segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Felicidade

Felicidade nasceu no interior da Bahia, naquele vale, onde o ouro fez uma cidade,
Mas com o tempo o ouro acabou, a cidade definhou e muita gente foi embora.
A família aristocrata de Felicidade, ou Lis, como preferia ser chamada, tentou resistir a decadência e lá permaneceu.
O seu pai foi prefeito da cidade em diversas ocasiões.
Filha caçula, única menina e temporã, Lis cresceu entre árvores, o futebol dos meninos, plantações, o trilho do trem e a excessiva proteção familiar.  Pequena no tamanho, tinha bateria de carga dupla e uma vontade imensa de saber das coisas. Dizem que gostava mais das árvores e animais do que de gente. Vivia abraçada ao seu Gonçalo Alves, sua árvore predileta.
Seu único grande amigo era Emílio, com seus cabelos vermelhos cor de milho, ou “É mio” como o chamava Lis. Da caminhada matutina para a escola, até a hora do recolher, ao cair da tarde, os dois eram inseparáveis. Emílio era o filho mais velho do Seu Manuel Lisboa, dono da mercearia da cidade. A famílias de Lis e Emílio, por razões diversas, não eram muito a favor dessa convivência assídua.
Certa vez um irmão de Felicidade tentou intimidar Emílio tentando convencê-lo a ficar longe de sua irmã. No primeiro empurrão que ele deu no menino, Lis pulou nas costas de seu irmão, deu tantos cascudos e puxou seu cabelo tão forte, que sobraram os tufos nas suas mãos. Ela e seu irmão ficaram semanas sem se falar.
Lis fugia sorrateiramente de sua casa para brincar, driblando a vigilância familiar e as tábuas rangentes de madeiras nobres, que cobriam o assoalho do casarão colonial da família Braga.
Roupa de menina só na missa de domingo pra não fazer desgosto a mãe.
Pouco antes da época do colégio, por decisão familiar, preocupados com os seus modos pouco femininos, resolveram mandar Lis para Salvador, a capital, estudar em um internato de freiras. Ela protestou o quanto pode, passou dois dias sem querer descer do Gonçalo Alves, mas de nada adiantou.
Na véspera de sua partida, na volta do jogo de futebol, Emílio a abraçou forte, sem querer soltar, mas tomou um senhor empurrão de Lis e caiu de bunda no chão.
-“É mio”, tá querendo me sufocar, é??? Eu só vou viajar, não vou morrer não, viu???!!!
Deu as costas para seu amigo e foi para casa, disfarçando as lágrimas, que teimavam em rolar pela sua face, ruborizada com o abraço inesperado. Um turbilhão descontrolado de emoções percorriam o seu ser.
E foi no trem que Lis foi embora. Emílio acompanhou a partida de sua Felicidade, correndo ao lado do trem enquanto aguentou. Ela acenava pela janela gritando:
- Eu vou voltar “É mio”!!! Eu vou voltar!!!
Engoliu o choro que transbordava de seus olhos, para não ter uma atitude de “menininha” na frente da mãe, que a acompanhava.

Durante alguns anos Emílio pouco viu Lis. Ela só voltava para a cidade em datas especiais, ficava pouquíssimo tempo e muito bem vigiada pelos irmãos. Emílio rodeava a casa e subia em árvores próximas, só pra ter a chance de vê-la passando rapidamente por uma janela ou de ganhar um raro aceno.
Um dia, véspera de Natal, subindo no Gonçalo Alves de Lis, encontrou uma carta.
“Querido Emílio,
Como vai você? Espero que bem.
Gostaria muito de poder te encontrar e contar as novidades pessoalmente.
Consegui ir além da rejeição inicial que sentia e tenho gostado bastante das coisas que aprendo no internato. As aulas de literatura, biologia e línguas são as minhas preferidas.
Adoro também quando montamos as peças de teatro, mesmo que quase sempre, os temas sejam religiosos. Tem algumas freiras que são mais liberais e incentivam nossa criatividade. E é claro que as aulas de religião são um “saco”.
Fiz uma amiga, Amanda, ela é muito legal, temos gostos semelhantes, ela é mais tímida, mas adora as coisas que eu invento. As outras meninas são riquinhas enjoadas do “nariz empinado”.
Claro que sinto muita saudade de você e de nossas brincadeiras, mas sei que de alguma maneira o que aprendo no internato será útil no futuro.
Lembre-se, na minha ausência você é o guardião. Não deixe os “malas” invadirem nosso território.
Cuide bem de nossos esconderijos, nossas árvores, insetos, pássaros, peixes, da vaca Mimosa, nossas nuvens e nossos segredos. E cuide-se também.
Ah!!! Eu te perdôo pelo abraço. Desculpe o empurrão.
Sua sempre amiga,
Lis.”
Junto, encontrou um pequeno embrulho escrito “Feliz Natal”, dentro um potinho com balas de jenipapo, feitas por Rosenita, a cozinheira da casa de Lis. Emílio adorava essas balas. Pensou em guardá-las para sempre, mas não resistiu e comeu todas de uma vez.  Decidiu que guardá-las na memória era bem melhor

Quase dez anos depois, Emílio e sua esposa Geisa, cuidavam da Mercearia Lisboa, eles tinham uma menina, que acabara de completar um ano. Geisa, era de fora e tinha vindo morar na cidade para o casamento, arranjado pelas famílias. Por muito tempo, a lembrança de Felicidade, permanecera viva demais na memória de Emílio, foi muito difícil convencê-lo a casar com outra mulher.
Entre clientes que entravam e saíam do estabelecimento, Geisa, que arrumava as gôndolas, vem falar com o marido no caixa:
 -Tem uma moça na porta querendo falar com você.
- Quem é???
- Sei não...
Emílio se dirige à entrada do estabelecimento.
- Pois não, posso ajudá-la???
A mulher de cabelos castanhos, presos com uma caneta, 1,67m de altura, camiseta branca de alcinhas, bermuda cargo e tênis All Star sem meias, tira os óculos escuros e cumprimenta:
- Oi Emílio...
A voz soa familiar, ele toma um susto e seu coração dispara.
- Lis... Você é Lis!!!
- Sou eu sim!!!  Diz mostrando uma cicatriz na perna, adquirida nos tempos de “Batman e Robin” (Claro que Lis era “Batman”). - Como vai você??? Diz ela em um tom saudoso, muito carinhoso.
Com o coração saindo pela boca, ele responde.
- Eu...eu “tô” bem!!! Olha pra sua mulher, que mesmo sem chegar perto, não desgrudava o olhar deles, e diz: - Nós “tamo” bem!!!
- Que bom!!! É sua esposa???
- É...
- Me apresenta!!!
Meio tímido, ele caminha na direção de Geisa.
- Mulher, essa é Lis.
- A famosa Lis...responde Geisa.
- Famosa??? Indaga Felicidade.
- É por muito tempo ele só falava em você. Era Lis pra cá, Lis pra lá... Ultimamente até tinha dado uma sossegada.
Havia uma certo despeito na fala de Geisa, mas a revelação deixara Emílio todo sem jeito
- E você é???
- Geisa, Geisa Lisboa!!! O sobrenome fora dito como forma de marcar território.
- Muito prazer Geisa!!! Responde amávelmente Lis.
Quebrando o silêncio que veio a seguir, ela comenta:
- Vocês deram uma modernizada aqui, no armazém, ficou bacana!!!
- É, a gente vai dando um jeitinho aos poucos. Responde Emílio.
- Fiquei sabendo de seu pai. Sinto muito...  Diz Lis se referindo a morte de Seu Manuel, que ocorrera a cerca de dois anos.
- Obrigado...
Vendo que Geisa não se sentia confortável com sua presença, Lis se despede:
- Bom, eu já vou indo... Bom te conhecer Geisa.
Emílio acompanha Lis até a calçada na entrada do armazém.
- Você faz o que Lis???
- Faz como???
- De trabalho???
- Eu trabalho em uma ONG, um centro de reeducacão ambiental, sou Bióloga Ecologista...
- Ecologista???
- É, ajudo a preservar o meio ambiente,  para que as coisas que a gente tanto gosta não desapareçam.
- Eu sei o que é...legal!!! Diz Emílio sorrindo.
- Pensando bem, tem tudo a ver com você Lis. Ah!!! Seu Gonçalo Alves continua firme e forte!!!
- Com certeza!!! Esse vai viver muito mais que a gente.
Um Jeep sem capota, daqueles antigos, conduzido por uma motorista, estaciona na frente deles.
- Bom, você se cuida, viu??? Diz Lis abraçando Emílio com força e emenda:
- E não me empurra não!!!
Os dois caem na gargalhada.
Lis se despede e sobe no carro.
- Você sabe que minha filha também se chama Lis??? Revela Emílio.
Por alguns instantes Lis fica muda, em um ímpeto desce do Jeep e abraça de novo seu velho amigo.
- Obrigada!!! Cohicha, entre as lágrimas que não conseguia conter. - Você vai morar sempre no meu coração... Vai ser sempre meu “É mio”!!!
Enxuga as lágrimas no avental de Emílio e sobe de novo no carro.
- Ah!!! Essa é Amanda. Diz apresentando a motorista, que acena. - Aquela mesma das freiras, lembra??? Reencontrei ela a uns dois anos... É minha namorada. Se cuida, “viu”??? Beijos.
O carro vai embora deixando um Emílio boquiaberto para trás.
Geisa se aproxima resmungando:
- Precisava ter abraçado??? E duas vezes ainda...
Emílio prefere nem responder.
Assim era Felicidade, ou Lis, diferente, sempre surpreendente.
Essa foi a última vez que os dois se encontraram.