sábado, 30 de abril de 2016

Clube 77


Em um clube de dança daqueles antigos, parecendo de filme, com um salão largo com piso em preto e branco, como um grande tabuleiro de xadrez, seres anônimos, comuns, comerciantes e donas de casa, se sentiam como estrelas. O extravagante e o exagero estavam presentes nos movimentos previamente coreografadas dos dançarinos, exceto em alguns poucos, que desfilavam sua arte em movimentos graciosos, precisos e sensuais, com classe e refinamento. A maioria com seus cabelos grisalhos, brancos ou tingidos, frequentava o estabelecimento há décadas. A banda também permanecia a mesma, desde a inauguração da casa, nos anos 70 do século passado, só com a reposição de alguns integrantes por motivos de força maior, um por alcoolismo, uma por invalidez e outros dois por falecimento.
Ana Luz, como era conhecida Ana Luzia Conceição Carvalhal das Fontes Sobrinho, cantora única, contralto de voz poderosa, de descendência portuguesa, foi acometida pelo mal alemão, Alzheimer, começou a ter brancos repentinos e esquecer as letras das canções, e infelizmente foi a aposentada por invalidez há um ano. Desde lá, três cantoras foram testadas e reprovadas pelo gosto popular. A quarta candidata, que não era ruim, fazia a sua estreia, mas a comparação era sempre inevitável e desfavorável.
Um grande candelabro centralizado sobre a pista era a única fonte de luz do salão, nos cantos escuros, do lado oposto ao palco, ficavam as mesas.
Magro, assim o chamavam e ninguém sabia ao certo o seu nome, sentava na mesma mesa do canto, isolada, costas para a parede, longe do bar, há 11 anos, desde a primeira vez que apareceu. Magro não dançava, não conversava ou procurava companhia. Tomava lentamente o seu conhaque Corvoisier. O garçon deixava a garrafa e não o perturbava, ficava sempre atento, mas raramente era chamado. Mas por algum motivo desconhecido, Magro, bebia cada vez menos.
Segurando a taça na mão esquerda, parecia canhoto, ficava por horas apreciando a exibição dos dançarinos no salão.
Mas naquela noite, algo diferente estava para acontecer.
Duas horas depois de Magro, chegava ao clube um senhor bem vestido, notadamente acima do peso, com um uso excessivo de anéis adornando os dedos rechonchudos, acompanhado de uma bela loira, uns trinta anos mais nova, usando salto alto e algo que poderia ser chamado de mini vestido com um casaquinho, e junto com eles, um “armário” de quase dois metros de altura, com certeza o guarda-costas do senhor gordo . O “armário" entrou primeiro, observou o local e apontou a mesa de Magro para o seu chefe.
Nesse momento soaram os aplausos de final de música, que o gordo bem vestido abrindo os braços, agradeceu como se as palmas fossem em homenagem a sua chegada.
- Narciso, então é aqui que você se esconde??? Disse em um tom ironicamente afável, o gordo, se dirigindo a Magro, que era magro, aliás cada vez mais magro, tinha entre 60 a 65 anos, sua pele tinha adquirido um tom amarelado, nunca tirava o casaco, usava um boné cinza escuro, que se tornara seu companheiro inseparável, estilo “Andy Capp”*, e sua imagem em nada combinava com a de Narciso, que se apaixonara pelo próprio reflexo.
- Posso me sentar com você??? Perguntou o gordo e antes que Magro respondesse, puxou uma cadeira para a loira e outra para ele. A loira agradeceu, sentou e cruzou as belas pernas, longas e torneadas.
- O lugar está ocupado, disse Magro, em tom baixo e seco, com sua voz rouca.
- Realmente, agora está!!! Hahhahahahhaha!!! Respondeu o gordo enquanto sentava.
- Caia fora, não falo de negócios aqui!!!
- Mas o local é publico. Retrucou o gordo, mantendo o tom afável.
- Então senta em outra mesa!!! A voz rouca de Magro fazia sua fala parecer um sussurro, mesmo quando ríspida.
- Já está ocupada, responde o gordo, mandando o “armário” que ficara em pé sentar na mesa ao lado.
Magro se exalta:- Olha aqui, seu filho da..., mas o gordo interrompe:
- Calma, “take it easy, my friend”, ela, indicando a loira, é muito nova pra ser minha mãe e o assunto é do nosso interesse!!! E chamou o garçon em seguida.
A loira tentou disfarçar, mesmo ficando visivelmente sem graça com a piada.
- Pois não??? Chegou o garçon.
- Ele não quer nada, já está de saída!!! Disse o Magro subindo um pouco o tom rouco.
- Estou, diz o gordo, mas antes quero brindar com meu amigo, que me ofereceu um pouco de seu delicioso conhaque. E pra ela um Campari. Ah!!! E água para o pequeno, que ele está dirigindo, disse se referindo ao "armário”.
- E o senhor, Seu Narciso, quer mais alguma coisa??? Perguntou o garçon.
- Seu o que??? Do que você me chamou, seu enxerido??? Indagou Magro subindo ainda mais o tom rouco.
- Me desculpe, Seu… seu… respondeu o garçom, completamente perdido e sem jeito.
- Calma, intervém o gordo, um sujeito tão bonito assim tinha que chamar Narciso!!! Hhahahahhaha!!! E colocando a mão em concha, cochicha para o garçon: - É só um apelido, mas claro que ele não gosta!!!
O garçon se retirou rápidamente.
- Belo esconderijo, bem conservado, boa bebida, sem câmeras de segurança, os que dançam nem sabem que você existe… Elogiou o gordo.
- Venho aqui para relaxar, não pra me esconder. O que você quer??? Perguntou Magro, voltando ao tom baixo.
- Você desapareceu e não cumpriu nosso último contrato.
- Desisti.
- Como assim??? Não existe desistência, você sabe disso!!! Disse sério o gordo.
- Eu devolvi o dinheiro.
- Você sabe que não é só uma questão de dinheiro, é uma questão de honra!!! E os que me contrataram estão perdendo a paciência, querem ver o negócio finalizado.
- Eu desisti. Repetiu Magro.
- Não existe desistência, nunca houve e nem haverá!!! Afirmou categoricamente o gordo, empurrando um envelope cheio de dinheiro na direção de Magro. A loira olhava na direção do envelope com um olhar mais necessitado do que ambicioso.
- Não vai dar, arrume outro.
- Não existe outro!!! Gritou o gordo dando um tapão na mesa. A loira se encolheu assustada.
- Que pena, disse o Magro com um sorriso irônico.
Fez-se uma breve pausa na conversa na volta do garçon.
Após apreciar o conhaque de Magro, o gordo retomou:
- Posso saber o por quê da desistência???
- Não.
- Eu insisto, tantos anos e você nunca falhou.
- Eu não falhei, eu desisti. Retrucou Magro.
- Mas por quê??? Eu quero saber!!!
- Ele tem câncer.
- Que bom, então vai morrer mesmo!!!
- Vai, o médico deu 6 meses a um ano pra ele.
- Então… Disse o gordo gesticulando, ansioso para Magro confessar de vez o motivo.
- Ele tem uma filha de 4 anos, que perdeu a mãe quando nasceu. Não vou tirar dela os últimos meses com o pai.
- Ah, é por isso!!! Virou sentimental!!!
- Sempre fui. Não aceito contratos de mulheres e crianças.
- E agora de doentes também, pelo jeito.
- Pode ser.
Magro notou que a loira também tinha se sensibilizado com a história da filha do pai canceroso, seus olhos marejaram e ela tentava disfarçar. Talvez fosse mãe e exercesse a profissão de “dama de companhia” por necessidade.
- Meu caro, ou a filhinha dele vai ficar triste ou sua netinha vai, você escolhe!!! Ameaçou o gordo colocando uma foto de Magro brincando com sua neta no parque sobre a mesa.
- Isso é uma ameaça??? Perguntou Magro raivoso.
- Entenda como quiser. Ironizou o gordo.
Magro observou que o “armário” sorriu maliciosamente, abrindo o casaco e mostrando que estava armado.
A música soava alto, knipe de metais, quebrada de bateria, glissando do piano, os dançarinos caprichavam na coreografia e ninguém sequer imaginava a tensão que ocorria na mesa de Magro. Tinha o garçon atento a tudo, mas era um risco inevitável.
Repentinamente, Magro engasgou com o conhaque, sempre em sua mão esquerda, teve um acesso violento de tosse e encobriu a boca com o guardanapo branco que estava em seu colo com a outra mão. O Gordo e o “armário" puseram-se a gargalhar com a tosse interminável de Magro, que ficava roxo.
A loira tentou ajudar pedindo água ao garçon.
De repente a mão esquerda de Magro sumiu sob a mesa, a gargalhada cessou com dois estampidos secos que abriram um furo de borda chamuscada no guardanapo. No salão, a música encobria tudo.
- Não grite!!! Não quero ter que atirar em você!!! Sussurrou Magro para a loira apavorada, que fez sim com a cabeça.
Magro guardou sua arma com silenciador sob o casaco, tomou um último gole de conhaque, limpou as suas digitais do copo, levantou, recolheu a sua foto com a neta e endireitou na cadeira o corpo do “armário”, que ameaçava desabar. Mandou a loira abraçar e segurar o gordo.
Pegando o envelope de dinheiro, tirou um "bolo" e deu o resto a loira:
- Mude de vida. Você merece algo melhor do que isso. Você tem um filho, não tem???
A loira concordou assustada com a situação e com a dedução do Magro.
A musica terminou com a ovação dos dançarinos que aplaudiam a banda e suas próprias performances.
Magro ia saindo quando se deparou com o garçon chegando com a água, mas recusou o copo oferecido e colocando o dinheiro do envelope no bolso do garçon, disse::
- Você não me conhece nunca me viu, se eu souber que você deu com a "língua nos dentes"" eu volto!!! Ok???”
- Sim Seu… Seu… Gaguejou o garçon.
- Como é meu nome??? Perguntou Magro.
- Não sei… nunca vi o senhor aqui!!! Respondeu o garçon.
- Bom garoto!!! Maurício, bom garoto!!! Elogiou Magro, olhando o nome do garçon no seu crachá.
No caminho da porta um japonês bêbado saindo do banheiro esbarrou em Magro.
- Omae, bakayaro, doko o mite aruitenda??? ( Seu idiota, olha pra onde anda!!!)
Magro tentou passar, mas o japonês atravessou de novo o seu caminho.
- Ayamare yo!!! (Se desculpe!!!)
Magro respirou fundo, não contava com esse imprevisto atrasando a sua saída.
Providencialmente Maurício interveio tentando resolver o impasse.
- Pode ir Seu Magro, eu dou um jeito aqui!!!
- Maguro??? Omae wa sakana ka??? Temee wa otoko ja nai yo!!! Nigueruna!!!
( Atum??? Você é um peixe??? Homem que não é!!! Não fuja!!!) Bradou o nipônico ofendido, enquanto Maurício tentava acalmâ-lo: - Calma, não chame Seu Magro de sacana, ele pode se irritar!!!
Magro saiu rapidamente, acenou para o porteiro, seu velho conhecido, chamar um taxi. Deu uma última olhada para o luminoso da entrada, Clube 77, e pensou: ”Vou sentir saudades!!!” Tirou o boné como uma reverência, revelando os cabelos ralos, resultantes da quimioterapia,
Magro, nome verdadeiro desconhecido, apelido Narciso, 63 anos, assassino de aluguel, canhoto, com ictericia, diagnosticado com câncer terminal no fígado, deu adeus ao seu clube preferido, colocou o boné, entrou no taxi e foi embora.

"Andy Capp"*: Personagem de Cartoon criado por Reg Smythe (1917/1998), conhecido no Brasil como "Zé do Boné".

O Sumiço de Deus


- Eu desisto!!! Bradou Deus.
- Calma, o Senhor não pode… Suplicou Mikael (I).
- Como não posso??? Eu posso fazer o que Eu quiser!!! Afirmou um quase colérico Todo Poderoso.
- Mas o Senhor não quer isso, tanto tempo investido… Pense bem, não com a razão, mas com Seu amor infinito. Ponderou Gabriel.
- Claro que Eu quero!!! Cansei!!! Meu Amor é infinito, mas acabou!!! É como dizem na Bahia: "Tem, mas acabou!!!” Eles passaram dos limites!!!
A Humanidade ia de mal a pior e dessa vez parecia que Deus tinha realmente perdido a paciência.
- Eu sei, mas eles sempre agiram assim, e o Senhor, na minha opinião, foi tolerante demais, eu acho que uma sociedade Matriarcal teria sido uma decisão mais acertada… Comentou Dinah, questionando insolentemente as decisões Divinas do passado.
Quando viram que Deus ficara rubro com o comentário, os olhares "fuzilantes" se voltaram para ela.
- Menos Dinah, menos!!! Advertiu Uriel.
- Calma Senhor, olha a sua pressão… Suplicou Mikael (II) para Deus.
Jesus tomou a palavra.
- Acalmai-vos irmãos, apesar da petulância, existe alguma lógica no que ela diz. Meu Pai sempre foi extremamente paciente e amoroso com eles. Mas desde o Jardim do Édem, nada era bom o suficiente, eles nunca estavam satisfeitos ou agradecidos…
- O problema foi Ele ter criado Eva!!! Ela é que se deixou seduzir pela Serpente!!! Afirmou Uriel, de forma misógina.
- Foi Eva uma “porra"!!! Se aquele Adão não fosse um frouxo e desse a atenção devida, Eva nunca iria procurar outra “Serpente"!!! Retrucou Dinah.
- Aquela vadia, vocês é que ferraram com tudo!!! Re-retrucou Uriel.
Dinah partiu para cima de Uriel, que era um troglodita com quase o dobro de seu tamanho com o dedo em riste:
- Vocês quem??? Seu machista! descarado!!! Deus é paciente demais com alguns aqui também!!!
- Calma gente, calma… Suplicou Mikael (III), se interpondo entre os dois.
Jesus retomou a palavra.
- Mas depois disso tivemos muitas outras tentativas de colocar o trem nos trilhos, umas até esdrúxulas, como aquela Arca, idéia maluca que Uriel Lhe vendeu e o Senhor comprou, meu Pai!!! Quanta vida se perdeu!!! Quarenta dias e quarenta noites de chuva, quanta água desperdiçada!!! A gente reclama dos Homens, mas esse mal exemplo foi nosso!!! Eu fui voto vencido!!! Graças ao nosso querido e "brilhante"" Uriel!!!
Dinah adorava o tom irônico com que Jesus menosprezava a inteligência de Uriel.
Deus concordou com a cabeça, Ele sabia que a arca e o diluvio não tinham sido das medidas mais brilhantes e econômicas. Mas antes culpar a chuva do que passar milênios na terapia por ter exterminado quase toda a sua criação na Terra. A Sua relação com Uriel nunca mais fora a mesma depois da Arca e ele se ressentia disso.
- Seu filhinho de Papai, deixa eu te encontrar sozinho!!! Vociferou Uriel para Jesus.
Jesus sorriu de volta aumentando ainda mais a raiva de Uriel.
- Calma, por favor, calma… Suplicou Mikael (IV).
- Paz irmãos, respeitem a presença do Pai!!! Falou Gabriel colocando ordem.
Com a calma retomada Jesus continuou.
- Eloi, Eloi, Lama Sabactani???* O Senhor se lembra, não é??? Eu mesmo já dei minha contribuição pessoal, disse Jesus mostrando a marca dos cravos nas mãos, mas apesar de durar dois mil anos, foi só uma solução parcial. E eu não vou lá de novo!!! É muita falta de consideração da parte deles!!!
- É verdade filho, eles destroem a Terra que lhes dei, desrespeitam, traem e matam uns aos outros, a minha Igreja há muito não me representa, prega absurdos em Meu nome e virou uma máquina visando lucros, extorquindo e manipulando a desesperança e o sentimento de culpa dos Homens. Triste, Deus estampava toda a Sua decepção em Seu semblante.
- Eles sempre fazem o que querem, chamam de Livre Arbítrio, mas quando dá merda (e sempre dá)… Chamam pelo Seu Amor: "Pelo Amor de Deus”, me salve!!!” Aí é demais!!! Mesmo com toda a Sua Santa Paciência não dá, né??? Os Dez Mandamentos, amai ao teu próximo como a ti mesmo… Justiça Social, Igualdade entre os Homens, ninguém sabe mais o que é isso!!! É cada um querendo garantir o seu!!! Estão fazendo o Senhor de palhaço!!! Comentou Dinah colocando mais lenha na fogueira.
- Pai, por favor, se quiseres desço lá e levo Sua mensagem de descontentamento e advertência. Interveio Gabriel, tentando dar um último sopro de esperança para a Humanidade.
- Não Bié, dessa vez eu vou deixar que aprendam com o próprio erro ou que se destruam em sua ganância. Talvez eu tenha sido por demais benevolente e paternalista. Disse Deus, refletindo sobre suas decisões passadas.
- Mas Pai, sem a sua presença, Lucifer vai espalhar o terror!!! Argumentou Gabriel.
- Ah!!! Lucci, Lucci, por que tanta maldade nesse seu coraçãozinho??? Onde foi que Eu errei com você também??? É, assim será, mas dessa vez o Homem vai ter que se virar sozinho.
- Talvez colocando as mulheres no comando dê uma guinada na coisa… Tentou argumentar Dinah, mas foi interrompida por Jesus:
- Que seja feita a Sua vontade assim na Terra como no Céu.
Uriel, depois da Arca, não ousava a dar mais sugestões estratégicas de como lidar com os Homens.
- Por favor Senhor, uma última chance para eles… Suplicou Mikael (V).
Mas Deus sem responder, cabisbaixo, dirigiu se a passos lentos para seus aposentos.
Seria essa a Sua decisão definitiva, para todo o sempre???
Será esse o ponto final para a raça Humana???
Aproveitando a deixa, Jesus jogou um beijo para Uriel e se retirou também.


- Eloi, Eloi, Lama Sabactani???* : - Deus Meu, Deus Meu, por que me desamparaste???

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Segunda???

Acordei com o barulho do abrir e fechar portas e gavetas do guarda roupa, o relógio no criado mudo marcando 6:12 AM.
- Mulher, você enlouqueceu??? São 6h da manhã e você fazendo essa confusão??!!!
- Olha, me deixe, viu!!? Eu tenho uma reunião as 7h e não posso me atrasar e o trânsito está terrível, ainda mais com esse prefeito achando que o bom é tirar asfalto e colocar calçada!!! Respondeu já estressada. Pela luz que entrava por uma fresta na cortina via seu vulto andando do quarto ao banheiro e do banheiro ao quarto.
"Transito terrível, hoje???” Bom, reunião no sábado é pra estressar mesmo, pensei.
Voltou já maquiada e me deu um beijo na testa antes de sair.
- Ah!!! Deixei seu suco pronto. Disse, apontando o copo sobre o criado-mudo.
Agradeci e tomei o meu suco de laranja com couve de todas as manhãs
Engraçado, para um sábado cedo estava mesmo movimentado, ouço muito barulho de carros passando.
Abstraí e resolvi dormir mais um pouco.

9:48 AM
"Prrrrrrrrrrrrrrrrrrr, pant pant pam pam, pant pant pam pam…”(Tema de Missão Impossível de Lalo Schifrin )
O meu celular!!!
- Alô??? Atendi a contragosto.
- Oi, é Julia, você já tá chegando??? Era minha assistente.
- Chegando aonde??? Perguntei ainda sonolento.
- Na reunião com o cliente, marcada para as nove e meia!!!!!
 - Mas a reunião é só na segunda, Julia!!!
- E que dia é hoje??? Hoje é segunda!!!
- Não, hoje é sábado!!! Retruquei irritado.
- Ai, ai… Olhe, vou pedir milhões de desculpas, e dizer que você acordou com uma enxaqueca terrível e não pode vir. Depois a gente se fala. Vou voltar para a reunião.                              
 E desligou antes que eu pudesse dizer algo mais.
Olhei para a tela do celular que informava: segunda feira, 17 de agosto
"Segunda, como assim???""

Não consegui mais dormir e levantei da cama contrariado:
“Que saco!!! Se hoje é segunda, onde foi parar o meu sábado e domingo???”
Fui ao banheiro escovar os dentes e reparo que minha barba está crescida, como se eu não a fizesse há alguns dias, e eu só deixo de fazer a barba aos finais de semana.
Liguei o computador e as notícias eram as de segunda-feira de manhã e as resenhas do final de semana: O dólar inicia a semana em alta; O Governo cogita a volta da CPMF; Sírios, a morte no mar; O Corinthians assume a liderança do Campeonato Brasileiro; Novak Djokovic, de novo…
A irritação, dá lugar a angustia. Eu não lembro de nada do final de semana!!!
Entro no Facebook e… Nada!!! Nenhuma movimentação, nenhum post, nenhuma curtida ou comentário!!! Nem sábado, nem domingo!!!
O desespero aumentou.
O único post, na minha Timeline, era da segunda mesmo, um link patrocinado anunciando os shows de David Gilmour no Brasil. No post, ironicamente, Gilmour canta:
“Waiting for someone or something to show you the way… and you run to catch up with the sun, but it’s sinking…” (Time, Pink Floyd)
Levantei sentindo uma tontura muito forte. O mundo girava dentro e fora de minha cabeça!!!
Desmontei sobre o sofá da sala, ofegante.
Tentei me acalmar fazendo hiperventilação.
“Calma que tudo vai ter uma explicação lógica!!!” Repetia como um mantra.
Senti uma dor aguda no estômago, excesso de ácido clorídrico pelo nervosismo, mas fome também.
Voltei da cozinha comendo duas bananas amassadas com farinha láctea pensando no que fazer a seguir.
Peguei o celular pensando em ligar para minha mulher, mas por mais que tentasse não conseguia lembrar o seu número, e fiquei estupefato notando que tanto a agenda como o registro das ligações desapareceram!!!
Segurei o prato, mas o garfo foi ao chão.
O único número que restava era o da ligação de Julia essa manhã.
- Oi Julia…
- Oi, acordou???
- Sim, mas preferia que tudo fosse um sonho…
- O que foi???
Expliquei a situação e quase choro ao telefone.
- Fica calmo, não se preocupe com o trabalho que eu resolvo por aqui…
- Ok…
- Olha, eu tenho um tio neurologista, vou falar com ele pra te atender de urgência.
- Tá bom, obrigado…
- Se cuida, beijo.
Lembrei que Julia, curiosamente, sempre tinha parentes morando e trabalhando em funções úteis e estratégicas.
"Pim!!!" (Barulho de zap 1)
“Meu tio vai te atender na hora do almoço, 12h em ponto. Vou mandar um motorista 11:40.”
Digitei: “Ok. Obrigado!!!”
"Pim!!!" (Barulho de zap 2)
Número de Lidiana (minha esposa): 9116…
- Oi…
- Ainda estou em reunião, pode ser mais tarde???
- Preciso falar com você, é importante!!!
- Espera que eu vou sair da sala… Diga…
- Você sabe o que eu fiz no final de semana???
- Como assim???
Contei o ocorrido, ela se mostrou bastante nervosa e preocupada, estranhou minha ausência no Facebook, mas não se lembrava de nada diferente ou especialmente relevante que eu tivesse feito no final de semana.
- Você bateu a cabeça ou algo assim??? Perguntou.
- Não, não que eu me lembre…
Contei que ia ao neurologista.
- Me ligue assim que sair da consulta, ok??? Vou tentar sair mais cedo hoje.
- Tá bom…
- Beijo.
- Outro…

Desci as 11:35 e encontrei um funcionário varrendo a entrada do prédio.
- Bom dia!!!
- Bom dia… você é o…???
- Florisvaldo, Flori.
- Você é novo aqui Flori???
-  Mais ou menos, faz 7 meses. Cheguei umas duas semanas antes do senhor trocar de carro.
- Ah, sim… Flori, você trabalhou no final de semana???
- Não, senhor, foi minha folga.
- Que pena… então você não me viu nem no sábado, nem no domingo.
- Não vi não, senhor. Respondeu com uma cara de que não estava entendendo a conversa.
- Soube de alguma coisa relacionada comigo???
- Não, é...  só sua vizinha do 101…
- O que tem ela???
- Comentou que o senhor joga muito videogame de carro!!!
- Eu jogo videogame de carro??? Eu é que fiquei sem entender nada.
O motorista chegou buzinando, fui ao seu encontro.

12:05 PM
Chegamos com 10 minutos de atraso devido ao trânsito e ao motorista “Roda Presa”.
- Obrigado, pode ir…
- Não posso não, Dona Julia falou pra eu trazer o senhor e levar pra sua casa. E quando Dona Julia fala, é ordem!! Respondeu.
Dei uma risada irônica e segui para o consultório.
Dr Paulo de Tarso, tio de Julia, renomado neurologista, deve ter mais de sessenta anos, homem de voz pausada, que pensa antes de cada fala, após um exame minucioso e cuidadoso, disse que era uma perda de memória recente, mas que aparentemente eu estava bem. Receitou uma tomografia computadorizada e repouso.
Não sabia se me sentia aliviado ou mais preocupado.

Voltei para casa.
Intrigado pelo comentário do videogame de Flori, interfonei para a vizinha. Mas ninguém atendeu.
Liguei o computador, fucei o histórico pra ver se achava alguma pista. Nenhuma, a não ser um link de uma página do youtube, cheia de conteúdos para meditar e dormir, com sons de chuva, mar, água, natureza, sons de baleias e… estrada (???). Um som leve e melancólico de mão direita de piano entrecortadas por sons de carros que vinham lá de longe, passavam e iam embora. Uma repetição que durava horas. "Será???" Isso explicaria o comentário da vizinha.
Mas isso não seria suficiente para me fazer dormir dois dias…
"O suco!!! " Bastaria colocar Lexotan ou algo desse tipo e misturar no liquidificador.
Tanto tempo sem comer explicaria a fome também!!!
Então eu realmente poderia ter visto minha mulher sair no sábado de manhã, dormir e acordar só na segunda com a ligação de Julia achando que ainda era o mesmo dia.
"Mas por quê??? Por que Lidiana faria isso??? Mas como ela desligou o computador???
Pra quê um plano tão mirabolante???
Teoria da Conspiração???"
Muitas idéias me passavam pela cabeça, mas nada que justificasse.
"Um amante???" Acho que não… Passávamos por uma fase tão boa, sem crises. 
Mas a voz dela realmente transparecia nervosismo quando liguei.

5:45 PM
- Oi Lidi, você já está vindo??? Perguntei.
- Estou quase chegando. Quer que eu leve alguma coisa???
- Não…
- O que o neurologista falou???
- Me recomendou uns exames…
- E você está se sentindo melhor???
- Mais ou menos, quando você chegar eu te falo…
- Ok, amor, eu já estou chegando!!! Beijos…
Desliguei sem responder, louco para questioná-la e com muito medo das respostas.
Para minha surpresa vi que a agenda do meu celular tinha voltado, algo que sumiu sem explicação, voltou da mesma maneira!!! Teria sido um pane do aparelho ou da operadora???
Deitei na cama com a luz apagada tentando controlar o stress.
"O que era verdade??? O que era realidade???"
Ouvi o barulho de chave destrancando a porta.
Hora da confrontação!!!
Ela entrou apressada, acendeu a luz da sala, sei, pelo barulho, que nem tirou os sapatos como é de costume aqui em casa. Chegando ao quarto, correu ao meu encontro e me abraçou.
- Como você está, meu amor??? Perguntou demonstrando aflição e acendeu o abajur.
Nesse momento entrei em estado de choque.
- Que-quem é você??? Perguntei gaguejando, quase sem voz.
A roupa era a mesma que ela usava ao sair, a voz me soava familiar, mas eu não tinha a menor ideia… de quem era aquela mulher!!!

“Hello,
Is there anybody in there?
Just nod if you can hear me.
Is there anyone at home?” (Comfortably Numb, Pink Floyd)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Pizza à Portuguesa

No primeiro encontro só os dois, há mais de 20 anos atrás, “duros”, como eles eram e encantada, como ela estava, a pizza lhe pareceu uma ótima pedida.
Logo que chegaram à  Pizzaria, ele pediu um vinho tinto seco, nacional e barato, claro, e apesar de seu gestual exagerado e sua fala em um tom que parecia querer que todo o restaurante ouvisse, ela achou muito chique ele gostar de vinho e o máximo o seu jeito “autêntico” de ser.
Antes de fazerem o pedido, ele, jornalista, persuasivo com as palavras, fez uma explanação eloquente de qual o seu sabor predileto de pizza e o porquê. Quase um monólogo, com pouquíssima participação dela.
- Eu gosto é de pizza à Portuguesa, não peço outra!!! Ela tem a cobertura cheia de ingredientes... lembra uma senhora portuguesa, gorda, daquelas que adoram cozinhar coisas deliciosas. É uma pizza que vale o dinheiro que você paga, dá pra matar a fome!!! Não é que nem pizza de Muzzarela, que não tem personalidade, parece sempre que falta alguma coisa, que é só a base pra um outro sabor... Não é mesmo???
Ela concordou meio sem jeito (na verdade, ela adorava pizza de Muzzarella) e nem ousou dizer que a Margheritta era o seu sabor predileto, com medo de decepcioná-lo.
Ele terminou a sua justificativa perguntando em seguida:
- Vamos pedir??? Que sabor você quer???
- Pode ser à Portuguesa... Respondeu ela querendo agradar.
- Ótima pedida!!! Garçon, a de sempre!!!
Na verdade, ela não gostava nem de presunto, normalmente apresuntado, e muito menos do indigesto farelo de ovo de gema dura que cobria a pizza à Portuguesa, mas inocentemente pensou: “Que mal haveria em fazer aquela concessão???” Sem imaginar que nos 20 anos seguintes, a pizza à Portuguesa passaria a ser um símbolo da dominação e do poder dele sobre ela.
Ela aceitava, no início por se sentir culpada, não querendo desmentir o primeiro encontro, e depois por resignação, achando que esse tipo de atitude, herança incrustada de sua forte formação católica, negando a si própria, ajudava a manter a relação familiar estável.
Negou tanto e por tanto tempo, que chegou a acreditar que aquilo seria o máximo da felicidade que lhe seria concedida nessa vida.
Mas, 23 anos, 21 de casamento, 2 filhos e muitas pizzas à Portuguesa depois, o inesperado acabou acontecendo. Na mesma pizzaria do primeiro encontro, que aliás nunca deixaram de frequentar, só os dois, na comemoração do aniversário de casamento, ele foi ao banheiro enquanto esperavam a pizza, e, por um descuido, esqueceu seu celular sobre a mesa.
Ela ouviu o som que avisava a chegada de um “torpedo” no celular do marido e não resistiu à curiosidade. Nunca tinha feito isso antes, mas aproveitando a demora dele, resolveu “xeretar” suas mensagens. Mas para desbloquear o celular tinha que primeiro descobrir a senha. Qual seria??? Tentou primeiro 18 08, o aniversário dele, e por incrível que pareça acertou. Pensando bem, era uma escolha lógica para alguém tão egocêntrico. Ela leu a mensagem que chegou, empalideceu, depois as mensagens anteriores, seu coração disparou, e as respostas dele, não conseguia respirar direito, pensou em fugir... mas acabou ficando.
Ele voltou do banheiro e olhando as mensagens no celular comentou:
- Pô, o Luciano mandou uma mensagem querendo que eu passe no jornal ainda hoje a noite... logo hoje??? Bom, se ele precisar muito eu dou só uma passadinha rápida!!! É trabalho, né???
Ela permaneceu calada com seus olhos fixos nele.
Ele continuou:- Então, vamos fazer um brinde??? À Nossa!!!
Mas em vez do encontro das taças, ele acabou recebendo um inesperado banho de vinho tinto!!!
- O que é isso??? Você enlouqueceu??? Perguntou ele.
- Seu cínico, canalha!!! Então é o Luciano que quer te dar hoje??? E no trabalho???
- Você... você mexeu no meu celular??? Isso é falta de respeito!!! Bradou ele, tentando mudar o foco.
- Mexi sim!!! Ainda bem que mexi!!! Quem é você pra falar de respeito??? Faz quanto tempo você me trai com essa mulher??? Pelas mensagens da pra ver que não é coisa nova!!! A quanto tempo você me engana???
Percebendo que a máscara caíra ele foi acometido por um incontrolável acesso de tosse.
Sentindo se livre para dizer o que queria como a muito não se sentia, ela emendou: - Eu quero que vocês vão se foder, você e essa sua querida putinha!!!
Nesse momento o garçom vinha chegando com a pizza.
- E tem mais, enfia essa pizza no rabo, porque eu odeio pizza à Portuguesa!!!
E levantando, pegou a bolsa e se retirou do recinto, deixando ali o marido, sério candidato a ex, atônito e sem saber onde “enfiar a cara”.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

No Bar do Portuga

A parede do bar ostenta uma placa com a frase: ”Aqui se reúnem políticos, pescadores, publicitários e outros mentirosos.”
Caubi e Haroldo, companheiros de copo de longa data, bebem sua habitual cervejinha de final de tarde no Boteco do Postiga, ou Bar do Portuga, como é mais conhecido. O Postiga é um português meio mal humorado, meio “Seu Lunga”, que vindo de sua terra natal, se estabeleceu no bairro de Itapuã, em Salvador, perto da colônia de pescadores, há mais de 30 anos.
Entre uma “saideira” e outra, os 2 amigos conversam sobre a conjuntura politica nacional e mundial, fotografia, filmes, livros, artes em geral, futebol, mulheres... futebol, mulheres... futebol, mulheres, e o que mais coçasse a língua.
Lá pelas tantas, quando o fim de tarde já é noite, Caubi, colocando a mão ao lado da boca, indaga cochichando:
- Haroldo, você sabe o que aconteceu com os 6 anões de Branca de Neve???
- Eram 7 anões, não 6!!! Responde Haroldo, achando que o erro matemático era fruto de confusão alcoólica
- Eram 7, mas são 6!!! Retifica Caubi.
- Como assim???
- Deixa eu explicar: O Mestre, caiu fora do grupo!!! Como ninguém mais gosta de velho sábio, ficou fora de moda e caro, (muito caro!!!), contrato antigo, desde 1937... foi obrigado a aceitar a proposta de demissão voluntária. Você acha que os Disney são bonzinhos??? O Soneca, foi diagnosticado com depressão crônica, tá internado. O Dengoso, se assumiu Gay!!! Com aquele dengo todo... era uma “boneca”!!! O Atchim (A TiM), acho que foi trabalhar com telefonia, mas quando atende o telefone mais espirra do que fala... Hahhaahhahahhaha  O Feliz, foi descoberto, é usuário de drogas pesadas!!! Também pra ficar feliz o tempo todo... Ah!!! E por que 6??? Porque no Brasil, a gente descobriu, que na vida real o Dunga... é o Zangado!!!
Os dois caem na gargalhada e Haroldo quase engasga com o gole de cerveja.
De trás do balcão, Postiga observa mal humorado, achando que a conversa é sobre ele.
- E que fim teve a Branca de Neve??? pergunta Haroldo.
- Olha, não tenho certeza, mas dizem que... Caubi para e suspira.
- Dizem o que, Caubi???
- Calma rapaz, você tem que aprender a respeitar a pausa dramática... O suspense ajuda a valorizar a história.
Voltam as gargalhadas.
- Dizem Haroldo, que a Branca de Neve fez operação de mudança de sexo, bronzeamento artificial, malhou muito e... virou o Negão, chefe do tráfico de cocaína no morro. E dizem ainda que ela fornece a Branquinha pra toda Hollywood!!!
A onda de gargalhadas soa mais avassaladora ainda, até quem passa na rua para pra olhar.
Notando a atenção dos transeuntes, Haroldo, em uma pequeno momento de vaidade, tira os óculos e guarda no bolso. E interrompendo o riso pergunta:
- Caubi... (com pausa dramática) e tem morro em Hollywood???
- Claro que tem, Haroldo!!! Não tem aquele morro escrito Ho-ly-wu-di??? Responde Caubi, acompanhando a fala com um movimento horizontal do dedo.
- É verdade!!! Tem razão nobre companheiro!!!
Bebem mais um pouco e respiram fundo, tentando voltar à pulsação normal entre as risadas intermitentes.
Pedem mais uma “saideira” para o emburrado português e brindam:
- Que nossas mulheres nunca fiquem viúvas!!!

terça-feira, 9 de julho de 2013

Luriana

Quando Luriana tinha três anos, seu pai saiu para comprar pão e nunca mais voltou.
Luriana, ou Lulu, como todos a chamavam, agora tem cinco anos, mas com tamanho de quatro. Frequenta precocemente o primeiro ano do ensino fundamental e mora com sua mãe em um pequeno apartamento quarto e sala, no quarto andar de um prédio sem elevador.
Léa, a mãe de Lulu, é enfermeira e tem dois empregos, um no hospital e outro em uma clínica particular, anda sempre estressada e desde o sumiço do pai, arca com todas as despesas, suas e da filha. Às 6:30h da manhã, coloca Luriana no carro, um Uno Mille 1999, modelo antigo, e a leva pra escola, rumando depois direto para o hospital.
Às 12:00h sai correndo no sentido inverso. Lulu é sempre a última aluna a ser “resgatada”  na Escola de Ensino Fundamental Aconchego.
Após um almoço corrido, Léa beija a filha, recomenda, como sempre, que ela não abra a porta pra ninguém e volta ao trabalho.  A pequena fica só, não pela vontade materna, mas pela falta de verba disponível.
Lulu divide suas tardes entre as tarefas da escola, brincar no computador da mãe e a televisão. Uma repetição tediosa e solitária.
Certa vez assistiu a um filme em que a companhia de um cachorro mudava a vida de um menino, acabava com sua solidão e se tornavam amigos inseparáveis. Depois disso, Lulu chegou a conclusão que um animal de estimação seria a solução de seus problemas. Atazanou o juízo de sua mãe, que tinha todos os motivos para não querer um bicho em casa, até que seu tio materno e padrinho abraçou a sua causa.
No almoço de domingo, César Augusto, seu tio, apareceu, como sempre, sem avisar, mas desta vez trazendo uma surpresa: um gatinho listrado, meio maltratado, magro, sem raça específica, ou seja; achado na rua.
- Lulu, minha querida, esse é o Brédi Piti e vai lhe fazer muito feliz!!! Não liga pra aparência dele, com um “trato” ele vai ficar lindo!!! Disse seu tio.
Lulu adorou a novidade, mas sua mãe...
Com muito custo e promessas de que ela cuidaria do bichano, limparia todas as suas necessidades e mais a ajuda da “lábia” do tio, sua mãe acabou cedendo.
Pronto, agora ela tinha um companheiro!!!
Na hora de ir embora, César ainda cochichou no ouvido de Luriana: - Lulu, esse gato é mágico, se tiver algo que você realmente queira, ele vai te ajudar a realizar, ”viu”???
Lulu feliz, abraçou seu tio e agradeceu.
Nos meses seguintes, Lulu e Brédi se tornaram tudo que o filme mostrou e mais um pouco. Acordavam, comiam, dormiam, e passavam todo o tempo juntos, só não iam juntos para a escola. Brédi cresceu, engordou, virou um gato bonito, bem cuidado, limpinho com os banhos semanais, não fazia sujeira fora de sua caixinha de areia e só levava bronca quando afiava as unhas no sofá.
Mas com o tempo, Brédi, começou a apresentar um comportamento estranho e desagradável, fugia sempre que podia, fazia xixi no apartamento dos vizinhos, miava forte, de maneira estranha, por longos períodos. Melhorava, mas ciclicamente o comportamento voltava.
Léa não aguentava mais a reclamação dos outros condôminos, só não jogou o gato fora, pelos pedidos chorosos da filha e ainda gastou dinheiro mandando consertar os buracos na tela de proteção do apartamento, para evitar as fugas do bichano.  As brigas ao celular com seu irmão, por motivo óbvio, se tornaram bastante frequentes.
Lulu começou a se sentir cada vez mais incomodada com o comportamento de seu gato, principalmente por que ele não parecia ser mais feliz morando com ela.
Certa vez, ela ouviu a senhora do apartamento 404 dizer que Brédi estava no cio, Luriana mora no 403. Lulu perguntou a sua mãe o que era cio, e ela respondeu que o gato precisava de uma namorada. O mundo de Lulu, onde ela e Brédi se completavam e não precisavam de mais ninguém, começou a ruir, lembrou então do que disse o tio e desejou que Brédi voltasse a ser aquele gato só seu...
Mas não funcionou!!!
Sua mãe marcou a cirurgia de castração e tentou explicar a fillha que era a única saída viável. Apesar de querer muito ficar com o gato, Lulu começou a se questionar se aquilo era realmente justo, Brédi não poderia ter filhotes, nem uma família, ela estaria impedindo seu gato de ser um bom pai... Será que não era muito egoísmo de sua parte???
Na véspera da castração, durante a aula, a professora de Luriana disse aos alunos que nunca fizessem aos outros o que não quisessem para si mesmos e que deveriam sempre respeitar a liberdade de cada um. Lulu foi para casa com aquelas palavras ressoando em sua mente.
Após o almoço, sua mãe como sempre saiu para o trabalho.
Lulu, sentou no sofá, em silêncio, com Brédi Piti em seu colo e enquanto acariciava seu gato, seus olhos encheram de lágrimas. Ela já tinha decidido o que fazer...
Mas como fazer???
Não podia deixá-lo simplesmente sair pela porta, só criaria confusão com os vizinhos, e como levá-lo para longe do prédio se ela nem ao menos podia sair de casa???
Pensou, até encontrar nas palavras do tio sua única saída. Sendo por uma causa nobre acreditou, que agora o desejo se realizaria.
Pegou a tesoura da cozinha e abriu um buraco na tela de proteção da pequena varanda da sala, abraçou o gato e desejou de coração que ele fosse feliz e voasse para a sua liberdade, por via das dúvidas, repetiu três vezes o desejo!!!
Despediu-se dele com um beijo... E o lançou pela fresta da tela.
E Brédi voou!!!  Voou por 2,7 segundos...!!!

PS: Levemente inspirado em fatos reais.

sábado, 8 de junho de 2013

A Fronteira Final

- A energia dos phasers está no fim!!! Grito para Spock, mas vejo que ele e Uhura já estão no GMMA* com três enormes Klingons.
Acerto outro inimigo e é o final da carga de meu phaser!!!
- Cuidado Capitão!!! Grita Sulu. Quando me viro, é tarde, o Klingon já estava disparando a arma na minha direção. De repente, Sulu se interpõe à rajada certeira e é alvejado em meu lugar.
O Klingon olha pra mim com um sorriso irônico e prepara o tiro derradeiro.
Aparecendo não sei de onde, Tchecov acerta a cabeça do invasor com um pedaço de metal.
- Morra, “miserrável”!!! Amaldiçoa o navegador russo.
- Sulu!!! Você está bem??? Apoio a cabeça dele em meu braço e chamo a enfermaria no comunicador: - Magro, emergência!!! Oficial ferido na ponte de comando!!!
O Dr McCoy responde: -São muitos feridos aqui também!!!
- Magro, preciso de você aqui, agora!!!
- Mas capitão...
- É uma ordem!!!
Sulu segura minha mão, olha para mim e diz: - Preciso lhe contar uma coisa...
- Calma, deixa pra depois...respire...
- Não, eu preciso contar agora...talvez seja a última chance...
- Diga Sulu...
- Capitão... Eu sou gay!!!*
A revelação não era assim tão secreta, eu já desconfiava, ele sempre foi de uma discriçåo excessiva,  muito reservado, mas fico meio sem saber o que dizer.
A voz de Tchecov quebra o silêncio:
- Invasão “contrrolada”!!! Os Klingons se “renderram”!!!
Gritos de comemoração soam pela nave!!!
Nessa momento McCoy chega com sua maleta médica e pede espaço junto ao ferido.
Ao levantar, noto que após derrubar o trio Klingon, Spock e Uhura estão abraçados ou é ela quem o abraça e ele se deixa abraçar.
Tento caminhar e sinto uma dor muito forte na coxa da perna direita, perto da junção da bacia com o fêmur, foi um ferimento causado pela adaga da embaixatriz Romulaniana.
Ela pediu abrigo à Enterprise, se dizendo perseguida pelos Klingons, na verdade era um plano conjunto de invasão para a libertação do líder Klingon, que transportávamos para julgamento na Corte Planetária.
Scott conseguiu alterar as coordenadas de fuga do teletransporte da embaixatriz para algum lugar desconhecido no espaço sideral.
Sento na cadeira de comando tentando abstrair a forte dor.
O frio cortante dentro da nave revela que há um rompimento no casco.
- Tchecov, relatório de avarias da nave!!!
- Sim capitão!!!
Olho para Sulu e penso: “Fique bem, velho amigo!!! Obrigado, você salvou a minha vida!!!”  Espero que ele sobreviva...
Spock se aproxima:
- Você precisa de cuidados médicos.
- Depois, Spock, agora eu preciso é...
Sinto a mão do Vulcano pressionar meu ombro e ainda ouço sua voz antes de perder os sentidos:
- É para o seu bem capitão...

SP 5:30 AM
Acordo do sonho estelar com a mão de minha filha mais velha sobre o meu ombro:
- Pai, você precisa dormir na cama...
Tinha adormecido sentado na sala, tentando achar uma posição suportável para a dor de uma crise nevrálgica no ciático, que se concentra principalmente na coxa, na altura da junção da bacia com o fêmur e depois irradia por toda a perna direita.
Apoiado em minha filha, vou para o quarto.
É uma manhã fria e chuvosa na capital Paulistana.

GMMA*: Galaxial Mixed Martial Arts
- Capitão...eu sou gay!!!* : em 2005, George Takei, que interpretou Hikari Sulu na série clássica, assumiu sua homossexualidade.