quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

"Voa Canarinho, voa..."

Como eu era um bebê em 1970, posso dizer, com certeza, que das seleções que vi jogar, ao vivo, na minha vida, nenhuma se compara a seleção brasileira de 1982, dirigida pelo mestre Telê Santana.
Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior. Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, Serginho e Eder. Que timaço!!! Mesmo tendo perdido Careca, nosso melhor centroavante, por contusão, às vésperas da competição, oito entre dez estrangeiros e nove entre dez brasileiros, porque sempre tem um do contra, consideravam essa seleção a grande favorita para vencer a Copa do Mundo da Espanha.
Aos doze anos, meu coração já tinha optado por ser corinthiano, mas ainda não tinha tido coragem suficiente para contar isso a meu pai, palmeirense “roxo”. Ou seria melhor dizer palmeirense verde??? O Corinthians tinha sido campeão paulista, naquele ano, e iniciara uma co-gestão entre atletas e dirigentes, que viria a ser conhecida como a “Democracia Corinthiana”.
Aos doze anos, após duas copas frustrantes, já não acreditava muito nessa estória de “Amuleto da Sorte”.
Também com doze anos conheci Marina, vinda de Salvador com a família. O pai, um alto funcionário do Banco Econômico, tinha sido transferido para São Paulo.
Marina veio estudar na mesma escola, e, por sorte do destino, na mesma classe que eu. A classe dos nomes começados por J, K, L e M. Marina usava os cabelos, longos e lisos, sempre presos. Sua pele era de um moreno aveludado, tinha grandes olhos escuros, que pareciam olhar para dentro da gente, e um lindo sorriso aberto, cheio de dentes.
Um dia sentamos em carteiras vizinhas, e meu braço roçou levemente no seu, tive uma sensação nova e deliciosa, que não queria que acabasse mais, com direito a um friozinho que subiu pela espinha. Tinha sido nosso primeiro contato físico.
Aos doze anos, meu coração já tinha optado por se apaixonar por Marina, mas eu ainda não tinha tido coragem de contar isso para ela.
Mas voltando à Copa, no dia 14 de junho, o Brasil teve uma estréia difícil contra a Rússia, do fantástico goleiro Rinat Dasayev, herdeiro de Lev Yashin, o Aranha Negra. E por falar em goleiros, o nosso, quase sempre seguro, Waldir Peres engoliu um “frango” bisonho, em um chute despretensioso, desferido por Bal da intermediária, aos 34 minutos do primeiro tempo. O nosso habilidoso quarto zagueiro Luisinho, cometeu dois pênaltis, que para a nossa sorte, o árbitro espanhol Castilho, preferiu ignorar. Nossas jogadas de ataque, quando passavam pelo sólido bloco defensivo russo, morriam com facilidade, nas mãos de Dasayev. Era quase inacreditável!!! Seria o nervosismo da estréia??? Parecia que estávamos perdidos “num mato, sem cachorro”!!!
Fim do primeiro tempo. Confesso que ali, temi pelo pior!!! Seria muito azar!!!
- "Bora" filhão, tem que acreditar!!! Acredita na sua sorte!!! Incentivou meu pai, que continuava acreditando na estória do Amuleto.
Minha mãe suspirou e em silêncio, me abraçou e beijou minha cabeça.
Estávamos sentados em um grande sofá marrom de couro. Meu pai na ponta esquerda, minha mãe na meia-direita e eu no meio de campo. Nosso posicionamento habitual em dias de jogo.
Começa o segundo tempo, o Brasil tenta reagir, mas o jogo continua “amarrado”.
A grande vantagem de nossa seleção é que contava com craques fantásticos!!! E quando o coletivo não funcionava, eles podiam, em um lampejo genial, mudar os rumos da partida.
Dr. Sócrates, o Magrão, representante corinthiano na seleção, tinha inclusive parado de fumar para melhorar seu desempenho atlético. Tanta dedicação não poderia ter sido em vão. E, finalmente, aos 30 minutos do segundo tempo(!!!), ele, Sócrates, passa por dois marcadores russos e manda um “canudo” no ângulo superior direito da meta de Dasayev, que ainda quase alcança a bola. É gol do Brasil!!!!! Gooooooolll!!! Pelo menos “achamos o cachorro”.
O Brasil recobrou sua confiança e partiu para o ataque, mas a partida já estava perto de seu final.
Aos 43 minutos, Paulo Isidoro, que tinha entrado no segundo tempo, cruza a bola para Falcão, que como se tivesse uma visão 360 graus, deixa a bola passar, fazendo um “corta luz” para Eder Aleixo (o “queridinho” do público feminino da época), levantar a pelota e soltar a “bomba”. Dasayev não teve tempo de reagir!!! Gol do Brasil!!!! Golaço!!! O gol da virada!!!! “Saímos do mato”!!!
Castilho encerra a partida, vitória brasileira!!!!
- Falei, filho!!! Acredite, você dá sorte!!! Gritava eufórico, meu pai. Minha mãe sorria e me enchia de beijos.
Nas partidas seguintes da primeira fase, o Brasil jogou como o grande time predestinado a ser campeão. Brasil 4X1 Escócia e Brasil 4X0 Nova Zelândia. Com uma sucessão de gols belíssimos!!!
Na primeira partida da segunda fase, reencontramos a Argentina, nós, ainda engasgados pela ”compra” dos peruanos em 78. O Brasil impôs o seu futebol com uma vitória maiúscula: 3X1, gols de Zico, Serginho e Júnior, com Diaz marcando o gol de honra dos “hermanos”.
-“Hermanos” porra nenhuma, que eu não tenho irmão ladrão!!! Toma, Argentina!!! Toma!!! Sem roubalheira vocês não são nada!!! Esbravejou meu pai, lembrando o suspeito título mundial Argentino de 78.
Foi uma vitória para “lavar a alma”, com direito a “sambadinha” de Júnior, nosso lateral esquerdo, comemorando o terceiro gol.
Meu pai, Rafael Mascarenhas Benedetti, cresceu na Mooca, era filho de pai italiano. E passional como todo italiano. Tudo, pra ele, era melhor se fosse da Itália. O país, a comida, as roupas, o Palmeiras, Sophia Loren... Enfim, tudo!!! Tudo menos a seleção!!! Em matéria de seleção de futebol, ele era torcedor fanático do Brasil!!! Felizmente, tudo parecia se encaminhar para o Tetra brasileiro.
No dia 5 de julho, em Barcelona, no estádio Sarriá, o Brasil enfrentava a Itália, que apesar de sua vitória de 2X1 contra a Argentina, se classificou na primeira fase com três medíocres empates. O último, contra Camarões, graças a um escorregão do goleiro N’Kono. Parecia que ia ser um jogo de gato e rato. O Brasil era o gato, lógico!!! E o Brasil só precisava de um empate para passar à semifinal.
Tem gente que acredita em fatalidade, mas como iríamos imaginar, que Paolo Rossi, “Il Bambino D’Oro” em sua juventude - que andou suspenso por participar da manipulação de resultados no Campeonato Italiano, que passara em branco todas as partidas da Copa, até então, ressuscitaria naquele jogo???
Para surpresa geral, aos cinco minutos de jogo, aproveitando a distração da nossa defesa, Paolo Rossi de cabeça: Itália 1X0 Brasil!!! O alívio, veio logo a seguir, Sócrates empata, em passe de Zico, batendo no contrapé do goleiro Dino Zoff!!! Parecia que, apesar do susto inicial, tudo voltava à normalidade. Mas o que é normal em uma partida de futebol??? Aos 25, ainda do primeiro tempo, incompreensivelmente, Toninho Cerezo, que tinha sido palhaço de circo em sua adolescência, resolve fazer graça e dá um passe magistral para Paolo Rossi “fuzilar“ Waldir Perez: Itália 2X1!!! Serginho perde gol feito!!! Aliás, talvez o maior erro de Telê na Copa tenha sido domesticar demais o “selvagem” Serginho, pois o seu rendimento na seleção nunca foi o mesmo demonstrado em seu clube, o São Paulo.
Fim do primeiro tempo. Mas todos ainda acreditavam na virada brasileira.
Os italianos voltam para o segundo tempo se defendendo como podem, até que, aos 23 minutos, o oitavo “Rei de Roma”, Falcão, em um chute forte cruzado, da entrada da área, empata a partida.
– Gooooooool!!! Estamos na semifinal!!! Vamos ser Tetra!!! Comemorou, precipitadamente, meu pai.
Sejamos justos, Cerezo colaborou no lance do gol brasileiro também, levando a marcação que os italianos faziam sobre Falcão, abrindo espaço para ele soltar marcar.
Mas sete minutos depois, após escanteio inexistente para a Itália, e bate e rebate na entrada da área brasileira, a bola sobra para ele, Paolo Rossi, que estaria impedido, se Junior não estivesse parado sobre a linha do gol. Itália 3X2 Brasil!!!
O Brasil se lança ao ataque. A Itália se defende, desesperadamente.
Gentile faz falta em Zico e rasga sua camisa. No lance seguinte, Zico, de camisa 10 rasgada, caminha com a bola na direção de Gentile que recua acovardado. Quando finalmente Gentile reúne coragem e dá o bote, toma um “corte” de Zico e cai sentado de bunda no chão!!! Lance inesquecível!!!
O Brasil não desiste, até que aos 43 minutos do segundo tempo, a cabeçada certeira de Oscar, que já tinha ultrapassado metade da linha do gol italiano, é milagrosamente defendida por Zoff!!!
O Juiz apita o fim da partida... É o fim de um sonho!!!
Não há palavras para descrever a decepção e incredulidade do povo brasileiro naquele momento. Meu pai saiu para fumar na varanda com os olhos marejados, minha mãe foi para a cozinha chorar. Eu permaneço só, naquele imenso sofá, como se minha vida tivesse perdido o rumo. Pensei em Marina, mas naquele momento nem a presença dela resolveria.
Estava provado, minha sorte já era!!! Tudo tinha sido uma mera coincidência ou, se não, uma fantasia criada por meu pai.
Na sala de imprensa, na entrevista pós-partida, jornalistas do mundo inteiro aplaudiram de pé Telê e a seleção do Brasil. A melhor seleção da Copa se despedia do mundial.
A Itália se sagrou campeã, derrotando a Pólônia na semi, e a Alemanha na final. Com Paolo Rossi marcando gols em ambas as partidas e se tornando o artilheiro da Copa. O mundo tinha agora duas seleções Tri-Campeãs.
No dia seguinte da derrota brasileira, fui à escola, estavamos em uma semana de reposição antes das férias, e tudo que eu pensava querer, pra me sentir melhor, era sentar ao lado de Marina. Ficar perto de Marina. Mas para minha surpresa e desgosto, ao chegar, os lugares já estavam ocupados. De um lado Marcela, sua melhor amiga e do outro lado, o lado que deveria ser meu, Lucci (???!!!). O que Lucci, oficialmente João Lucas, aquele “filhinho de papai”, estava fazendo ali???
Sentei no fundão da sala e morri de ciúmes quando presenciei uma animada conversa entre Marina, Lucci e Marcela.
Chegando em casa, não tive fome, quase não almocei.
Fui ao banheiro levando O Jornal da Tarde, cuja a capa, emocionante, era a de um menino chorando na “Tragédia de Sarriá”. Comecei a ler a matérias sobre o jogo, e, de repente, a página ficou manchada com grandes gotas, gotas de lágrimas. Sentado no vaso, chorei muito!!! Chorei tudo que estava reprimido!!! Chorei pelo Brasil, chorei por Marina!!! E pensei: ”Eu sou um grande azarado, isso sim!!!”