sido uma mera coincidência ou, se não, uma fantasia criada por meu pai.
Na sala de imprensa, na entrevista pós-partida, jornalistas do mundo inteiro aplaudiram de pé o técnico Telê e a seleção do Brasil. A melhor seleção da Copa se despedia do mundial.
A Itália se sagrou campeã, derrotando a Polônia na semi, e a Alemanha na final. Com Paolo Rossi marcando gols em ambas as partidas e se tornando o artilheiro da Copa. O mundo tinha agora duas seleções Tri-Campeãs.
No dia seguinte da derrota brasileira, fui à escola, estávamos em uma semana de reposição antes das férias, e tudo que eu pensava querer, pra me sentir melhor, era sentar ao lado de Marina. Ficar perto de Marina. Mas para minha surpresa e desgosto, ao chegar, os lugares já estavam ocupados. De um lado Marcela, sua melhor amiga e do outro lado, o lado que deveria ser meu, Lucci (???!!!). O que Lucci, oficialmente João Lucas, aquele “filhinho de papai”, estava fazendo ali???
Sentei no fundão da sala e morri de ciúmes quando presenciei uma animada conversa entre Marina, Lucci e Marcela.
Chegando em casa, não tive fome, quase não almocei.
Fui ao banheiro levando O Jornal da Tarde, cuja a capa, emocionante, era a de um menino chorando na “Tragédia de Sarriá”. Comecei a ler a matérias sobre o jogo, e, de repente, a página ficou manchada com grandes gotas, gotas de lágrimas. Sentado no vaso, chorei muito!!! Chorei tudo que estava reprimido! Chorei pelo Brasil, chorei por Marina!!! E pensei: ”Eu sou um grande azarado, isso sim!!!”
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Fausto e Otaviano
Acreditamos que tão grandiosa comemoração pela presença dessas obras em Terras Brasilianas, seja um equívoco que atesta o total desconhecimento do potencial desse artista franco-belga e do melhor de sua obra...”
A coluna dos críticos Fausto e Otaviano não deixava pedra sobre pedra, como o habitual. Menosprezavam as obras do artista e evidenciavam nossa falta de apuro estético. Nosso papel era sempre o de pobres ignorantes, comprando gato por lebre.
Disfarçavam suas maledicências com uma retórica pomposa. Na verdade, parecia mais uma coluna de fofocas.
Enigmaticamente, alguns artistas passavam de “vilões” a “heróis”, ou vice e versa, em um passe de mágica, sem mais explicações. Será que a dupla era de alguma forma "agraciada" por essa inexplicável mudança de opinião?
Mas as críticas criaram um efeito dialético. Quanto pior a crítica, mais aguçava a curiosidade de seus leitores, que não eram poucos, e mais gente comparecia aos eventos, como as críticas da Folha de São Paulo em décadas passadas.
Assim, apesar de não serem queridos, eram quase sempre bem recebidos.
Era comum encontrá-los em teatros, ballet, restaurantes, recitais e concertos de música erudita, feiras de antiguidades e, claro, exposições de arte. Andavam sempre juntos, aliás, gostavam muito dos “holofotes”.
Não sei se sempre escreviam em parceria ou se, muitas vezes, era um vôo solitário, mas a coluna era sempre assinada pela dupla, melhor dizendo, pelo casal. Saiu até uma matéria na revista “Primal Faces”, quando se casaram, em primeiro de janeiro de 2007, no vilarejo de Campillo de Ramos, província de Guadalajara, a 90 minutos de carro de Madri, Espanha. Uma cidade casamenteira, considerada o paraíso do casamento gay.
Mas a parceria “artística” já existia desde 2004.
Conheci a dupla na mostra inaugural de uma exposição de artefatos da China Imperial, somente para convidados, em agosto de 2007. Na época, ainda estava casado, mas como não conseguimos babá, Ligia a contragosto ficou com as crianças. Fui só, sem nenhum amigo, para não aumentar sua irritação.
Inácio Villalba, curador da exposição, nos apresentou.
- Muito prazer!!! A-do-ra-mos suas críticas e artigos!!! Você é uma pessoa que merece nosso respeito e realmente enobrece a música!!! “Declamou” Fausto, de forma afetada. Otaviano limitou-se a concordar com a cabeça.
- Obrigado. Respondi, com uma sobriedade proposital, não acreditando em uma palavra do que dizia aquela “hiena”.
- E está gostando da exposição? Perguntou.
- Acabei de chegar! Na verdade, estava encantado com as peças expostas, mas não queria prolongar aquele colóquio.
- Pois está fan-tás-ti-ca!!! Esses chineses vão dominar o mundo!!!
Apesar da sua tentativa de agradar, senti um extremo desconforto. Tudo soava falso naquela conversa.
- Com licença. Retirei-me, aproveitando a saída de Inácio.
- Arrivederci!!! Disse Fausto, dando ”tchauzinho” com a mão.
- Meio esnobe, não??? Eu achava que ele era mais alto, cochichou Fausto.
Notei que comentavam mais sobre os convidados do que sobre as obras de arte.
Os dois tinham aparências antagônicas. Fausto era pequeno, quase careca, gordo e elétrico. Usava roupas de cores berrantes e gosto duvidoso. Virava uma taça de espumante e logo saia na busca de outra.
Otaviano tinha a pele de um branco quase transparente, magro, muito magro, e alto. Um tipo longilíneo e esquizóide. Usando grandes óculos de aro preto e grosso, com um rosto pequeno de queixo quadrado. Blazer preto, camiseta branca, calça preta e tênis All star bordô, quase roxo. Roxo?!!! Segurava com delicadeza sua taça de champagne, que consumia lentamente. Os dois tinham entre quarenta e cinquenta cinco anos, Fausto era o mais velho, sem dúvida.
Fausto falava sem parar e se esticava todo para fofocar no ouvido de Otaviano, que concordava com a cabeça, sem pronunciar palavra alguma. Quando achava muita graça, dava uma risada fungada, de curta duração.
“Quanta maldade nesses coraçõezinhos”, pensei e me afastei.
Meia hora depois, ao me desviar de uma linda adolescente apressada, esbarrei casualmente no garçom que servia champagne a Fausto.
- Oh! Mil perdões!!! Tentei me desculpar.
- Otaviano, Otaviano!!! Me deram um banho!!! Minha roupa nova!!!Venha me ajudar!!! Gritava Fausto, me “fuzilando” com os olhos.
Acho que naquele momento eu acabara de entrar para a sua lista negra.
Dias depois, leio em Fausto e Otaviano:
“...mesmo sabendo que não é do nosso “metier” a crítica musical, muito nos surpreendeu, de forma negativa, o concerto do Fat Hat Trio, em sua performance burocrática e pouco inspirada, no Memorial da América Latina.
Música linear e letárgica, que sem dúvida, nada acrescentou `a sensação de estarmos ouvindo um interminável cd, World Music, de relaxamento.
Uma real decepção, é “vero”, para um concerto tão incisivamente recomendado e classificado como imperdível por nosso colega....”.
Era a vingança!!!