quinta-feira, 14 de abril de 2022

Pas de Deux

 “Mas eu sou casado e estou aqui de passagem, não quero te iludir...” Digitou ele no zap.
Ela fingia que não entendia, prometia o que podia e não podia e que faria até o que não poderia prometer: “Não importa, eu vou te dar tudo que vc quiser, o melhor sexo de sua vida, quero ser tua!!!”
Sexo, era um apelo bastante forte para um homem de meia idade, longe da forma ideal,
casado há mais de uma década com sua segunda esposa, em um relacionamento estável, previsível e fiel, mesmo com uma companheira extremamente ciumenta. Ser desejado dessa maneira por uma mulher bonita, jovem, com quase metade de sua idade era uma massagem e tanto para o Ego. Claro, ele chegou a se questionar algumas vezes, o porquê de ser ele o escolhido em meio a tantos outros daquela grande equipe de trabalho, mais de 60 pessoas vindo de diferentes lugares do país, mas preferiu acreditar que era por seu espírito de liderança, que lhe conferia visibilidade e seu “carismático charme pessoal”, que, agora, acreditava não ter perdido ao longo dos anos.
Na verdade, ele tinha conversado pouco com ela, que se mostrava competente em seu trabalho, mas não era uma pessoa muito extrovertida, até se mostrava meio tímida, o que tornava ainda mais surpreendente a sua investida explícita. Aliás, ela só era ousada em suas palavras via zap, no resto do tempo era extremamente discreta.
Tratando-se de uma grande campanha política para o Governo, a jornada era bastante cansativa, cerca de 12 a 15 horas por dia, durante três meses, e aquele dia, em especial, não tinha sido nada bom para ele, com direito a uma longa discussão telefônica com a mulher, que achava que se ele não tinha ligado era porque estava “aprontando”. E pra piorar uma terrível dor de dente com febre!!!
Seguindo a recomendação do dentista, ele tomou o analgésico, o antibiótico e foi mais cedo para o hotel descansar.
Quando ele estava quase pegando no sono, tocou o celular, era ela, preocupada, querendo saber se ele estava bem e dizendo que gostaria de poder estar lá para cuidar dele. E ele respondeu: “Você quer? E por que não vem?” Seu coração disparou, sentia culpa, era a primeira vez que se aventurava fora do casamento, mas também não se perdoaria se deixasse essa chance escapar. Pela primeira vez ele priorizava a sua vontade, o seu desejo.
 Ela chegou em uma roupa simples, quase sem maquiagem, que mostrava que ela não quis perder tempo se produzindo. Olhou para ele e fez um carinho na sua bochecha inchada, a do lado do dente inflamado. Ele segurou a sua mão e começou a beijar. Aproximou-se de seu rosto e beijou a sua boca. Continuaram a se beijar  com sofreguidão na cama e ele notou, enquanto a despia, que o sutiã e a calcinha preta de renda, que deixava à mostra quase toda a sua bunda, grande e firme, combinavam. Mostrava que ela teve cuidado com o detalhe, que julgara o mais importante, mas foi aquele descartado com maior rapidez.
Eles respiraram e dançaram juntos em uma sincronia surpreendente, da valsa ao rock and roll, do movimento suave, quase um tai-chi, ao golpe forte e direto, como do karatê. Transaram, se amaram, se possuíram, se engalfinharam, por horas, como se fosse a última coisa a ser feita nessa vida, tudo ou nada, sem limites, sem proibições, sem certos ou errados!!! A noção do tempo mudou, é como se o relógio tivesse parado ou andasse muito lentamente, como se estivessem imersos em uma redoma isolada do mundo. Ele era como um vampiro, que sugando a energia de cada orgasmo dela, se sentia mais poderoso, mais vivo. Ela, feiticeira, juntou os ingredientes, fez a mágica se traduzir na noite mais prazerosa de suas vidas. E o dentista tinha recomendado repouso!!!
Depois de muito gozar, ela separou seus corpos suados, se posicionou de maneira submissa, de quatro, e se ofereceu para uma penetração anal. Ele foi à loucura!! Não foi só o Grand Finale, foi o Extraordinário, não só a cereja do bolo, mas a cobertura toda!!!
 Ela se foi enquanto ele dormia.
Nos dias que se seguiram ele a procurou insistentemente para novos encontros, mas as tentativas nunca foram bem sucedidas. Sem nenhuma explicação razoável, mesmo admitindo que tinha sido maravilhoso, ela não queria mais.
Ele percebeu que a falta daquilo que o fizera sentir tão vivo, agora o enlouquecia, envenenava.
Era vital, como se faltasse oxigênio.
As lembranças povoavam a sua mente, noite e dia, o cheiro dela, seu sabor, roubavam até a sua concentração no trabalho. A convivência dos dois se tornou uma tortura, ela só falava o  profissionalmente necessário com ele. Até as roupas justas que ela usava, ressaltando as suas formas generosas, pareciam uma provocação pessoal. Sentia-se diminuído, impotente, rejeitado!!! Por quê??? Será que ele tinha sido só mais um troféu a ser conquistado para ela?
 Os arrastados meses de trabalho chegaram ao final, acabando com a convivência e sepultando qualquer esperança que ainda existisse. Na despedida só um formal beijo no rosto.
Ele sentia que tinha sido um completo otário!!!
 Ele voltou à sua realidade morna, incompleta, sentindo falta de algo, que talvez, nunca tivesse existido no seu casamento. Apesar do ressentimento, aquela noite tinha sido um marco, um grito de liberdade, que não poderia seria esquecido.
Algum tempo depois, não resistindo à curiosidade, resolveu xeretar o Instagram de sua ex colega de trabalho, e para a sua surpresa, achou uma foto dele durante aqueles meses de labuta, com a seguinte inscrição: “A pessoa mais incrível que já conheci! Meu amor impossível!”

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Calipígia

-Manda entrar!!! Dr Sig, pelo interfone, pede a Eva, sua secretária, que introduza o próximo paciente em sua sala.

Eva pergunta com uma certa hesitação na voz:
 
- Doutor, o Sr viu a anamnese, a entrevista prévia que eu fiz? É um caso “diferente”…

Confiando em seus longos anos como psicanalista, Dr Sig responde sem muita paciência:

- Pode deixar entrar!

A porta se abre e para a sua surpresa a paciente entra andando de ré.
 Ela usava roupas estranhamente largas e essa era a sua primeira sessão.

- Seu nome é?

- Mile, Jamile

- Por favor, Jamile. Diz o terapeuta indicando o divã.

A paciente se deita de bruços.

Sem querer intimidá-la ele pergunta:

- Você está confortável assim?

- Sim e não. Mas é a posição devida.

- Devida por que?

- Por que? Eu sou somente a interlocutora, sua paciente é a… minha bunda!!!

- Sua bunda??? Perguntou o Doutor intrigado.

- Sim, minha bunda!!! Então ela não pode ficar por baixo na sessão, né?

- E por que sua bunda veio até mim?

- Porque ela estava muito triste e caída, quase em depressão. Ela é cheia de traumas!!!

Seria um caso onde a paciente incapaz de assumir suas questões, transferia tudo para
 uma parte de seu corpo? Um caso incomum sem dúvida!!!

- Sim, e sua bunda tem um nome?

- Só apelidos, mas nenhum muito elogioso. Bullying, sabe?

- Entendo. Diga alguns.

- Ah, vários! Subnutrida, porque diziam que esqueceu de crescer; bundícula ridícula; gavetinha; mini-mini; prancha (de surf); trombou de ré no caminhão; where’s the bunda?, e assim vai…

Dr Sig fixou os olhos naquela bunda, sentiu sua tristeza e viu que havia maldade naqueles comentários, mas que também tinham procedência, mesmo ela estando disfarçada pelas roupas largas.

- E como ela gostaria de ser chamada?

- Pergunte para ela Doutor!
 
Dr Sig respirou fundo e perguntou para a bunda:

- E como vc quer ser chamada?
- Flávia! Responde Mile.

- E por que Flávia?

- Porque ela gosta desse nome. É de uma amiga de escola que a tratava bem.

- Então Flávia, me conte, por que você está aqui?

- Sabe Doutor… posso falar na primeira pessoa?

- Sim, claro!

- Então, minha vida era normal até o início de minha adolescência. Uma infância feliz como as das outras meninas. Mas, mais ou menos aos 12 anos, quando as meninas começaram a ganhar corpo e suas bundas cresceram, nada aconteceu comigo. Imagina a decepção.

- Sim, entendo. Continue…

- E a ficha caiu mesmo quando picharam no banheiro da escola: ”Jamile esqueceu a bunda em casa!!!” Foi um choque, muito triste!!!

- Entendo…

- Depois disso nós fomos ladeira abaixo..

- Nós?

- Sim, eu e Jamile.

- Entendo…

- Mile tentou disfarçar colocando enchimentos na calcinha, usando roupas largas, tentava fugir das aulas de educação física, não ia à praia, nem à piscina… Mas o bullying e as chacotas eram cada vez mais frequentes e violentos. Certa vez eu estava no chuveiro do vestiário, após uma aula de Educação Física que não pude faltar, e eu só tomava banho depois que todas saíam, mas as meninas voltaram, tiraram suas calças e dançaram um funk, tipo “twerk”, com aquelas bundas proeminentes viradas pra mim. Foi horrível!!! Aí, Mile começou a me culpar por toda a sua infelicidade e isolamento social.
- Sim, entendo.
- Nessa época, a única que ficou ao meu lado foi Flávia, que me apoiava. Minha única amiga!Compreensível também, pois ela era a segunda na categoria onde eu era a campeã disparada. Se eu era o 0 (zero), ela era 2, talvez 2 1/2. Mas Flávia tinha um trunfo, seus peitos eram mais precoces do que os das outras, lindos peitos, e Mile… "comissão de frente" nota 4!!!

- Você é muito severa com Jamile e com você mesma! Considerou Dr Sig.

- Passei uma boa fase sem querer me olhar no espelho!!!

- Sim, entendo.

- Depois, sem a obrigatoriedade de uniformes no ensino médio, Jamile passou a usar vestidos e saias largas. Sempre tentando desviar a atenção de mim. Passamos a nos relacionar somente quando necessário.

- Quem?

- Eu e Jamile. Calipígia...

- Como? Na verdade, Dr Sig não conhecia o significado dessa palavra.

- Calipígia*… era tudo o que Mile queria ser!!! Tentou academia, massagem, fórmulas mágicas, mas eu só cresço com cirurgia e aí o custo é inviável. E com esse trauma todo e o desprezo que ela me dispensa, não dá pra eu ser feliz, né???

- Entendo. E Flávia, sua amiga?

- Nunca mais vi… Sinto saudades! Hoje ela é jornalista.

- E sua relação com Jamile, como é hoje?
- Olhe, não somos amigas, convivemos porque é necessário. Com o Dudu, ela até ficou menos ressentida, até feliz. Pena que terminaram.

- Dudu?

- É. Foi namorado de Mile por 2 anos e 1/2. Ele era louco por ela e não me olhava com desprezo. Mas mesmo assim ela não gostava que ele me acariciasse não!

- E por que terminaram?

- Sei lá!!! Mile é complicada e ciumenta, vivia implicando com ele, achava que ele olhava pra todas as bundas que passavam!!!

- E olhava?

- Todo homem olha, né? Mas ele era discreto e respeitoso. Ela que é paranóica!!!

- Eu paranóica??? Foi você que me deixou assim!!! Interrompeu Jamile.
Mile e Flávia iniciaram uma discussão e começaram a se exaltar!  Estranhamente, dava para distinguir perfeitamente quem era uma e quem era a outra na discussão.

- Calma, calma!!! - Tentou apaziguar o Dr Sig.

Aquele era um caso raro, que ele nunca tinha presenciado antes. Não eram personalidades diferentes que se manifestavam em um único ser, um de cada vez, em um transtorno dissociativo de personalidade tipo "As Três Faces De Eva”*, eram “seres” com vida própria, antagônicos, que eram obrigados a conviver simultaneamente, contra suas vontades, em um único corpo.
 Será que ele poderia cuidar de Jamile e considerar Flávia como um sintoma? E se depois aparecerem o pé torto, o olho míope, o peito menor que o outro para se queixarem???

Três minutos depois, com os ânimos mais controlados, o Psicanalista suspira e prossegue:

- Pelo que entendi, a paciente não é só Flávia, Jamile. E não tenho como separar vocês duas para atendimento individual. Será como uma terapia de casal, só que o divórcio não é uma alternativa para vocês. Quero que vocês duas pensem bem em como querem se relacionar já que a convivência é necessária para a vida toda. Na próxima sessão a gente continua.

- Tá bom, Doutor! Obrigada e desculpe a briga… diz Mile meio sem jeito.

- Desculpe também, Doutor, mas Mile é descontrolada - rebate Flávia reiniciando a celeuma.

- Ops!!! - Intervém o terapeuta quando Jamile já tentava beliscar a própria bunda.

Jamile sai em silêncio de cara fechada acompanhada por Flávia.

Dr Sig se sentia exausto, diluiu um pó branco que guardava na gaveta em um copo de água, bebeu lentamente pensando sobre o caso que acabara de presenciar e anotou no seu bloquinho:
“Calipígia???”


 
 
Calipígia*: Referente àquela que tem formosas Nádegas.
Tres Faces de Eva*: Livro e Filme onde Eva White tem três personalidades diferentes.


segunda-feira, 7 de março de 2022

Zeca e Milla

E eles se encontraram pelas redes sociais durante a pandemia.
 Engataram uma conversa como se fossem conhecidos de longa data, com muitas risadas, choros e até brigas. Conversavam por horas a fio, sobre livros, cinema, música, culinária, família, passado, presente, futuro, desejo, sexo terreno e sexo dos anjos, Deus, e, claro, pandemia. Tudo via internet.
 Por muitos meses foi assim: já acordavam com saudade, conversavam até de madrugada e os assuntos jorravam feito água de uma mina inesgotável.
 Ela, mais recatada e literal, cheia de regras de conduta e defesas montadas, com um forte ciúme enrustido. Ele, mais “voador", sem muita censura na língua, não raro se arrependia daquilo que tinha dito.
 Ele, assumidamente apaixonado. Ela, dizendo que não havia possibilidade de paixão sem um encontro presencial.
                 Até que um dia, com a baixa dos índices de contaminação pelo vírus, os dois devidamente vacinados, resolveram que finalmente era a hora do tão desejado encontro presencial. Com a ansiedade à flor da pele, passaram a semana planejando e idealizando como seria o tão esperado encontro.
 Combinaram que seria a céu aberto, em uma praça da cidade e durante a semana, por ser menos frequentado, sem aglomeração. Cada um com seu tubinho de álcool em gel e usando máscara, claro.
                                                  Chegado o grande dia, eles se avistaram e se aproximaram com um aceno de mãos.
-Oi, eu sou o Zeca! Disse ele, meio sem jeito, sem saber onde por as mãos.                                                   
- Eu sei… eu sou a Milla. Respondeu ela, sem descruzar os braços.
                                                  Tentaram, por vezes, sem sucesso, quebrar aquele silêncio ensurdecedor, que contrariava todas as expectativas criadas, nos cinco minutos mais longos e angustiantes desde que Deus inventou o Tempo.
-Bom - disse ele - foi bom te encontrar! Até mais!
                                                                                          -Tá bom! Pra mim também! Até! respondeu ela
.                                                                                        Após uma rápida simulação de abraço e um encontro de bochechas, sem encostar, com som de beijo, foram embora sem nunca terem tirado as máscaras.                                                                          Ansiosos, chegando em casa correram para o computador.                                                                               
- Oi!!! Já estava com saudades!!! Digitou Zeca.                                                                                               -Eu tb!!! Muitas!!! Digitou Milla.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Kora e Zé (E Deus Existe???)

Naquela noite chuvosa de domingo, quando acabou a luz (e acabou por muito tempo), Kora acendeu algumas velas em círculo no chão da sala. Sentou-se, então, no centro, acompanhada de meia garrafa de vinho tinto seco (ou seria um Prosecco?) que havia sobrado da noite anterior e gastou longos minutos em vão tentando apagar as velas com o poder do pensamento.
Ela acreditava que a fé podia mover montanhas, mas a sua fé era no ser humano. Kora não acreditava em Deus. 
Mesmo falhando em sua demonstração de poder telecinético, preferiu não gastar o restante de bateria do seu celular. Nem conversando com amigos, que tinha poucos, e, menos ainda, com sua mãe, que falava muito e ia se preocupar à toa com a prolongada falta de luz. Poderia precisar do telefone para uma emergência. Kora sempre se preocupava com emergências, com as coisas que não conseguia controlar.
Kora morava só. Só ela e Bela, sua gata, preta como a noite mais escura, que se escondeu com medo dos trovões.
Parecia que todo o bairro, talvez toda a cidade, estava sem energia elétrica.
A escuridão não incomodava Kora, ela sempre preferiu a noite em vez do dia. Definitivamente, ela não era uma pessoa solar, mas as janelas, fechadas por causa da chuva, causavam uma sensação claustrofóbica. E as velas acesas, junto com o vinho, aumentavam a sensação de abafamento e desconforto no ambiente.
Aliás, o vinho acabou.
De repente: “Toc, toc, toc…” alguém bateu em sua porta!!!
Kora ficou em silêncio.
“Toc, toc, toc…” a batida se repetiu!!!
-Quem é???, perguntou sem sair do lugar, em um misto de curiosidade e medo.
Não tinha luz, não tinha campainha!!!
Caminhou sorrateiramente, tentando não fazer barulho, naquele apartamento antigo com o chão de tacos de madeira encerados e cheio de sons estranhos!!!
Tentou ver pelo olho mágico quem é que estava a bater. Mas estava escuro lá fora, não havia luz no corredor e não dava para ver ninguém.
“Toc, toc, toc…” de novo!!! Kora deu um pulo para trás e, com a voz falhando, perguntou:                   -Que-que-quem é???
Pensou que poderia até ser Pérsio, seu ex, que depois de três meses sumido, teria vindo pedir perdão, querendo voltar.
Uma voz masculina interrompeu seus pensamentos.
-Desculpe, eu sou…
-Eu sou??? Repetiu Kora.
-Acredite…
-Em quem???
-Acredite…
-Só se você falar quem é!!!
-Kora, eu sou… Deus!
-Deus? Mas eu não acredito em Deus!!!
-Eu sei, por isso estou aqui.
-Olha, eu não tô gostando dessa brincadeira! Vai embora ou eu chamo a polícia!!!
-Você só tem 5% de bateria no celular e a polícia está cheia de emergências nessa chuva. Eles não vão vir te ajudar porque você está conversando com Deus.
Kora olhou para o seu celular e viu que só restava mesmo 5% de bateria!!!
-Como você sabe da bateria do meu celular???
-Eu sou Deus, sei de tudo. Até coisas que eu não gostaria de saber.
-Mentira!!! Deus não existe!!!
-Existo sim. E estou aqui. Ah, e trouxe uma garrafa de vinho, que o seu acabou. Respondeu com toda a calma do mundo.
Kora hesitou, como ele sabia do vinho??? Será um vizinho voyeur? Mas, de certa maneira, aquela voz lhe soava familiar e passava uma certa confiança.
A curiosidade falou mais alto:
-Sr. Deus, ou seja lá quem for, afaste-se dois passos da porta! Não, três passos!!! Afastou???
-Kora, o corredor só tem três passos, estou grudado na porta de seu vizinho da frente.
Sem tirar a correntinha de segurança, com uma vela na mão, Kora olhou pela fresta da porta.
Ainda estava escuro, mas o ser lá fora aumentou sua luminosidade para poder ser visto.
-Melhor assim?
-Zéééééé!!! Gritou Kora, reconhecendo a figura no corredor e abrindo a porta.
-Pô Zé, que susto que você me deu! Brincadeira de mau gosto! Quase fiz xixi nas calças! Entra aqui que você tá todo molhado!!!
Zé era um morador de rua para quem Kora sempre levava comida e com quem “batia altos papos” filosóficos.
-Mas Zé, como você sabia do vinho e do celular? E o truque do “Vagalume” no corredor? Disse enquanto era presenteada com a garrafa de vinho.
-Obrigada! Ih Zé, você tá cheirando a “cachorro molhado”, melhor você tomar um banho, pode se gripar.
-Desculpe, era o único “ser disponível” nas redondezas. Comentou meio sem jeito.
Kora levou Zé para o seu banheiro e foi tirando suas roupas velhas e molhadas.
-Essas roupas vão para o lixo. Vou pegar umas roupas que o Pérsio esqueceu pra você. Meu ex, lembra dele? A água tá fria porque não tem luz, tá? Mas pode usar meu shampoo.
Só quando saía, Kora se tocou que viu o Zé pelado e sentiu um calor na face. 
Quando voltou com as roupas, encontrou seu banheiro cheio de vapor.
Zé respondeu como se lesse seus pensamentos:
-Odeio banho frio!
As roupas de Pérsio ficaram um pouco largas no corpo magro de Zé.
Chegando na sala, Kora comentou:
-Está abafado aqui, né? Mas não dá para abrir a janela, senão entra chuva.
Zé fez um gesto com as mãos, como se empurrasse a chuva em outra direção e abriu a janela. Nem uma gota de chuva molhou a sala.
Kora caminhou até a janela sem acreditar no que tinha acabado de testemunhar.
-É algo parecido com o que você estava tentando com as velas. Disse Zé.
Kora pegou mais uma taça e se sentaram nas almofadas do chão.
-Zé, agora me explica tudinho! Como você faz essas coisas? Você é um super-herói, um ET???
-Eu sou Deus.
-Ah! Para com isso, Zé! Deus não existe!!!
-Será? Então você está delirando?
-Pode ser. É bem provável.
-Então me explica…
-Explica você! Você não é Deus???
-Ah, então eu existo!!!
-Não, não existe!!!
-Hahahahahahaha!!!
Zé serviu o vinho e continuou:
-Eu explico, livre-arbítrio.
-Como assim, livre-arbítrio?
-Eu não queria vocês como marionetes, queria vocês com brilho pessoal, tomando suas próprias decisões. Criei o tal do livre-arbítrio. Deixei até vocês decidirem se acreditam ou não na minha existência. Mas o preço foi e permanece muito alto. O ser Humano não se mostrou preparado para tanta responsabilidade. Faltou equilíbrio. Ele se tornou seu próprio câncer!!!
-E por que você não intervém?
-Porque, se eu chegar a intervir, vocês viram marionetes. E minhas decisões são irreversíveis! O que seria pior?
Kora refletiu pensativa, mas sem abandonar seu ceticismo.
Brindaram e saborearam o vinho.
-Que vinho delicioso!!! — Admirou-se Kora.
-Safra particular, Videiras do Éden.
Bela, a gata, apareceu e se aninhou no colo de Zé.
-Zé, ela odeia estranhos… comentou Kora.
-Eu sou o pai dela. Respondeu Zé acariciando a gata.
A garrafa de vinho, como que por milagre, voltava a encher toda a vez que esvaziava.
Como Kora continuava dura na queda, difícil de convencer, Zé ainda fez um show de imitações perfeitas, cantando como Freddie Mercury, Maria Callas, Tim Maia, Elvis, e dançando como Michael Jackson e Fred Astaire. 
Kora assistiu boquiaberta, estupefata, e aplaudiu como nunca!!!
E depois de muitas garrafas, conversas e risadas, Kora também se aninhou no ombro de Zé.    
-Kora, eu existo, viu?                                                                                                                        
-Humrum, conta outra.
Kora adormeceu.
Na manhã seguinte, a chuva parou, a luz voltou e Kora acordou nas almofadas. Só ela e Bela, nada de Deus ou Zé. A garrafa vazia estava lá, a primeira, e só uma taça usada. Teria sido tudo fruto de sua imaginação???
Como de costume às segundas, Kora saiu para tomar café na casa de sua mãe. De chapéu Panamá, óculos escuros e protetor solar fator 100. Caminhou pelas ruas absorta em seus pensamentos sobre a noite anterior. Afinal, Deus existe ou não???
De repente ela ouviu uma voz conhecida, era Zé acenando com uma alegria incomum:
-Kora, obrigado pelas roupas!!!
 
PS: Tenha Fé!!! 


quarta-feira, 10 de novembro de 2021

"Alô???"

 “Cansado dos dias vazios,
 Dos vasos sem flores,
 E noites de frio sem cio
Vou-me embora em busca do Sol
Onde livre, sem grandes motivos ou medo,
Sorrio
Mergulho sem volta
Em ondas do Mar revolto
Porque que a ti, Vida
Já não pertenço mais”
Chegando à conclusão de que não queria mais viver daquele jeito, postou esse texto nas redes sociais, para tornar sua despedida mais honrosa. Dos seus mais de 2.500 amigos, recebeu quatro curtidas e um comentário: "Lindo irmão! Faz o que seu coração mandar!”
Achou extremamente frustrante as pessoas não se importarem com o seu “Adeus" e nem, ao menos, tentarem demovê-lo da ideia.
Depois de mais de um ano internado, saindo somente para o estritamente necessário, ele já estava meio “deprê”, aliás, mais do que meio, uns 3/4 “deprê”!!! Aos 47 anos, as vantagens da vida de solteiro, declamadas antes em prosa, verso e redes sociais, virou, na pandemia: o feitiço contra o feiticeiro!!!
O seu “reino” de 55m quadrados, já tinha sido muito bem frequentado, em jantares, onde ele mesmo fazia pratos elaborados e elogiados; "cineminha privê" na sua TV de 50 polegadas; jogos de pôquer e sarau musical pela madrugada com os amigos em "petit comité”, até altas horas, parando só quando os vizinhos ameaçavam chamar a polícia. Isso, sem falar das amigas "libres e calientes”, que eram visitas assíduas. Mas nada além de amigas, pois não assumia nenhum compromisso sério, vivia se gabando de não ter ninguém para "pegar no seu pé”, exceto, claro, Dona Iolanda, sua querida mãe.
Como tinha comorbidade - era diabético, seu "reino" tinha se tornado seu refúgio e sua fortaleza. Mas, também, a sua prisão solitária - um “apertamento claustrofóbico". Andava como um zumbi pela casa, ou passava o dia deitado no sofá, "zapeando" séries, com uma cerveja na mão. Mão, exaustivamente, higienizada com álcool em gel.
Não cozinhava mais, tudo era pedido por “delivery”. A bateria do carro arriou de tanto tempo parado. Trabalhava em "home office”, mas na pandemia, a demanda caiu bastante. As contas estavam maiores que a receita. O violão estava sem cordas, a haste de seu óculos quebrou e foi colado com Super Bonder, a barriguinha saliente mostrava que nunca mais frequentou a academia, seu “parceiro” de aventuras, cabisbaixo, não demonstrava mais o entusiasmo de outrora, nem a velha conhecida “Palmita” (“de la mano”) conseguia motivá-lo para o embate solitário 5 X 1 (cinco contra um).  Comia caixas de chocolate por compulsão!!!
Somente, uma vez por semana, recebia a visita de Dona Sandra, sua diarista, avó de 3 netos, que voltou depois dos primeiros meses de quarentena, pois a bagunça estava insuportável!!! A pilha de caixas de pizzas vazias tinha ultrapassado a sua altura (1.75m) e as garrafas longneck já tomavam todo o chão de sua pequena varanda. Ele ficava no quarto pela manhã, e à tarde no escritório, um segundo quarto minúsculo, sem contato físico ou visual, enquanto Dona Sandra limpava o acúmulo semanal. As instruções do dia, invariavelmente, as mesmas, e o dinheiro da diária eram deixadas de antemão na sala, sob a pequena estátua branca de Buda. Não, ele não era Budista, nem religioso. Costumava dizer, que era ateu, graças a Deus. Só tinha ganhado a estátua como um presente de aniversário, para dar sorte, mas, ultimamente, ela parecia ter parado de funcionar. Apesar dele saber que aquela reclusão e os cuidados sanitários eram para garantir sua sobrevivência, começou a se questionar se valia a pena. Os dias se repetiam, sem novidades, sem alegria e sem aventuras. Nada mais lhe apetecia, dava “água na boca”. A monotonia aumentava a tristeza, que tomava conta de seu corpo e espírito e prejudicava sua saúde mental.
Uma tarde, no desespero, desprezando o ridículo e as normas de segurança, deu uma de “voyeur”, escalou a máquina de lavar para invocar Onã, tentando observar D Sandra em seu banho, antes de ir embora, pela fresta da janela do banheiro, da área de serviço.
Dona Sandra, uma senhora com mais de 60 anos, que em CNTP, não lhe ofereceria nenhum atrativo sexual. De repente, quando procurava uma posição que lhe proporcionasse uma melhor visão, a tampa cedeu e ele caiu dentro da máquina. Quase ficou entalado. Envergonhado correu e se trancou no quarto para não ter que dar explicações a Dona Sandra, assustada com a confusão. Prejuízo: R$435,00 pelo conserto da máquina, uma perna dolorida e roxa e uma quase torção no seu “parceiro” inseparável.
Até a interação pelas medias sociais tinha diminuído muito, e o telefone celular, então, quase não tocava mais, a não ser pelas ligações de sua mãe e dos telemarketings e call centers, que continuavam a oferecer serviços e produtos como se não houvesse pandemia, aliás, nunca tinham ligado tanto!!!
Decidido a desistir de seu cotidiano repetitivo e sem graça, fez um laço em torno de seu chuveiro, com sua gravata de seda italiana - a única que tinha, e que só usara uma vez em um casamento, que nem lembrava mais de quem foi, tirou os óculos, subiu em um banco e colocou o pescoço no laço. Era Ateu, mas fez uma oração pedindo perdão a Deus, para o caso de haver vida após a morte, e saltou derrubando o banco!!!
Os segundos a seguir foram muito rápidos, mas duraram uma eternidade!!! Sentiu o laço apertar o pescoço e se desesperou, debateu-se como louco. Pendurado, não conseguia apoiar os pés para se soltar. Arrependido, queria voltar atrás em sua decisão, mas o fim parecia inevitável!!! Sentiu o celular tocando no bolso da bermuda, tentou em vão atender para pedir socorro e se debateu ainda mais!!! De repente, ouviu um estalo forte e caiu estatelado no chão do box com água caindo sobre seu rosto. Para a sua sorte, o chuveiro de hoje em dia é feito de material plástico ordinário e não aguentou o seu peso (que inclusive aumentou consideravelmente na pandemia). Prejuízo: R$550,00 pela ducha nova mais reinstalação da porta do box.
Afrouxou o laço da gravata e permaneceu deitado no chão gelado do box quando sentiu que a chamada insistente no bolso de sua bermuda continuava.
Sem os óculos e com a vista encharcada, atendeu por impulso sem ver quem era.
- “Alô?" A sua voz quase não saiu.
- “Boa tarde! Tudo bem, como vai o senhor??? O motiv…
Antes que ela continuasse, ele caiu no choro.
- “Senhor, vc está bem? Senhor???!!!”
Ele não conseguia falar mais nada, só chorava copiosamente. E, surpreendentemente, durante todo o tempo, a operadora de telemarketing permaneceu na linha tentando acalmá-lo. Ela se revelou ali, mais humana do que todos os seus amigos, que não estavam nem aí para a sua desesperança.
Quando finalmente ele conseguiu voltar a falar, normalizar a sua respiração, ficou envergonhado e pediu mil desculpas. Ela o tranquilizou, conversou mais um pouco e apesar dos pedidos dele para não desligar, disse que teria que voltar ao trabalho e que mais tarde, assim que possível, ligaria de novo. Mesmo sem acreditar muito, ele gostou da ideia e esperançoso, aguardou com ansiedade a sua ligação. Olhava as horas com frequência e conferia o celular, tentou ligar de volta no número registrado, mas aquele número não recebia chamadas.
19:47 PM, toca o celular!!! Ele atende tentando disfarçar a ansiedade:
- Alô… alô???
- Oi, como vai o Sr? É a Mariana do callcenter.
- Oi, Mariana! Estou bem melhor, graças a você! E não me chame de Senhor, não sou tão velho assim.
Agora sabia o nome da sua salvadora. Ela tinha uma voz aveludada e acolhedora.
Estava a caminho da Faculdade, estudava Enfermagem, tinha 24 anos, era mãe solo, tinha uma filha de 5 anos - Luiza, e morava junto com sua mãe. Cuidava da filha de manhã, trabalhava à tarde, e estudava à noite.
Nos próximos dias se falaram todos os dias e nos outros dias também, viraram amigos e confidentes. E, apesar de morarem em Estados diferentes, combinaram de se encontrar assim que acabasse a Pandemia.
Até Dona Iolanda, ciumenta e controladora, vendo a melhora de humor do filho, aprovou sua nova amiga.
A Esperança voltou, o Sorriso brotou, a Vida renasceu. Graças a uma ligação de telemarketing!!!

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Feito às Pressas


E Deus criou o Mundo!!! Não sei se o tempo Dele equivale ao nosso, mas dizem que foi em seis dias e que no sétimo Ele descansou. Pouco tempo pra muita coisa, "né”? Mas, como Deus é Deus, então, tudo é possível. Além do mais, no aperto, Ele pode ter usado uns truques, como: voltar o relógio, parar o tempo, recomeçar sem ninguém perceber, enfim, quem sou eu pra duvidar Dele? Parece que o prazo foi estipulado em uma aposta, e claro, Ele ganhou!!!
Mas, no fim do quinto dia, olhando para a Sua obra quase finda, sentiu orgulho, mas também um incômodo inexplicável. Faltava algo, não estava perfeito. As coisas estavam meio sem graça, não sobressaíam aos Seus olhos. Então, em um “insight" divino, Deus descobriu que o mundo estava em preto&branco!!! Em um repente de pura genialidade, naquele exato instante, Ele inventou as cores e se deu de presente um novo jogo de aquarelas, com todas as cores e suas combinações possíveis.
O sexto dia foi lúdico, feliz, Deus passou o tempo todo pintando, exercitando a sua sensibilidade, escolhendo, cuidadosamente, a palheta de cores aplicada a cada setor de sua obra, que agora pulsava com esplendor, dando novo significado à Sua criação.
Eis que pouco antes do por do Sol do sexto dia, quase no final de Seu prazo, Ele teve uma ideia, uma ideia Divina; resolveu que o "bolo estava delicioso", mas faltava a "cereja". Queria não só ganhar a aposta, mas também ser aplaudido de pé por todos!!!  Em um momento de vaidade egóica, que será também característica marcante de Sua nova criação, Deus correndo para cumprir o prazo, fez um projeto às pressas, sem pré-teste, usando as formas arredondadas do esboço de Mikael (um de seus anjos prediletos), conferiu-lhe algumas características divinas de personalidade e o pintou de cores variadas*, por puro prazer estético, e distribuiu conforme as regiões que habitariam a Terra ( um planeta pelo qual Ele tinha um carinho especial), acreditando que isso seria suficiente para finalizar sua melhor criatura - aquela feita à sua imagem. Mas, nada feito as pressas funciona bem, não é???
As formas escolhidas se mostraram harmônicas e esteticamente bem resolvidas, principalmente nos indivíduos do sexo feminino, mas a "saída de esgoto" junto a “área de lazer” é extremamente questionável. Por mais que tenha sido criada à imagem de Deus, a nova espécie não era Deus, logo, não tinha "espaço suficiente" dentro dele para ter as características de Deus em equilíbrio. Virou sim, um desequilibrado, cheio de defeitos salientes e exacerbados, egoístas e ignorantes em sua maioria*. O divino se tornou mundano fora da embalagem original, e a distribuição regional por cores, em vez de motivo de alegria, tornou-se um grande fator de desigualdade e injustiça, uns coloridos querendo ser superiores aos outros. Talvez fosse melhor tê-los pintado todos da mesma cor.
Ah, e o livre arbítrio??? Esse pode ter sido a causa de todos os problemas!!!
Assim nasceu o Homem!!!
Foi bom Deus descansar no sétimo dia, pois sua nova criatura lhe daria muita “canseira" e testaria Seu amor e Sua infinita paciência incontáveis vezes ao longo dos tempos. Se arrependimento matasse… mas sabemos que Ele é imortal!!!
Em vez dos aplausos, Deus ouve até hoje muitas críticas e questionamentos por Sua criação. Até Lúcifer - a Estrela da Manhã - culpa os erros no projeto, pela superlotação em seus domínios.
Deus errou???  Acho que não, Ele nunca erra, mas poderia ter sido mais criterioso e caprichado um pouco mais. Afinal, Ele é Deus!!!

 

cores variadas*: Deus evitou o Verde em sua nova criatura por ter usado muito essa cor na Natureza e ter pintado todos os Marcianos de verde. Corre também o boato que o Criador é Corinthiano.

ignorantes em sua maioria*: muitos ignoram até o seu Criador e outros manipulam a Sua imagem para seu proveito próprio.

sábado, 3 de julho de 2021

Sonata ao Luar

Naquela estrada escura, no meio do nada, como em todas as noites de lua cheia, sobre o asfalto ainda morno, Wepet, o sapo, contemplou apaixonadamente a sua Musa. E ela retribuía toda aquela admiração com um raio de luar, que como um spot de luz, iluminava o solista batráquio no seu palco predileto.             Inspirado, Wepet inchou o peito e iniciou seu canto, que encheria de orgulho "Pavarottis", "Domingos" e "Carusos", era Sonata ao Luar de Ludwig Van Beethoven! Acompanhada só pelos grilos, sua voz de tenor cortou a escuridão ecoando por quilômetros e mais quilômetros, em um esforço incontido para alcançar a Rainha da Noite. Façanha sempre almejada e, infelizmente, nunca realizada!!!                                        Será que dessa vez, finalmente, seu canto se projetará através do vácuo espacial e chegará até ela???      Eis que quase no momento máximo de sua apresentação, no prenúncio do Gran Finale a plenos pulmões... "Vrrrruuuuuuummmmm!!!" Passou uma enorme carreta, que tornou o nosso artista uma pintura plana no asfalto!!!                                                                                                                                                          A carreta se foi, sem remorso e sem olhar pra trás!!!                                                                                   ...                                                                                                                                                                   De repente, quebrando o silêncio fúnebre, longe lá do céu, de uma estrela muito brilhante e recém surgida, a voz do batráquio apaixonado voltou a ecoar, finalizando com eloquência a sua sonata!!!            A Lua, que finalmente pôde ouvir aquele canto, corou e aplaudiu encantada!!!                                        As estrelas piscaram longa e seguidamente, "Standing Ovation"!!!

Wepet, finalmente conquistou a sua Musa!!!