sábado, 3 de julho de 2021

Sonata ao Luar

Naquela estrada escura, no meio do nada, como em todas as noites de lua cheia, sobre o asfalto ainda morno, Wepet, o sapo, contemplou apaixonadamente a sua Musa. E ela retribuía toda aquela admiração com um raio de luar, que como um spot de luz, iluminava o solista batráquio no seu palco predileto.             Inspirado, Wepet inchou o peito e iniciou seu canto, que encheria de orgulho "Pavarottis", "Domingos" e "Carusos", era Sonata ao Luar de Ludwig Van Beethoven! Acompanhada só pelos grilos, sua voz de tenor cortou a escuridão ecoando por quilômetros e mais quilômetros, em um esforço incontido para alcançar a Rainha da Noite. Façanha sempre almejada e, infelizmente, nunca realizada!!!                                        Será que dessa vez, finalmente, seu canto se projetará através do vácuo espacial e chegará até ela???      Eis que quase no momento máximo de sua apresentação, no prenúncio do Gran Finale a plenos pulmões... "Vrrrruuuuuuummmmm!!!" Passou uma enorme carreta, que tornou o nosso artista uma pintura plana no asfalto!!!                                                                                                                                                          A carreta se foi, sem remorso e sem olhar pra trás!!!                                                                                   ...                                                                                                                                                                   De repente, quebrando o silêncio fúnebre, longe lá do céu, de uma estrela muito brilhante e recém surgida, a voz do batráquio apaixonado voltou a ecoar, finalizando com eloquência a sua sonata!!!            A Lua, que finalmente pôde ouvir aquele canto, corou e aplaudiu encantada!!!                                        As estrelas piscaram longa e seguidamente, "Standing Ovation"!!!

Wepet, finalmente conquistou a sua Musa!!!

terça-feira, 22 de junho de 2021

Ensaio Sobre Um Hamburguer

Preparei um hambúrguer em casa e o seu cheiro ficou impregnado, não sei se foi em minhas narinas, nos meu cabelos, ou talvez, em meu ser como um todo. Sendo assim, tomei um banho completo pra me livrar de sua insistente companhia. Mesmo rendido ao banho, relutei em escovar os dentes, queria poder desfrutar seu sabor por mais algum tempo, ele não era especialmente saboroso, era desses simples, de caixa. Nada desses caríssimos gourmets, mas me trouxe a lembrança saudosa de outros hambúrgueres, ao longo de minha vida.

O primeiro, claro, o de minha mãe, todo caseiro, cuja forma lembrava mais o polpetonne do Jardim de Napoli, do que o dos hambúrgueres tradicionais, era redondo, gordo e suculento. Não comíamos como um sanduíche e sim como protagonista nas refeições, o sabor era diferenciado, não sei se melhor, mas diferente de todos os outros, que vieram depois. Creio que minha opinião seja suspeita nesse caso.

Minha segunda lembrança "hamburguerística", ainda na infância, é um "walking thru” pós praia, em uma fila enorme, todos em trajes de banho, com meu pai e minha irmã mais velha, em um BOBS, em nossas férias no Rio de Janeiro, acho que era em Ipanema, onde todo o atendimento/pagamento/retirada de sanduíches era feito através de um “buraco na parede" e nada víamos do interior do estabelecimento. O sabor do sanduíche??? Não tenho mais a mínima ideia!!!

Não havia muitas cadeias de Fast Foods no começo de minha adolescência paulistana, lembro do Jack in The Box no estacionamento do Jumbo Eletro do Aeroporto de Congonhas e na Praça Panamericana, então, o cheese salada da lanchonete do bairro, na Aclimação, rua José Getúlio, que eu frequentava com os amigos, nos dias de aula em período integral da saudosa escola Montessoriana da rua Castro Alves, é a minha terceira lembrança. Um balcão rodeado de cadeiras giratórias e uma pequena chapa, onde o dono preparava com carinho seus simples e gostosos hambúrgueres artesanais. Naquela época, comer um hambúrguer e tomar um refrigerante era uma opção muito mais em conta do que um PF (prato feito), acreditem!!!

A quarta lembrança, já com a cidade cheia de Mac Donalds, é da época de PUC SP, em uma lanchonete chamada Docas, na rua Monte Alegre, vizinha à Universidade. Em meu primeiro encontro, com Cidália, uma linda jovem oriental com nome português, pedi um Cheese Champignon, um cheeseburguer com um molho rosê e cogumelos Paris, pra minha surpresa e vergonha, o molho rompeu o saquinho de papel em torno do sanduíche e caiu no meu colo, manchando meu novo agasalho esportivo azul turquesa. Lembro até hoje de sua cara de reprovação, segurando a risada. O sanduíche??? Saiu caro!!! Imagino que até fosse bom, em outras circunstâncias.

A próxima lembrança não é a de um hambúrguer específico, mas de alguns associados à uma fase da vida, dos 23 aos 30 e poucos anos, já trabalhando, morando sozinho a alguns quarteirões da Av Paulista, eu comparecia sempre ao América, da Alameda Santos com seu hambúrguer na grelha, lembro também dos hambúrgueres com milk-shake duplo nas madrugadas, depois do nosso tradicional Futebol Society, o “Perdidos na Noite”, no Joakin’s, Chico, Burdog, New Dog, e outros tantos, onde nos reuníamos para a resenha futebolística semanal, e que tristemente, hoje não constam em nenhuma lista dos melhores hambúrgueres da cidade!!!

A sexta é a lembrança da saudade. Diferente de agora, quando cheguei à Salvador para trabalhar, nos anos 90, não havia um hambúrguer respeitável na cidade, ainda mais comparando com São Paulo, por incrível que pareça o McDonalds ainda era a melhor opção, aí batia aquela falta do lanche gostoso, principalmente nas madrugadas depois da labuta!!!

A sétima é de minha Lua de Mel do terceiro casamento, o sanduíche do Joe’s de Manhattan, autointitulado o melhor hambúrguer de Nova Iorque, ao sul da ilha, perto do monumento ao 11 de Setembro. Não dava pra ir aos EUA e deixar de provar um tradicional hambúrguer, era realmente muito bom, mas acho que em São Paulo tem uns tão bons quanto!!!

E, por último, vou citar os gourmetizados hambúrgueres, na pandemia, pedidos via Ifood. Hoje, as hamburguerias infestam a cidade de Salvador, não dá pra consumir sempre, pois custam muito mais do que uma refeição comum. Alguns muito bons, ganharam até prêmios nacionais, mas cá para nós, estão longe de ter o espírito e a identidade daquele hambúrguer que me acompanha desde criança. Talvez sinal dos tempos, talvez uma precoce velhice saudosa. Acho que eu daria a melhor picanha para poder comer de novo um hambúrguer de minha mãe. 

Escovei os dentes.

PS: Minha neta, criada com todo o cuidado de uma alimentação saudável, na pandemia, se tornou a rainha do McLanche Feliz!!!

sexta-feira, 26 de março de 2021

Liliu e Dieguito

 Aguardando a decolagem de seu vôo, Liliu, ou Ulisses para os não íntimos, olha pela janela da aeronave com os olhos úmidos, já saudoso, se despedindo daquele lugar e sua gente. Mesmo sabendo que seria temporário, criou laços profundos, não com muitos, mas amou como poucos, cresceu como ser humano.    E apesar de adorar esportes, na imobilidade da quarentena pandêmica, o amor pela boa comida e aquela cervejinha gelada, fizeram-no crescer como corpo humano também. Ainda bem que as poltronas desse vôo não eram apertadas e se adequavam ao tamanho do passageiro.
 “ Con permiso...” soou uma voz no corredor.  Não querendo que vissem seus olhos marejados, Liliu fez um sinal de concordância contrariada com a cabeça, para que aquele “intruso indesejado” sentasse ao seu lado,  mas ao olhar de canto de olho a figura, também roliça, que fechava o cinto de segurança com certa dificuldade, não se conteve: “Dieguito!!!”
“Sí, encantado!” Responde o vizinho com um sorriso, lhe oferecendo a mão.
“Você é Dom Diego Armando Maradona!!!” Ulisses quase incrédulo, agora duplamente emocionado, aperta a sua mão, la mano de Dios.
“Sí soy yo! Y vos?”
“Ulisses, Ulisses Guedes!!! Muito prazer!!!”
Vendo os olhos chorosos de Ulisses, Maradona pergunta: “Conmovido?”’
“Muito!!!”’Responde Liliu indicando a janela.
“Mucho?” Pergunta Diego apontando para si mesmo, insinuando que fosse pela emoção de conhecê-lo, e solta uma sonora gargalhada.
Mas transformando o seu semblante, olha também pela janela e diz: “Yo también voy a extrañar mucho todo esto! Muchísimo!!!”
Por um momento quase se abraçaram e choraram juntos.
“Do que mais vai sentir falta, Diego?”
“De todo! Família, amigos, no muchos... pero principalmente a la pelota!!  La pelota me lo ha dado todo!!! La pelota es mi mejor amiga!!! Claro, cambiaria algunas cositas en mi vida, pero...” funga e solta outra sonora gargalhada!
“Y vos? Sos brasileño, le gusta el fútbol, no?”
“Sim, muito!!! Sou torcedor do Bahia!!!”
“Bahia, no es un lugar?”
“Também, mas é o melhor time do Nordeste!!! Bi Campeão brasileiro!!!”
“Huuummm! No lo sé!!!”
“Pô Diego, quer me humilhar?”
“No, no, no... A mi me gusta el Flamengo, pero a-m-o el Boca!!!”
“Boca Juniors!!!”
“Sí!!!”
“E o Barcelona, Sevilla, Napoli?”
“Me gustan todos, pero principalmente el Napoli!!! Con Napoli batimos todos los gigantes de Itália, Juve, Milan, Inter...!!! Allá jugué con Ricardo (Alemão) Y Antônio (Careca), un bellísimo jugador!!!”
“Careca era melhor que Ramon Diaz?”
“Era mejor que Van Basten!!! Así como yo soy mejor que Pelé!!!” Os dois gargalham juntos.
“Y juegas al fútbol?” Perguntou Diego.
“Não! Depois que eu vi você jogar, desisti!!!” Responde Liliu rindo. “Mas gosto de nadar, principalmente no mar!!!”
“Hummm me gustan las playas de Brasil!”
“Praia e futebol, como no Brasil, não tem igual!!!” Diz categórico Ulisses, provocando o gênio canhoto.
Maradona disfarça olhando para o corredor, vendo a bela comissária que passa, emenda: “Que guapa, seguro es argentina!!!”
E os dois voltam a gargalhar.
No restante da viagem conversam como velhos amigos, trocam confidências. Falam sobre tristezas e alegrias, solidão, o encontro de um novo amor, filhos, desafios, drogas, rock’n roll, e claro, futebol. Sobre a saudade do que passou, mas ficou na lembrança e no sentimento.
Quando o comandante anuncia a proximidade do pouso, Ulisses tira um selfie com Maradona. A primeira vontade que vem a sua mente é mandar aquela foto para os filhos e a esposa, contando sobre esse encontro inusitado. Seus olhos se emocionam de novo.
“Mucho conmovido?” Pergunta Dieguito apontando para si de novo, os dois se abraçam entre risos e lágrimas.
No desembarque do avião trocam contatos e combinam de caminhar juntos para melhorarem a forma. Mas já na despedida, um pensativo Ulisses pergunta:”Dieguito, só uma dúvida, será que aqui rola aquela cervejinha???”

PS: uma Homenagem a Ulisses Guedes e Diego Maradona, que pegaram o mesmo vôo em 25/11/2020.

Play!!!

Cícero Delfino da Fonseca, ou CDF como era conhecido pejorativamente pelos colegas, dono das melhores notas de sua sala de Direito, costumava se encaminhar para a biblioteca da Universidade e repassar toda a matéria na véspera dos dias de prova. Como o habitual, sentou-se em uma mesa central, equidistante, mas o máximo distante, de pessoas e das estantes cheias de livros. Quem o conhecia, sabia que ele não gostava de socializar com ninguém nesses momentos.
Ligou seu notebook, abriu um pesado Vade Mecum da biblioteca, colocou seus fones de ouvido Bluetooth, e acessou sua lista de músicas preferidas em um canal de streaming do seu celular, que já acusava estar com pouca bateria. Nesses momentos de estudo, ele gostava de ouvir música clássica pra tranquilizar.
Play!!! Começou com Yo-yo Ma tocando a Suíte No1 para Cello de Bach.
De repente, Cícero Delfino notou uma movimentação estranha ao seu redor… Levantou o seu olhar, tirou seus óculos de leitura, e viu que todos os presentes na sala começaram a se movimentar suavemente, sincronizados ao som de sua música. Dançavam como bailarinos e dançavam bem!!! Estranhando o fato, tirou um de seus fones do ouvido e viu que não havia vazamento de som, mas todos pareciam ouvir perfeitamente a Suíte de Bach. A coreografia evoluía inclusive com interação entre os presentes, como se tivesse acontecido um ensaio prévio. Assustado aperta o Pause interrompendo a música e vê que tudo volta ao normal, à movimentação habitual. Ninguém dançava mais!!! Aperta o Play!!! E todos voltam com as evoluções coreográficas!!! Aperta o Pause… o Play… O Pause… O Play!!! E viu que o processo se repetia!!!
Desligou a música e ficou a observar por momentos o que faziam as pessoas e suas expressões, mas nada anormal, que denunciasse que quiseram lhe pregar uma peça!!!
Como não usava nenhum psicotrópico, para se certificar que não era um momento seu de insanidade, resolveu repetir o processo, mas agora escolhendo um Rock.
Play Again! Jumping Jack Flash dos Rolling Stones!!! E viu que agora, não só voltaram a dançar, como também cantavam sincronizados com a música que pulsava em seus ouvidos!!!
Tomou um tremendo susto, quando um colega da mesa mais próxima, mas não tão próxima, subiu na cadeira, empunhando ferozmente sua "Air Guitar"!!! Até o funcionário que limpava o café derramado no chão da Biblioteca, cantava e dançava a "la Mick Jagger”, com seu microfone de cabo de escovão.
"I'm Jumping Jack Flash, it’s a gas, gas, gas!!!”
Cícero Delfino se escondeu atrás da tela de seu notebook e desligou correndo a música.
Lentamente subiu a cabeça para observar o que estava acontecendo, e viu que nada denunciava o "Rock Horror Show" que acontecera há momentos atrás! Tudo normal, assustadoramente normal!!! Achou tudo até mais silencioso do que o habitual, esquecendo que estava usando fones auriculares.
Será que estava delirando ou presenciara um inexplicável momento de histeria coletiva???
Pensou em ir embora correndo dali, mas como apesar de assustador, o fato não era ameaçador, coçou sua cabeça com os cabelos que já começavam a rarear, tomou coragem e resolveu tirar a última prova antes de sair.
Play!!! Brasil Pandeiro, de Assis Valente, foi sua escolha e… novamente aconteceu!!! Em instantes, a sala da biblioteca parecia mais a quadra de uma Escola de Samba em dia de vitória no Carnaval!!! Todos cantavam, dançavam e faziam do que estivesse à mão seu instrumento de percussão. O frenesi coletivo era emocionante e contagiante, Cícero Delfino começou a perder o medo e tamborilar as teclas do notebook ao ritmo da música, seu corpo sacolejava de leve, um sorriso quase involuntário estampou seu rosto e esquecendo que era desafinado, começou a cantar junto:
“Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos samb…"  
Mas de repente, a música parou!!!
Todos "congelaram" nesse momento, na posição que estavam!!! Bocas abertas sem emitir som, corpos que antes dançavam, agora sem movimento!!! Como estátuas, nem piscavam mais. Mas por quê???
Depois de passar alguns momentos atônito, Cícero Delfino achou a resposta. O mundo parou porque... acabou a bateria de seu celular!!!
Apavorado, levantou recolhendo suas coisas às pressas, caminhou rapidamente pela sala desviando dos dançarinos “congelados”, colocou o Vade Mecum no balcão da bibliotecária, uma senhora sisuda, que gostava mais dos livros do que de gente, que também parecia estar em animação suspensa, e ia saindo em direção à porta, quando a viu olhar por cima do óculos e em um tom sério dizer:
- CDF, da próxima vez, vê se carrega melhor esse celular!!!

PS: "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

BARATA!!!

Eu já tinha começado o meu banho matinal, quando sorrateiramente... apareceu uma BARATA enorme no chuveiro!!! Não tenho medo, mas me sentir confortável? Nunca!!! O que fazer??? Resolvi continuar "normalmente" o banho, mas mantendo a Fera afastada com jatos de água. Mas após uma breve recuperação, lá vinha ela novamente em minha direção. A ideia de ter que pisar nela de pé descalço, era mais repulsiva do que a da angústia do banho conjunto. E na hora de lavar o rosto e o cabelo? Imaginei aquela "monstra" subindo pela minha perna, veloz, atingindo minhas partes baixas, se enroscando em meus pelos pubianos e eu desesperado tentando tirar... Mantive um olho aberto mesmo que sob forte ardência! De repente, atingido pela espuma de meu Shampoo com Ice Cool Menthol, a barata entrou em convulsão... e Morreu!!! Alívio!
Mas enquanto dava descarga em seus restos mortais envoltos por uma alva mortalha de papel higiênico me questionei: "Que veneno colocam nessa coisa? Será que a longo prazo e uso contínuo, esse veneno está matando o meu cérebro também? Será que é por isso que ando tendo lapsos de memória cada vez mais frequentes? O futuro Zumbi será causado por shampoos e outros produtos de uso cotidiano?                      E se eu parar de usar esse shampoo e aparecer outra BARATA???"

sábado, 30 de abril de 2016

Clube 77

Em um casarão, daqueles antigos em São Paulo, funcionava um clube de dança, que parecia de filme, com um salão largo com piso em preto e branco, como um grande tabuleiro de xadrez. Seres anônimos, comuns, aposentados, comerciantes e donas de casa, se sentiam como estrelas. O extravagante e o exagero estavam presentes no figurino e nos movimentos previamente coreografadas dos dançarinos, exceto em alguns poucos, que desfilavam sua arte em movimentos graciosos, precisos e sensuais, com classe e refinamento. A maioria com seus cabelos grisalhos, brancos ou tingidos, frequentava o estabelecimento há décadas. A banda, que tocava um repertório de antigos clássicos, também permanecia a mesma, desde a inauguração da casa, nos anos 70 do século passado, só com a reposição de alguns integrantes por motivos de força maior, um por alcoolismo, uma por invalidez e outros dois por falecimento. 
Ana Luz, como era conhecida Ana Luzia Conceição Carvalhal Fontes Sobrinho, cantora única, contralto de voz poderosa, de descendência portuguesa, foi acometida pelo mal alemão, Alzheimer, começou a ter brancos repentinos e esquecer as letras das canções, e infelizmente foi a aposentada por invalidez há um ano. Desde lá, três cantoras foram testadas e reprovadas pelo gosto popular. A quarta candidata, que não era ruim, fazia a sua estreia, mas a comparação era sempre inevitável e desfavorável.
Um grande candelabro centralizado sobre a pista era a única fonte de luz do salão, nos cantos escuros, do lado oposto ao palco, ficavam as mesas. 
Magro, como era conhecido e ninguém sabia ao certo o seu nome, sentava na mesma mesa do canto, isolada, costas para a parede, longe do bar, há 11 anos, desde a primeira vez que apareceu. Magro não dançava, não conversava ou procurava companhia e seu costume era tomar lentamente o seu conhaque Corvoisier. O garçon deixava a garrafa e não o perturbava, ficava sempre atento, mas raramente era chamado. Mas por algum motivo desconhecido, Magro, bebia cada vez menos.
Segurando a taça na mão esquerda, era canhoto, ficava por horas apreciando a exibição dos dançarinos no salão. 
Mas naquela noite, algo diferente estava para acontecer. 
Duas horas depois de Magro, chegava ao clube um senhor bem vestido, notadamente acima do peso, com um uso excessivo de anéis adornando os dedos rechonchudos, acompanhado de uma bela loira, uns trinta anos mais nova, usando salto alto e algo que poderia ser chamado de mini vestido com um casaquinho, e junto com eles, um “armário” de quase dois metros de altura, com certeza o guarda-costas do senhor gordo . O “armário" entrou primeiro, observou o local e apontou a mesa de Magro para o seu chefe.
Nesse momento soaram os aplausos de final de música, que o gordo bem vestido abrindo os braços, agradeceu como se as palmas fossem em homenagem a sua chegada.
-Narciso, então é aqui que você se esconde? Disse em um tom ironicamente afável, o gordo, se dirigindo a Magro, que era magro, aliás cada vez mais magro, tinha entre 60 a 65 anos, sua pele tinha adquirido um tom amarelado, nunca tirava o casaco, usava um boné cinza escuro, que se tornara um companheiro inseparável, estilo “Andy Capp”*, e sua imagem em nada combinava com a de Narciso, que se apaixonara pelo próprio reflexo.
-Posso me sentar com você? Perguntou o gordo e antes que Magro respondesse, puxou uma cadeira para a loira e outra para ele. A loira agradeceu, sentou e cruzou as belas pernas, longas e torneadas.
-O lugar está ocupado, disse Magro, em tom baixo e seco, com sua voz rouca.
-Realmente, agora está! Hahhahahahhaha!!! Respondeu o gordo enquanto sentava. 
-Caia fora, não falo de negócios aqui!
-Mas o local é publico. Retrucou o gordo, mantendo o tom afável.
-Então senta em outra mesa!!! A voz rouca de Magro fazia sua fala parecer um sussurro, mesmo quando ríspida.
-Já está ocupada, responde o gordo, mandando o “armário” que ficara em pé sentar na mesa ao lado.
Magro se exalta:- Olha aqui, seu filho da p..., mas o gordo interrompe:
-Calma, “take it easy, my friend”, ela, indicando a loira, é muito nova pra ser minha mãe e o assunto é do nosso interesse. E chamou o garçon em seguida.
A loira tentou disfarçar, mesmo ficando visivelmente constrangida com a piada.
-Pois não? Chegou o garçon.
-Ele não quer nada, já está de saída!!! Disse o Magro subindo um pouco o tom rouco.
-Estou, diz o gordo, mas antes quero brindar com meu amigo, que me ofereceu um pouco de seu delicioso conhaque. E pra ela um Campari. Ah! E água ou refrigerante para o pequeno, que ele está dirigindo, disse se referindo ao "armário”.
-E o senhor, Seu Narciso, quer mais alguma coisa? Perguntou o garçon querendo mostrar intimidade.
-Seu o que? Do que você me chamou, seu enxerido??? Indagou Magro subindo ainda mais o tom rouco.
-Me desculpe, Seu… seu… respondeu o garçom, completamente perdido e sem jeito.
-Calma, intervém o gordo, um sujeito tão bonito assim tinha que chamar Narciso! Hhahahahhaha!!! E colocando a mão em concha, cochicha para o garçon: - É só um apelido, mas claro que ele não gosta.
O garçon se retirou rápidamente.
-Belo esconderijo, bem conservado, boa bebida, sem câmeras de segurança, os que dançam nem sabem que você existe… Elogiou o gordo.
-Venho aqui para relaxar, não pra me esconder. O que você quer? Perguntou Magro, voltando ao tom baixo.
-Você desapareceu e não cumpriu nosso último contrato.
-Desisti.
-Como assim? Não existe desistência, você sabe disso! Disse sério o gordo. 
-Eu devolvi o dinheiro.
-Você sabe que não é só uma questão de dinheiro, é uma questão de honra! E os que me contrataram estão perdendo a paciência, querem ver o negócio finalizado.
-Eu desisti. Repetiu Magro.
-Não existe desistência, nunca houve e nem haverá! Afirmou categoricamente o gordo, empurrando um envelope cheio de dinheiro na direção de Magro. A loira olhava na direção do envelope com um olhar mais necessitado do que ambicioso.
-Não vai dar, arrume outro.
-Não existe outro!!! Gritou o gordo dando um tapão na mesa. A loira se encolheu assustada.
-Que pena, sempre há uma primeira vez. Disse o Magro com um sorriso irônico.
Fez-se uma breve pausa na conversa na volta do garçon. 
Após apreciar o conhaque de Magro, o gordo retomou:
-Posso saber o por quê da desistência?
-Não.
-Eu insisto, tantos anos e você nunca falhou.
-Eu não falhei, eu desisti. Retrucou Magro.
-Mas por quê? Eu quero saber!
-Ele tem câncer.
-Que bom, então vai morrer mesmo!
-Vai, o médico deu 6 meses a um ano pra ele.
-Então… Disse o gordo gesticulando, ansioso para Magro confessar de vez o motivo.
-Ele tem uma filha de 4 anos, que perdeu a mãe quando nasceu. Não vou tirar dela os últimos meses com o pai.
-Ah, é por isso, virou sentimental!
-Sempre fui. Não aceito contratos de mulheres e crianças.
-E agora de doentes também, pelo jeito.
-Pode ser.
Magro notou que a loira também tinha se sensibilizado com a história da filha do pai canceroso, seus olhos marejaram e ela tentava disfarçar. Talvez fosse mãe e exercesse a profissão de “dama de companhia” por necessidade.
-Meu caro, ou a filhinha dele vai ficar triste ou sua netinha vai, você escolhe!!! Ameaçou o gordo colocando uma foto de Magro brincando com sua neta no parque sobre a mesa.
-Isso é uma ameaça??? Perguntou Magro raivoso.
-Entenda como quiser. Ironizou o gordo.
Magro observou que o “armário” sorriu maliciosamente, abrindo o casaco e mostrando que estava armado. 
A música soava alto, naipe de metais, virada de bateria, glissando do piano, os dançarinos caprichavam na coreografia e ninguém sequer imaginava a tensão que ocorria na mesa de Magro. Tinha o garçon atento a tudo, mas era um risco inevitável. 
Repentinamente, Magro engasgou com o conhaque, sempre em sua mão esquerda, teve um acesso violento de tosse e encobriu a boca com o guardanapo branco que estava em seu colo com a outra mão. O Gordo e o “armário" puseram-se a gargalhar com a tosse interminável de Magro, que ficava roxo. 
A loira tentou ajudar pedindo água ao garçon.
De repente a mão esquerda de Magro sumiu sob a mesa, a gargalhada cessou com dois estampidos secos que abriram um furo de borda chamuscada no guardanapo. No salão, a música encobria tudo.
-Não grite! Não quero ter que atirar em você!!! Sussurrou Magro para a loira apavorada, que fez sim com a cabeça.
Magro guardou sua arma com silenciador sob o casaco, tomou um último gole de conhaque, limpou as suas digitais do copo, levantou, recolheu a sua foto com a neta e endireitou na cadeira o corpo do “armário”, que ameaçava desabar. Mandou a loira abraçar e segurar o gordo.
Pegando o envelope de dinheiro, tirou um "bolo" e deu o resto a loira:
-Mude de vida. Você merece algo melhor do que isso. Você tem um filho, não tem?
A loira concordou assustada com a situação e com a dedução do Magro.
A musica terminou com a ovação dos dançarinos que aplaudiam a banda e suas próprias performances.
Magro ia saindo quando se deparou com o garçon chegando com a água, mas recusou o copo oferecido e colocando o dinheiro do envelope no bolso do garçon, disse:: 
-Você não me conhece nunca me viu, se eu souber que você deu com a "língua nos dentes"" eu volto, ok???”
-Sim Seu… Seu… Gaguejou o garçon.
-Como é meu nome? Perguntou Magro.
-Não sei… nunca vi o senhor aqui!!! Respondeu o garçon.
-Bom garoto! Maurício, bom garoto! Elogiou Magro, olhando o nome do garçon no seu crachá.
No caminho da porta um japonês bêbado saindo do banheiro esbarrou em Magro.
-Omae, bakayaro, doko o mite aruitenda??? ( Seu idiota, olha pra onde anda!!!)
Magro tentou passar, mas o japonês atravessou de novo o seu caminho.
-Ayamare yo!!! (Se desculpe!!!)
Magro respirou fundo, não contava com esse imprevisto atrasando a sua saída.
Providencialmente Maurício interveio tentando resolver o impasse.
-Pode ir Seu Magro, eu dou um jeito aqui!
-Maguro? Omae wa sakana ka??? Temee wa otoko ja nai yo! Nigueruna!!! ( Atum? Você é um peixe??? Homem que não é! Não fuja!!!) Bradou o nipônico ofendido, enquanto Maurício tentava acalmá-lo: - Calma, não chame Seu Magro de sacana, ele pode se irritar!
Magro saiu rapidamente, acenou para o porteiro, seu velho conhecido, chamar um taxi. Deu uma última olhada para o luminoso da entrada, Clube 77, e pensou: ”Vou sentir saudades!” Tirou o boné como uma reverência, revelando os cabelos ralos, resultantes da quimioterapia,
Magro, nome verdadeiro desconhecido, apelidado também de Narciso, 63 anos, assassino de aluguel, canhoto, com ictericia, diagnosticado com câncer terminal no fígado, deu adeus ao seu clube preferido, colocou o boné, entrou no taxi e foi embora.

"Andy Capp"*: Personagem de Cartoon criado por Reg Smythe (1917/1998), conhecido no Brasil como "Zé do Boné".

O Sumiço de Deus (Cenas Pré-Pandemia)


- Eu desisto!!! Bradou Deus.
- Calma, o Senhor não pode… Suplicou Mikael (I).
- Como não posso??? Eu posso fazer o que Eu quiser!!! Afirmou um quase colérico Todo Poderoso.
- Mas o Senhor não quer isso, tanto tempo investido… Pense bem, não com a razão, mas com Seu amor infinito. Ponderou Gabriel.
- Claro que Eu quero!!! Cansei!!! Meu Amor é infinito, mas acabou!!! É como dizem na Bahia: "Tem, mas acabou!!!” Eles passaram dos limites!!!
A Humanidade ia de mal a pior e dessa vez parecia que Deus tinha realmente perdido a paciência.
- Eu sei, mas eles sempre agiram assim, e o Senhor, na minha opinião, foi tolerante demais, eu acho que uma sociedade Matriarcal teria sido uma decisão mais acertada… Comentou Dinah, questionando insolentemente as decisões Divinas do passado.
Quando viram que Deus ficara rubro com o comentário, os olhares "fuzilantes" se voltaram para ela.
- Menos Dinah, menos!!! Advertiu Uriel.
- Calma Senhor, olha a sua pressão… Suplicou Mikael (II) para Deus.
Jesus tomou a palavra.
- Acalmai-vos irmãos, apesar da petulância, existe alguma lógica no que ela diz. Meu Pai sempre foi extremamente paciente e amoroso com eles. Mas desde o Jardim do Édem, nada era bom o suficiente, eles nunca estavam satisfeitos ou agradecidos…
- O problema foi Ele ter criado Eva! Ela é que se deixou seduzir pela Serpente!!! Afirmou Uriel, de forma misógina.
- Foi Eva uma “porra"!!! Se aquele Adão não fosse um frouxo e desse a atenção devida, Eva nunca iria procurar outra “Serpente"!!! Retrucou Dinah.
- Aquela vadia, vocês é que ferraram com tudo!!! Re-retrucou Uriel.
Dinah partiu para cima de Uriel, que era um troglodita com quase o dobro de seu tamanho com o dedo em riste:
- Vocês quem??? Seu machista! descarado!!! Deus é paciente demais com alguns aqui também!!!
- Calma gente, calma… Suplicou Mikael (III), se interpondo entre os dois.
Jesus retomou a palavra.
- Mas depois disso tivemos muitas outras tentativas de colocar o trem nos trilhos, umas até esdrúxulas, como aquela Arca, idéia maluca que Uriel Lhe vendeu e o Senhor comprou, meu Pai! Quanta vida se perdeu!!! Quarenta dias e quarenta noites de chuva, quanta água desperdiçada! A gente reclama dos Homens, mas esse mal exemplo foi nosso!!! Eu fui voto vencido! Graças ao nosso querido e "brilhante"" Uriel!!!
Dinah adorava o tom irônico com que Jesus menosprezava a inteligência de Uriel.
Deus concordou com a cabeça, Ele sabia que a arca e o diluvio não tinham sido das medidas mais brilhantes e econômicas. Mas antes culpar a chuva do que passar milênios na terapia por ter exterminado quase toda a sua criação na Terra. A Sua relação com Uriel nunca mais fora a mesma depois da Arca e ele se ressentia disso.
- Seu filhinho de Papai, deixa eu te encontrar sozinho!!! Vociferou Uriel para Jesus.
Jesus sorriu de volta aumentando ainda mais a raiva de Uriel.
- Calma, por favor, calma… Suplicou Mikael (IV).
- Paz irmãos, respeitem a presença do Pai!!! Falou Gabriel colocando ordem.
Com a calma retomada Jesus continuou.
- Eloi, Eloi, Lama Sabactani?* O Senhor se lembra, não é??? Eu mesmo já dei minha contribuição pessoal, disse Jesus mostrando a marca dos cravos nas mãos, mas apesar de durar dois mil anos, foi só uma solução parcial. E eu não vou lá de novo!!! É muita falta de consideração da parte deles!!!
- É verdade filho, eles destroem a Terra que lhes dei, desrespeitam, traem e matam uns aos outros, a minha Igreja há muito não me representa, prega absurdos em Meu nome e virou uma máquina visando lucros, extorquindo e manipulando a desesperança e o sentimento de culpa dos Homens. Triste, Deus estampava toda a Sua decepção em Seu semblante.
- Eles sempre fazem o que querem, chamam de Livre Arbítrio, mas quando dá merda (e sempre dá)… Chamam pelo Seu Amor: "Pelo Amor de Deus”, me salve!!!” Aí é demais!!! Mesmo com toda a Sua Santa Paciência não dá, né??? Os Dez Mandamentos, amai ao teu próximo como a ti mesmo… Justiça Social, Igualdade entre os Homens, ninguém sabe mais o que é isso!!! É cada um querendo garantir o seu!!! Estão fazendo o Senhor de palhaço!!! Comentou Dinah colocando mais lenha na fogueira.
- Pai, por favor, se quiseres desço lá e levo Sua mensagem de descontentamento e advertência. Interveio Gabriel, tentando dar um último sopro de esperança para a Humanidade.
- Não Bié, dessa vez eu vou deixar que aprendam com o próprio erro ou que se destruam em sua ganância. Talvez eu tenha sido por demais benevolente e paternalista. Disse Deus, refletindo sobre suas decisões passadas.
- Mas Pai, sem a Sua presença, Lucifer vai espalhar o terror!!! Argumentou Gabriel.
- Ah, Lucci, Lucci, por que tanta maldade nesse seu coraçãozinho??? Onde foi que Eu errei com você também? É, assim será, mas dessa vez o Homem vai ter que se virar sozinho.
- Talvez colocando as mulheres no comando dê uma guinada na coisa… Tentou argumentar Dinah, mas foi interrompida por Jesus:
- Que seja feita a Sua vontade assim na Terra como no Céu.
Uriel, depois da Arca, não ousava a dar mais sugestões estratégicas de como lidar com os Homens.
- Por favor Senhor, uma última chance para eles… Suplicou Mikael (V).
Mas Deus sem responder, cabisbaixo, dirigiu se a passos lentos para seus aposentos.
Seria essa a Sua decisão definitiva, para todo o sempre???
Será esse o ponto final para a raça Humana???
Aproveitando a deixa, Jesus jogou um beijo para Uriel e se retirou também.


- Eloi, Eloi, Lama Sabactani???* : - Deus Meu, Deus Meu, por que me desamparaste???