sexta-feira, 26 de março de 2021

Play!!!

Cícero Delfino da Fonseca, ou CDF como era conhecido pejorativamente pelos colegas, dono das melhores notas de sua sala de Direito, costumava se encaminhar para a biblioteca da Universidade e repassar toda a matéria na véspera dos dias de prova. Como o habitual, sentou-se em uma mesa central, equidistante, mas o máximo distante, de pessoas e das estantes cheias de livros. Quem o conhecia, sabia que ele não gostava de socializar com ninguém nesses momentos.
Ligou seu notebook, abriu um pesado Vade Mecum da biblioteca, colocou seus fones de ouvido Bluetooth, e acessou sua lista de músicas preferidas em um canal de streaming do seu celular, que já acusava estar com pouca bateria. Nesses momentos de estudo, ele gostava de ouvir música clássica pra tranquilizar.
Play!!! Começou com Yo-yo Ma tocando a Suíte No1 para Cello de Bach.
De repente, Cícero Delfino notou uma movimentação estranha ao seu redor… Levantou o seu olhar, tirou seus óculos de leitura, e viu que todos os presentes na sala começaram a se movimentar suavemente, sincronizados ao som de sua música. Dançavam como bailarinos e dançavam bem!!! Estranhando o fato, tirou um de seus fones do ouvido e viu que não havia vazamento de som, mas todos pareciam ouvir perfeitamente a Suíte de Bach. A coreografia evoluía inclusive com interação entre os presentes, como se tivesse acontecido um ensaio prévio. Assustado aperta o Pause interrompendo a música e vê que tudo volta ao normal, à movimentação habitual. Ninguém dançava mais!!! Aperta o Play!!! E todos voltam com as evoluções coreográficas!!! Aperta o Pause… o Play… O Pause… O Play!!! E viu que o processo se repetia!!!
Desligou a música e ficou a observar por momentos o que faziam as pessoas e suas expressões, mas nada anormal, que denunciasse que quiseram lhe pregar uma peça!!!
Como não usava nenhum psicotrópico, para se certificar que não era um momento seu de insanidade, resolveu repetir o processo, mas agora escolhendo um Rock.
Play Again! Jumping Jack Flash dos Rolling Stones!!! E viu que agora, não só voltaram a dançar, como também cantavam sincronizados com a música que pulsava em seus ouvidos!!!
Tomou um tremendo susto, quando um colega da mesa mais próxima, mas não tão próxima, subiu na cadeira, empunhando ferozmente sua "Air Guitar"!!! Até o funcionário que limpava o café derramado no chão da Biblioteca, cantava e dançava a "la Mick Jagger”, com seu microfone de cabo de escovão.
"I'm Jumping Jack Flash, it’s a gas, gas, gas!!!”
Cícero Delfino se escondeu atrás da tela de seu notebook e desligou correndo a música.
Lentamente subiu a cabeça para observar o que estava acontecendo, e viu que nada denunciava o "Rock Horror Show" que acontecera há momentos atrás! Tudo normal, assustadoramente normal!!! Achou tudo até mais silencioso do que o habitual, esquecendo que estava usando fones auriculares.
Será que estava delirando ou presenciara um inexplicável momento de histeria coletiva???
Pensou em ir embora correndo dali, mas como apesar de assustador, o fato não era ameaçador, coçou sua cabeça com os cabelos que já começavam a rarear, tomou coragem e resolveu tirar a última prova antes de sair.
Play!!! Brasil Pandeiro, de Assis Valente, foi sua escolha e… novamente aconteceu!!! Em instantes, a sala da biblioteca parecia mais a quadra de uma Escola de Samba em dia de vitória no Carnaval!!! Todos cantavam, dançavam e faziam do que estivesse à mão seu instrumento de percussão. O frenesi coletivo era emocionante e contagiante, Cícero Delfino começou a perder o medo e tamborilar as teclas do notebook ao ritmo da música, seu corpo sacolejava de leve, um sorriso quase involuntário estampou seu rosto e esquecendo que era desafinado, começou a cantar junto:
“Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos samb…"  
Mas de repente, a música parou!!!
Todos "congelaram" nesse momento, na posição que estavam!!! Bocas abertas sem emitir som, corpos que antes dançavam, agora sem movimento!!! Como estátuas, nem piscavam mais. Mas por quê???
Depois de passar alguns momentos atônito, Cícero Delfino achou a resposta. O mundo parou porque... acabou a bateria de seu celular!!!
Apavorado, levantou recolhendo suas coisas às pressas, caminhou rapidamente pela sala desviando dos dançarinos “congelados”, colocou o Vade Mecum no balcão da bibliotecária, uma senhora sisuda, que gostava mais dos livros do que de gente, que também parecia estar em animação suspensa, e ia saindo em direção à porta, quando a viu olhar por cima do óculos e em um tom sério dizer:
- CDF, da próxima vez, vê se carrega melhor esse celular!!!

PS: "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

BARATA!!!

Eu já tinha começado o meu banho matinal, quando sorrateiramente... apareceu uma BARATA enorme no chuveiro!!! Não tenho medo, mas me sentir confortável? Nunca!!! O que fazer??? Resolvi continuar "normalmente" o banho, mas mantendo a Fera afastada com jatos de água. Mas após uma breve recuperação, lá vinha ela novamente em minha direção. A ideia de ter que pisar nela de pé descalço, era mais repulsiva do que a da angústia do banho conjunto. E na hora de lavar o rosto e o cabelo? Imaginei aquela "monstra" subindo pela minha perna, veloz, atingindo minhas partes baixas, se enroscando em meus pelos pubianos e eu desesperado tentando tirar... Mantive um olho aberto mesmo que sob forte ardência! De repente, atingido pela espuma de meu Shampoo com Ice Cool Menthol, a barata entrou em convulsão... e Morreu!!! Alívio!
Mas enquanto dava descarga em seus restos mortais envoltos por uma alva mortalha de papel higiênico me questionei: "Que veneno colocam nessa coisa? Será que a longo prazo e uso contínuo, esse veneno está matando o meu cérebro também? Será que é por isso que ando tendo lapsos de memória cada vez mais frequentes? O futuro Zumbi será causado por shampoos e outros produtos de uso cotidiano?                      E se eu parar de usar esse shampoo e aparecer outra BARATA???"

sábado, 30 de abril de 2016

Clube 77

Em um casarão, daqueles antigos em São Paulo, funcionava um clube de dança, que parecia de filme, com um salão largo com piso em preto e branco, como um grande tabuleiro de xadrez. Seres anônimos, comuns, aposentados, comerciantes e donas de casa, se sentiam como estrelas. O extravagante e o exagero estavam presentes no figurino e nos movimentos previamente coreografadas dos dançarinos, exceto em alguns poucos, que desfilavam sua arte em movimentos graciosos, precisos e sensuais, com classe e refinamento. A maioria com seus cabelos grisalhos, brancos ou tingidos, frequentava o estabelecimento há décadas. A banda, que tocava um repertório de antigos clássicos, também permanecia a mesma, desde a inauguração da casa, nos anos 70 do século passado, só com a reposição de alguns integrantes por motivos de força maior, um por alcoolismo, uma por invalidez e outros dois por falecimento. 
Ana Luz, como era conhecida Ana Luzia Conceição Carvalhal Fontes Sobrinho, cantora única, contralto de voz poderosa, de descendência portuguesa, foi acometida pelo mal alemão, Alzheimer, começou a ter brancos repentinos e esquecer as letras das canções, e infelizmente foi a aposentada por invalidez há um ano. Desde lá, três cantoras foram testadas e reprovadas pelo gosto popular. A quarta candidata, que não era ruim, fazia a sua estreia, mas a comparação era sempre inevitável e desfavorável.
Um grande candelabro centralizado sobre a pista era a única fonte de luz do salão, nos cantos escuros, do lado oposto ao palco, ficavam as mesas. 
Magro, como era conhecido e ninguém sabia ao certo o seu nome, sentava na mesma mesa do canto, isolada, costas para a parede, longe do bar, há 11 anos, desde a primeira vez que apareceu. Magro não dançava, não conversava ou procurava companhia e seu costume era tomar lentamente o seu conhaque Corvoisier. O garçon deixava a garrafa e não o perturbava, ficava sempre atento, mas raramente era chamado. Mas por algum motivo desconhecido, Magro, bebia cada vez menos.
Segurando a taça na mão esquerda, era canhoto, ficava por horas apreciando a exibição dos dançarinos no salão. 
Mas naquela noite, algo diferente estava para acontecer. 
Duas horas depois de Magro, chegava ao clube um senhor bem vestido, notadamente acima do peso, com um uso excessivo de anéis adornando os dedos rechonchudos, acompanhado de uma bela loira, uns trinta anos mais nova, usando salto alto e algo que poderia ser chamado de mini vestido com um casaquinho, e junto com eles, um “armário” de quase dois metros de altura, com certeza o guarda-costas do senhor gordo . O “armário" entrou primeiro, observou o local e apontou a mesa de Magro para o seu chefe.
Nesse momento soaram os aplausos de final de música, que o gordo bem vestido abrindo os braços, agradeceu como se as palmas fossem em homenagem a sua chegada.
-Narciso, então é aqui que você se esconde? Disse em um tom ironicamente afável, o gordo, se dirigindo a Magro, que era magro, aliás cada vez mais magro, tinha entre 60 a 65 anos, sua pele tinha adquirido um tom amarelado, nunca tirava o casaco, usava um boné cinza escuro, que se tornara um companheiro inseparável, estilo “Andy Capp”*, e sua imagem em nada combinava com a de Narciso, que se apaixonara pelo próprio reflexo.
-Posso me sentar com você? Perguntou o gordo e antes que Magro respondesse, puxou uma cadeira para a loira e outra para ele. A loira agradeceu, sentou e cruzou as belas pernas, longas e torneadas.
-O lugar está ocupado, disse Magro, em tom baixo e seco, com sua voz rouca.
-Realmente, agora está! Hahhahahahhaha!!! Respondeu o gordo enquanto sentava. 
-Caia fora, não falo de negócios aqui!
-Mas o local é publico. Retrucou o gordo, mantendo o tom afável.
-Então senta em outra mesa!!! A voz rouca de Magro fazia sua fala parecer um sussurro, mesmo quando ríspida.
-Já está ocupada, responde o gordo, mandando o “armário” que ficara em pé sentar na mesa ao lado.
Magro se exalta:- Olha aqui, seu filho da p..., mas o gordo interrompe:
-Calma, “take it easy, my friend”, ela, indicando a loira, é muito nova pra ser minha mãe e o assunto é do nosso interesse. E chamou o garçon em seguida.
A loira tentou disfarçar, mesmo ficando visivelmente constrangida com a piada.
-Pois não? Chegou o garçon.
-Ele não quer nada, já está de saída!!! Disse o Magro subindo um pouco o tom rouco.
-Estou, diz o gordo, mas antes quero brindar com meu amigo, que me ofereceu um pouco de seu delicioso conhaque. E pra ela um Campari. Ah! E água ou refrigerante para o pequeno, que ele está dirigindo, disse se referindo ao "armário”.
-E o senhor, Seu Narciso, quer mais alguma coisa? Perguntou o garçon querendo mostrar intimidade.
-Seu o que? Do que você me chamou, seu enxerido??? Indagou Magro subindo ainda mais o tom rouco.
-Me desculpe, Seu… seu… respondeu o garçom, completamente perdido e sem jeito.
-Calma, intervém o gordo, um sujeito tão bonito assim tinha que chamar Narciso! Hhahahahhaha!!! E colocando a mão em concha, cochicha para o garçon: - É só um apelido, mas claro que ele não gosta.
O garçon se retirou rápidamente.
-Belo esconderijo, bem conservado, boa bebida, sem câmeras de segurança, os que dançam nem sabem que você existe… Elogiou o gordo.
-Venho aqui para relaxar, não pra me esconder. O que você quer? Perguntou Magro, voltando ao tom baixo.
-Você desapareceu e não cumpriu nosso último contrato.
-Desisti.
-Como assim? Não existe desistência, você sabe disso! Disse sério o gordo. 
-Eu devolvi o dinheiro.
-Você sabe que não é só uma questão de dinheiro, é uma questão de honra! E os que me contrataram estão perdendo a paciência, querem ver o negócio finalizado.
-Eu desisti. Repetiu Magro.
-Não existe desistência, nunca houve e nem haverá! Afirmou categoricamente o gordo, empurrando um envelope cheio de dinheiro na direção de Magro. A loira olhava na direção do envelope com um olhar mais necessitado do que ambicioso.
-Não vai dar, arrume outro.
-Não existe outro!!! Gritou o gordo dando um tapão na mesa. A loira se encolheu assustada.
-Que pena, sempre há uma primeira vez. Disse o Magro com um sorriso irônico.
Fez-se uma breve pausa na conversa na volta do garçon. 
Após apreciar o conhaque de Magro, o gordo retomou:
-Posso saber o por quê da desistência?
-Não.
-Eu insisto, tantos anos e você nunca falhou.
-Eu não falhei, eu desisti. Retrucou Magro.
-Mas por quê? Eu quero saber!
-Ele tem câncer.
-Que bom, então vai morrer mesmo!
-Vai, o médico deu 6 meses a um ano pra ele.
-Então… Disse o gordo gesticulando, ansioso para Magro confessar de vez o motivo.
-Ele tem uma filha de 4 anos, que perdeu a mãe quando nasceu. Não vou tirar dela os últimos meses com o pai.
-Ah, é por isso, virou sentimental!
-Sempre fui. Não aceito contratos de mulheres e crianças.
-E agora de doentes também, pelo jeito.
-Pode ser.
Magro notou que a loira também tinha se sensibilizado com a história da filha do pai canceroso, seus olhos marejaram e ela tentava disfarçar. Talvez fosse mãe e exercesse a profissão de “dama de companhia” por necessidade.
-Meu caro, ou a filhinha dele vai ficar triste ou sua netinha vai, você escolhe!!! Ameaçou o gordo colocando uma foto de Magro brincando com sua neta no parque sobre a mesa.
-Isso é uma ameaça??? Perguntou Magro raivoso.
-Entenda como quiser. Ironizou o gordo.
Magro observou que o “armário” sorriu maliciosamente, abrindo o casaco e mostrando que estava armado. 
A música soava alto, naipe de metais, virada de bateria, glissando do piano, os dançarinos caprichavam na coreografia e ninguém sequer imaginava a tensão que ocorria na mesa de Magro. Tinha o garçon atento a tudo, mas era um risco inevitável. 
Repentinamente, Magro engasgou com o conhaque, sempre em sua mão esquerda, teve um acesso violento de tosse e encobriu a boca com o guardanapo branco que estava em seu colo com a outra mão. O Gordo e o “armário" puseram-se a gargalhar com a tosse interminável de Magro, que ficava roxo. 
A loira tentou ajudar pedindo água ao garçon.
De repente a mão esquerda de Magro sumiu sob a mesa, a gargalhada cessou com dois estampidos secos que abriram um furo de borda chamuscada no guardanapo. No salão, a música encobria tudo.
-Não grite! Não quero ter que atirar em você!!! Sussurrou Magro para a loira apavorada, que fez sim com a cabeça.
Magro guardou sua arma com silenciador sob o casaco, tomou um último gole de conhaque, limpou as suas digitais do copo, levantou, recolheu a sua foto com a neta e endireitou na cadeira o corpo do “armário”, que ameaçava desabar. Mandou a loira abraçar e segurar o gordo.
Pegando o envelope de dinheiro, tirou um "bolo" e deu o resto a loira:
-Mude de vida. Você merece algo melhor do que isso. Você tem um filho, não tem?
A loira concordou assustada com a situação e com a dedução do Magro.
A musica terminou com a ovação dos dançarinos que aplaudiam a banda e suas próprias performances.
Magro ia saindo quando se deparou com o garçon chegando com a água, mas recusou o copo oferecido e colocando o dinheiro do envelope no bolso do garçon, disse:: 
-Você não me conhece nunca me viu, se eu souber que você deu com a "língua nos dentes"" eu volto, ok???”
-Sim Seu… Seu… Gaguejou o garçon.
-Como é meu nome? Perguntou Magro.
-Não sei… nunca vi o senhor aqui!!! Respondeu o garçon.
-Bom garoto! Maurício, bom garoto! Elogiou Magro, olhando o nome do garçon no seu crachá.
No caminho da porta um japonês bêbado saindo do banheiro esbarrou em Magro.
-Omae, bakayaro, doko o mite aruitenda??? ( Seu idiota, olha pra onde anda!!!)
Magro tentou passar, mas o japonês atravessou de novo o seu caminho.
-Ayamare yo!!! (Se desculpe!!!)
Magro respirou fundo, não contava com esse imprevisto atrasando a sua saída.
Providencialmente Maurício interveio tentando resolver o impasse.
-Pode ir Seu Magro, eu dou um jeito aqui!
-Maguro? Omae wa sakana ka??? Temee wa otoko ja nai yo! Nigueruna!!! ( Atum? Você é um peixe??? Homem que não é! Não fuja!!!) Bradou o nipônico ofendido, enquanto Maurício tentava acalmá-lo: - Calma, não chame Seu Magro de sacana, ele pode se irritar!
Magro saiu rapidamente, acenou para o porteiro, seu velho conhecido, chamar um taxi. Deu uma última olhada para o luminoso da entrada, Clube 77, e pensou: ”Vou sentir saudades!” Tirou o boné como uma reverência, revelando os cabelos ralos, resultantes da quimioterapia,
Magro, nome verdadeiro desconhecido, apelidado também de Narciso, 63 anos, assassino de aluguel, canhoto, com ictericia, diagnosticado com câncer terminal no fígado, deu adeus ao seu clube preferido, colocou o boné, entrou no taxi e foi embora.

"Andy Capp"*: Personagem de Cartoon criado por Reg Smythe (1917/1998), conhecido no Brasil como "Zé do Boné".

O Sumiço de Deus (Cenas Pré-Pandemia)


- Eu desisto!!! Bradou Deus.
- Calma, o Senhor não pode… Suplicou Mikael (I).
- Como não posso??? Eu posso fazer o que Eu quiser!!! Afirmou um quase colérico Todo Poderoso.
- Mas o Senhor não quer isso, tanto tempo investido… Pense bem, não com a razão, mas com Seu amor infinito. Ponderou Gabriel.
- Claro que Eu quero!!! Cansei!!! Meu Amor é infinito, mas acabou!!! É como dizem na Bahia: "Tem, mas acabou!!!” Eles passaram dos limites!!!
A Humanidade ia de mal a pior e dessa vez parecia que Deus tinha realmente perdido a paciência.
- Eu sei, mas eles sempre agiram assim, e o Senhor, na minha opinião, foi tolerante demais, eu acho que uma sociedade Matriarcal teria sido uma decisão mais acertada… Comentou Dinah, questionando insolentemente as decisões Divinas do passado.
Quando viram que Deus ficara rubro com o comentário, os olhares "fuzilantes" se voltaram para ela.
- Menos Dinah, menos!!! Advertiu Uriel.
- Calma Senhor, olha a sua pressão… Suplicou Mikael (II) para Deus.
Jesus tomou a palavra.
- Acalmai-vos irmãos, apesar da petulância, existe alguma lógica no que ela diz. Meu Pai sempre foi extremamente paciente e amoroso com eles. Mas desde o Jardim do Édem, nada era bom o suficiente, eles nunca estavam satisfeitos ou agradecidos…
- O problema foi Ele ter criado Eva! Ela é que se deixou seduzir pela Serpente!!! Afirmou Uriel, de forma misógina.
- Foi Eva uma “porra"!!! Se aquele Adão não fosse um frouxo e desse a atenção devida, Eva nunca iria procurar outra “Serpente"!!! Retrucou Dinah.
- Aquela vadia, vocês é que ferraram com tudo!!! Re-retrucou Uriel.
Dinah partiu para cima de Uriel, que era um troglodita com quase o dobro de seu tamanho com o dedo em riste:
- Vocês quem??? Seu machista! descarado!!! Deus é paciente demais com alguns aqui também!!!
- Calma gente, calma… Suplicou Mikael (III), se interpondo entre os dois.
Jesus retomou a palavra.
- Mas depois disso tivemos muitas outras tentativas de colocar o trem nos trilhos, umas até esdrúxulas, como aquela Arca, idéia maluca que Uriel Lhe vendeu e o Senhor comprou, meu Pai! Quanta vida se perdeu!!! Quarenta dias e quarenta noites de chuva, quanta água desperdiçada! A gente reclama dos Homens, mas esse mal exemplo foi nosso!!! Eu fui voto vencido! Graças ao nosso querido e "brilhante"" Uriel!!!
Dinah adorava o tom irônico com que Jesus menosprezava a inteligência de Uriel.
Deus concordou com a cabeça, Ele sabia que a arca e o diluvio não tinham sido das medidas mais brilhantes e econômicas. Mas antes culpar a chuva do que passar milênios na terapia por ter exterminado quase toda a sua criação na Terra. A Sua relação com Uriel nunca mais fora a mesma depois da Arca e ele se ressentia disso.
- Seu filhinho de Papai, deixa eu te encontrar sozinho!!! Vociferou Uriel para Jesus.
Jesus sorriu de volta aumentando ainda mais a raiva de Uriel.
- Calma, por favor, calma… Suplicou Mikael (IV).
- Paz irmãos, respeitem a presença do Pai!!! Falou Gabriel colocando ordem.
Com a calma retomada Jesus continuou.
- Eloi, Eloi, Lama Sabactani?* O Senhor se lembra, não é??? Eu mesmo já dei minha contribuição pessoal, disse Jesus mostrando a marca dos cravos nas mãos, mas apesar de durar dois mil anos, foi só uma solução parcial. E eu não vou lá de novo!!! É muita falta de consideração da parte deles!!!
- É verdade filho, eles destroem a Terra que lhes dei, desrespeitam, traem e matam uns aos outros, a minha Igreja há muito não me representa, prega absurdos em Meu nome e virou uma máquina visando lucros, extorquindo e manipulando a desesperança e o sentimento de culpa dos Homens. Triste, Deus estampava toda a Sua decepção em Seu semblante.
- Eles sempre fazem o que querem, chamam de Livre Arbítrio, mas quando dá merda (e sempre dá)… Chamam pelo Seu Amor: "Pelo Amor de Deus”, me salve!!!” Aí é demais!!! Mesmo com toda a Sua Santa Paciência não dá, né??? Os Dez Mandamentos, amai ao teu próximo como a ti mesmo… Justiça Social, Igualdade entre os Homens, ninguém sabe mais o que é isso!!! É cada um querendo garantir o seu!!! Estão fazendo o Senhor de palhaço!!! Comentou Dinah colocando mais lenha na fogueira.
- Pai, por favor, se quiseres desço lá e levo Sua mensagem de descontentamento e advertência. Interveio Gabriel, tentando dar um último sopro de esperança para a Humanidade.
- Não Bié, dessa vez eu vou deixar que aprendam com o próprio erro ou que se destruam em sua ganância. Talvez eu tenha sido por demais benevolente e paternalista. Disse Deus, refletindo sobre suas decisões passadas.
- Mas Pai, sem a Sua presença, Lucifer vai espalhar o terror!!! Argumentou Gabriel.
- Ah, Lucci, Lucci, por que tanta maldade nesse seu coraçãozinho??? Onde foi que Eu errei com você também? É, assim será, mas dessa vez o Homem vai ter que se virar sozinho.
- Talvez colocando as mulheres no comando dê uma guinada na coisa… Tentou argumentar Dinah, mas foi interrompida por Jesus:
- Que seja feita a Sua vontade assim na Terra como no Céu.
Uriel, depois da Arca, não ousava a dar mais sugestões estratégicas de como lidar com os Homens.
- Por favor Senhor, uma última chance para eles… Suplicou Mikael (V).
Mas Deus sem responder, cabisbaixo, dirigiu se a passos lentos para seus aposentos.
Seria essa a Sua decisão definitiva, para todo o sempre???
Será esse o ponto final para a raça Humana???
Aproveitando a deixa, Jesus jogou um beijo para Uriel e se retirou também.


- Eloi, Eloi, Lama Sabactani???* : - Deus Meu, Deus Meu, por que me desamparaste???

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Segunda???

Acordei com o barulho do abrir e fechar portas e gavetas do guarda roupa, o relógio no móvel de cabeceira marcando 6:12 AM.
- Mulher, você enlouqueceu??? São 6:10 h da manhã e você fazendo essa confusão??!!!
- Olha, me deixe, viu!!? Eu tenho uma reunião as 8h e não posso me atrasar e o trânsito está terrível, ainda mais com esse prefeito achando que o bom é tirar asfalto e colocar calçada! Respondeu já estressada. Pela luz que entrava por uma fresta na cortina via seu vulto andando do quarto ao banheiro e do banheiro ao quarto.
"Transito terrível, hoje?” Bom, reunião no sábado é pra estressar mesmo, pensei.
Voltou já maquiada e me deu um beijo na testa antes de sair.
- Ah! Deixei seu suco pronto. Disse, apontando o copo sobre o móvel de cabeceira.
Agradeci e tomei o meu suco de laranja com couve, gengibre, chia e mel de todas as manhãs
Engraçado, para um sábado cedo estava mesmo movimentado, ouvia barulho de muitos carros passando.
Abstraí e resolvi dormir mais um pouco.

9:48 AM
"Prrrrrrrrrrrrrrrrrrr, pant pant pam pam, pant pant pam pam…”(Tema de Missão Impossível de Lalo Schifrin )
O meu celular!!!
- Alô??? Atendi a contragosto.
- Oi, é Julia, você já tá chegando? Era minha assistente.
- Chegando aonde??? Perguntei ainda sonolento.
- Na reunião com o cliente, marcada para as nove e meia!
 - Mas a reunião é só na segunda, Julia!!!
- E que dia é hoje? Hoje é segunda!!!
- Não, hoje é sábado!!! Retruquei irritado.
- Ai, ai… Olhe, vou pedir milhões de desculpas, e dizer que você acordou com uma enxaqueca terrível e não pode vir. Depois a gente se fala. Vou voltar para a reunião.                          
 E desligou antes que eu pudesse dizer algo mais.
Olhei para a tela do celular que informava: segunda feira, 17 de agosto
"Segunda, como assim???""

Não consegui mais dormir e levantei da cama contrariado:
“Que saco!!! Se hoje é segunda, onde foi parar o meu sábado e domingo???”
Fui ao banheiro escovar os dentes e reparo que minha barba está crescida, como se eu não a fizesse há alguns dias, e eu só deixo de fazer a barba aos finais de semana.
Liguei o computador e as notícias eram as de segunda-feira de manhã e as resenhas do final de semana: O dólar inicia a semana em alta; O Governo cogita aumentar o IOF; Irã, Refugiados, a morte no mar; O Corinthians assume a liderança do Campeonato Brasileiro; sempre Djokovic, nada de novo…
A irritação, dá lugar a angustia. Eu não lembro de nada do final de semana!!!
Entro no Facebook, Instagram, e… Nada!!! Não tive nenhuma movimentação, nenhum post, nenhuma curtida ou comentário. Nem sábado, nem domingo!!!
O desespero aumentou.
O único post, na minha Timeline, era da segunda mesmo, um link patrocinado anunciando os shows de David Gilmour no Brasil. No post, ironicamente, Gilmour canta:
“Waiting for someone or something to show you the way… and you run to catch up with the sun, but it’s sinking…” (Time, Pink Floyd)
Levantei sentindo uma tontura muito forte. O mundo girava dentro e fora de minha cabeça!!!
Desmontei sobre o sofá da sala, ofegante.
Tentei me acalmar fazendo hiperventilação.
“Calma que tudo vai ter uma explicação lógica...” Repetia como um mantra.
Senti uma dor aguda no estômago, excesso de ácido clorídrico pelo nervosismo, mas fome também.
Voltei da cozinha comendo duas bananas amassadas com farinha láctea pensando no que fazer a seguir.
Peguei o celular pensando em ligar para minha mulher, mas por mais que tentasse não conseguia lembrar o seu número, e fiquei estupefato notando que tanto a agenda como o registro das ligações desapareceram!!!
Segurei o prato, mas o garfo foi ao chão.
O único número que restava era o da ligação de Julia essa manhã.
- Oi Julia…
- Oi, acordou?
- Sim, mas preferia que tudo fosse um sonho…
- O que foi?
Expliquei a situação e quase choro ao telefone.
- Fica calmo, não se preocupe com o trabalho que eu resolvo por aqui…
- Ok…
- Olha, eu tenho um tio neurologista, vou falar com ele pra te atender de urgência.
- Tá bom, obrigado…
- Se cuida, beijo.
Lembrei que Julia, curiosamente, sempre tinha parentes morando em todos os lugares, que íamos a trabalho e com profissões úteis e estratégicas.
"Pim!" (Barulho de zap 1)
“Meu tio vai te atender na hora do almoço, 12h em ponto. Vou mandar um motorista 11:40.”
Digitei: “Ok. Obrigado!”
"Pim!" (Barulho de zap 2)
Número de Lidiana (minha esposa): 9116…                                                                                            Liguei em seguida.                                                                                                                                            - Oi, Lidi…
- Ainda estou em reunião, pode ser mais tarde?
- Preciso falar com você, é importante!!!
- Espera que eu vou sair da sala… Diga…
- Você sabe o que eu fiz no final de semana?
- Como assim?
Contei o ocorrido, ela se mostrou bastante nervosa e preocupada, estranhou minha ausência nas Medias Sociais, mas não se lembrava de nada diferente ou especialmente relevante que eu tivesse feito no final de semana.
- Você bateu a cabeça ou algo assim? Perguntou.
- Não, não que eu me lembre…
Contei que ia ao neurologista.
- Me ligue assim que sair da consulta, ok? Vou tentar sair mais cedo hoje.
- Tá bom…
- Beijo.
- Outro…

Desci as 11:35 e encontrei um funcionário varrendo a entrada do prédio.
- Bom dia!
- Bom dia… você é o…?
- Florisvaldo, Flori.
- Você é novo aqui Flori?
-  Mais ou menos, faz 7 meses. Cheguei umas duas semanas antes do senhor trocar de carro.
- Ah, sim… Flori, você trabalhou no final de semana? 
- Não, senhor, foi minha folga.
- Que pena… então você não me viu nem no sábado, nem no domingo.
- Não vi não, senhor. Respondeu com uma cara de que não estava entendendo a conversa.
- Soube de alguma coisa relacionada comigo?
- Não, é...  só sua vizinha do 101…
- O que tem ela?
- Comentou que o senhor ouviu a mesma música chata o fim de semana todo!
- A mesma música??? Eu é que fiquei sem entender nada.                                                                      - - -   - Valeu, Flori!!!
O motorista chegou buzinando, fui ao seu encontro.

12:05 PM
Chegamos com 10 minutos de atraso devido ao trânsito e ao motorista “Roda Presa”.
- Obrigado, pode ir…
- Não posso não, Dona Julia falou pra eu trazer o senhor e levar pra sua casa. E quando Dona Julia fala, é ordem! Respondeu.
Dei uma risada irônica e segui para o consultório.
Dr Paulo de Tarso, tio de Julia, renomado neurologista, deve ter mais de setenta anos, homem de voz pausada, que pensa antes de cada fala, após um exame minucioso e cuidadoso, disse que era uma perda de memória recente, mas que aparentemente eu estava bem. Receitou uma tomografia computadorizada e repouso.
Não sabia se me sentia aliviado ou mais preocupado.

Voltei para casa.
Intrigado pelo comentário da música chata de Flori, interfonei para a vizinha. Mas ninguém atendeu.
Liguei o computador, fucei o histórico pra ver se achava alguma pista. Nenhuma, a não ser um link de uma página do youtube, cheia de conteúdos para meditar, relaxar e dormir, com sons de chuva, mar, água, natureza, um som leve e melancólico de mão direita de piano entrecortadas por cantos de baleias, que vinham lá de longe, passavam e iam embora. Uma repetição que durava horas. "Será???" Isso explicaria o comentário da vizinha.
Mas isso não seria suficiente para me fazer dormir dois dias…
"O suco!!! " Bastaria colocar Lexotan ou algo desse tipo e misturar no liquidificador.
Tanto tempo sem comer explicaria a fome também!!!
Então eu realmente poderia ter visto minha mulher sair no sábado de manhã, dormir e acordar só na segunda com a ligação de Julia achando que ainda era o mesmo dia.
"Mas por quê??? Teria sido Lidiana? Só nos dois estivemos no apartamento no fim de semana!!! Mas por que ela faria isso? Será que ela voltou para desligar o computador? Pra quê um plano tão mirabolante?
Teoria da Conspiração???"
Muitas idéias me passavam pela cabeça, mas nada que justificasse.
"Um amante???" Acho que não… Passávamos por uma fase tão boa, sem crises. 
E a voz dela realmente transparecia nervosismo quando liguei. Acho que ela saiu na segunda mesmo pela manhã e eu estava sendo injusto com ela.

5:45 PM
- Oi Lidi, você já está vindo? Perguntei.
- Estou quase chegando. Quer que eu leve alguma coisa?
- Não…
- O que o neurologista falou?
- Me recomendou uns exames…
- E você está se sentindo melhor?
- Mais ou menos, quando você chegar eu te falo…
- Ok, amor, eu já estou chegando! Beijos…
Desliguei sem responder, louco para questioná-la, mas com muito medo das respostas.
Para minha surpresa vi que a agenda do meu celular tinha voltado, algo que sumiu sem explicação, voltou da mesma maneira. Teria sido um pane do aparelho ou da operadora?
Deitei na cama com a luz apagada tentando controlar o stress.
"O que era imaginação? O que era realidade???"
Ouvi o barulho de chave destrancando a porta.
Hora da confrontação!!!
Ela entrou apressada, acendeu a luz da sala, sei, pelo barulho, que nem tirou os sapatos como é de costume aqui em casa. Chegando ao quarto, correu ao meu encontro e me abraçou.
- Como você está, meu amor??? Perguntou demonstrando aflição e acendeu o abajur.
Nesse momento entrei em estado de choque. A roupa era a mesma que ela usava ao sair, a voz me soava familiar, mas eu não tinha a menor ideia… de quem era aquela mulher!!!
- Que-quem é você??? Perguntei gaguejando, quase sem voz.

"There's someone in my head but it's not me..." (Brain Damage/Pink Floyd)                                            


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Pizza à Portuguesa

No primeiro encontro só os dois, há mais de 20 anos atrás, “duros”, como eles eram e encantada, como ela estava, a pizza lhe pareceu uma ótima pedida.
Logo que chegaram à  Pizzaria, ele pediu um vinho tinto seco, nacional e barato, claro, e apesar de seu gestual exagerado e sua fala em um tom que parecia querer que todo o restaurante ouvisse, ela achou muito chique ele gostar de vinho e o máximo o seu jeito “autêntico” de ser.
Antes de fazerem o pedido, ele, jornalista, persuasivo com as palavras, fez uma explanação eloquente de qual o seu sabor predileto de pizza e o porquê. Quase um monólogo, com pouquíssima participação dela.
- Eu gosto é de pizza à Portuguesa, não peço outra!!! Ela tem a cobertura cheia de ingredientes... lembra uma senhora portuguesa, gorda, daquelas que adoram cozinhar coisas deliciosas. É uma pizza que vale o dinheiro que você paga, dá pra matar a fome!!! Não é que nem pizza de Muzzarela, que não tem personalidade, parece sempre que falta alguma coisa, que é só a base pra um outro sabor... Não é mesmo???
Ela concordou meio sem jeito (na verdade, ela adorava pizza de Muzzarella) e nem ousou dizer que a Margheritta era o seu sabor predileto, com medo de decepcioná-lo.
Ele terminou a sua justificativa perguntando em seguida:
- Vamos pedir??? Que sabor você quer???
- Pode ser à Portuguesa... Respondeu ela querendo agradar.
- Ótima pedida!!! Garçon, a de sempre!!!
Na verdade, ela não gostava nem de presunto, normalmente apresuntado, e muito menos do indigesto farelo de ovo de gema dura que cobria a pizza à Portuguesa, mas inocentemente pensou: “Que mal haveria em fazer aquela concessão???” Sem imaginar que nos 20 anos seguintes, a pizza à Portuguesa passaria a ser um símbolo da dominação e do poder dele sobre ela.
Ela aceitava, no início por se sentir culpada, não querendo desmentir o primeiro encontro, e depois por resignação, achando que esse tipo de atitude, herança incrustada de sua forte formação católica, negando a si própria, ajudava a manter a relação familiar estável.
Negou tanto e por tanto tempo, que chegou a acreditar que aquilo seria o máximo da felicidade que lhe seria concedida nessa vida.
Mas, 23 anos, 21 de casamento, 2 filhos e muitas pizzas à Portuguesa depois, o inesperado acabou acontecendo. Na mesma pizzaria do primeiro encontro, que aliás nunca deixaram de frequentar, só os dois, na comemoração do aniversário de casamento, ele foi ao banheiro enquanto esperavam a pizza, e, por um descuido, esqueceu seu celular sobre a mesa.
Ela ouviu o som que avisava a chegada de um “zap” no celular do marido e não resistiu à curiosidade. Nunca tinha feito isso antes, mas aproveitando a demora dele, resolveu “xeretar” suas mensagens. Mas para desbloquear o celular tinha que primeiro descobrir a senha. Qual seria??? Tentou 18 08, o aniversário dele, e por incrível que pareça acertou. Pensando bem, era uma escolha lógica para alguém tão egocêntrico. Ela leu a mensagem que chegou, empalideceu, depois as mensagens anteriores, seu coração disparou, e as respostas dele, não conseguia respirar direito, pensou em fugir... mas acabou ficando.
Ele voltou do banheiro e olhando as mensagens no celular comentou:
- Pô, o Luciano mandou uma mensagem querendo que eu passe no jornal ainda hoje a noite... logo hoje??? Bom, se ele precisar muito eu dou só uma passadinha rápida!!! É trabalho, né???
Ela permaneceu calada com seus olhos fixos nele.
Ele continuou:- Então, vamos fazer um brinde??? À Nossa!!!
Mas em vez do encontro das taças, ele acabou recebendo um inesperado banho de vinho tinto!!!
- O que é isso??? Você enlouqueceu??? Perguntou ele.
- Seu cínico, canalha!!! Então é o Luciano que quer te dar hoje??? E no trabalho???
- Você... você mexeu no meu celular??? Isso é falta de respeito!!! Bradou ele, tentando mudar o foco.
- Mexi sim!!! Ainda bem que mexi!!! Quem é você pra falar de respeito??? Faz quanto tempo você me trai com essa mulher??? Pelas mensagens da pra ver que não é coisa nova!!! A quanto tempo você me engana???
Percebendo que a máscara caíra ele foi acometido por um incontrolável acesso de tosse.
Sentindo se livre para dizer o que queria como a muito não se sentia, ela emendou: - Eu quero que vocês vão se foder, você e essa sua querida putinha!!!
Nesse momento o garçom vinha chegando com a pizza.
- E tem mais, enfia essa pizza no rabo, porque eu odeio pizza à Portuguesa!!!
E levantando, pegou a bolsa e se retirou do recinto, deixando ali o marido, sério candidato a ex, atônito e sem saber onde “enfiar a cara”.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

No Bar do Portuga

Junto de um velho relógio para os clientes sem "se mancol"  lembrarem da hora de ir embora, a parede do bar ostenta uma placa com a frase: ”Aqui se reúnem políticos, pescadores, publicitários e outros mentirosos.”
Caubi e Haroldo, companheiros de copo de longa data, semanalmente, bebem sua habitual cervejinha de final de tarde no Boteco do Postiga, ou Bar do Portuga, como é mais conhecido. O Postiga é um português meio mal humorado, meio “Seu Lunga”, que vindo de sua terra natal, Leiria, se estabeleceu no bairro de Itapuã, em Salvador, perto da colônia de pescadores, há mais de 30 anos.
Entre uma “saideira” e outra, os 2 amigos conversam sobre a conjuntura política nacional e mundial, barcos, fotografia, filmes, livros, artes em geral, futebol, mulheres... futebol... mulheres, e o que mais coçasse a língua.
Lá pelas tantas, quando o fim de tarde já é noite, Caubi, colocando a mão ao lado da boca, indaga cochichando:
- Haroldo, você sabe o que aconteceu com os 6 anões de Branca de Neve?
- Eram 7 anões, não 6! Responde Haroldo, achando que o erro matemático era fruto de confusão alcoólica
- Eram 7, mas são 6!!! Retifica Caubi.
- Como assim???
- Deixa eu explicar: O Mestre, caiu fora do grupo! Como ninguém mais gosta de velho sábio, ficou fora de moda e caro, (muito caro!!!), contrato antigo, desde 1937... foi obrigado a aceitar a proposta de demissão voluntária. Você acha que os Disney são bonzinhos? O Soneca, foi diagnosticado com depressão crônica, tá internado. O Dengoso, saiu do armário, finalmente se assumiu! Com aquele dengo todo, né... O Atchim (A TIM), acho que foi trabalhar com telefonia, mas quando atende o telefone mais espirra do que fala... Hahhaahhahahhaha! O Feliz, foi descoberto, é usuário de drogas pesadas! Também pra ficar feliz o tempo todo... Ah! E por que 6? Porque no Brasil, a gente descobriu, que na vida real o Dunga*... é o Zangado!!!
Os dois caem na gargalhada e Haroldo quase engasga com o gole de cerveja.
De trás do balcão, Postiga observa mal humorado, achando que a conversa é sobre ele.
- E que fim teve a Branca de Neve? pergunta Haroldo.
- Olha, não tenho certeza, mas dizem que... Caubi para e suspira.
- Dizem o que, Caubi?
- Calma rapaz, você tem que aprender a respeitar a pausa dramática... O suspense ajuda a valorizar a história.
Voltam as gargalhadas.
- Dizem Haroldo, que a Branca de Neve virou a chefe do tráfico no morro. E que com ajuda da Gang dos anões, ela fornece a Branquinha pra toda Hollywood. Que ela usa de fachada uma laje daquelas de bronzeamento com bikini de fita isolante. Vai lá um monte de famosos e famosas, que voltam bronzeadinhos, mas com o nariz branquinho! O Bronze da Branquinha, ou seria, La Plata da Branquinha? Está podre de rica!!! Hahhahhahahhahha
A onda de gargalhadas soa mais avassaladora ainda, até quem passa na rua para pra olhar.
Notando a atenção dos transeuntes, Haroldo, em uma pequeno momento de vaidade, tira os óculos e guarda no bolso. E interrompendo o riso pergunta:
- Caubi... (com pausa dramática) e tem morro em Hollywood? 
- Claro que tem, Haroldo! Não tem aquele morro escrito Ho-li-u-di? Responde Caubi, acompanhando a fala com um movimento horizontal do dedo.
- É verdade! Tem razão, nobre companheiro!!!                                                                                               - "Bora" tomar a última que hoje tem jogo do Bahia!!! Apressa Caubi olhando o relógio na parede.
Bebem mais um pouco e respiram fundo, tentando voltar à pulsação normal entre as risadas intermitentes. Observam o gracioso sacolejo dos quadris das mulheres que passam pela rua, pedem mais uma “saideira” para o emburrado português e brindam:
- Que nossas mulheres nunca fiquem viúvas e BBMP*!!!

 Dunga*: Referência ao ex-técnico da Seleção Brasileira de Futebol e sua fama de mal humorado. BBMP*: Grito de Guerra dos torcedores do time do Bahia.