sexta-feira, 1 de novembro de 2013

No Bar do Portuga

A parede do bar ostenta uma placa com a frase: ”Aqui se reúnem políticos, pescadores, publicitários e outros mentirosos.”
Caubi e Haroldo, companheiros de copo de longa data, bebem sua habitual cervejinha de final de tarde no Boteco do Postiga, ou Bar do Portuga, como é mais conhecido. O Postiga é um português meio mal humorado, meio “Seu Lunga”, que vindo de sua terra natal, se estabeleceu no bairro de Itapuã, em Salvador, perto da colônia de pescadores, há mais de 30 anos.
Entre uma “saideira” e outra, os 2 amigos conversam sobre a conjuntura politica nacional e mundial, fotografia, filmes, livros, artes em geral, futebol, mulheres... futebol, mulheres... futebol, mulheres, e o que mais coçasse a língua.
Lá pelas tantas, quando o fim de tarde já é noite, Caubi, colocando a mão ao lado da boca, indaga cochichando:
- Haroldo, você sabe o que aconteceu com os 6 anões de Branca de Neve???
- Eram 7 anões, não 6!!! Responde Haroldo, achando que o erro matemático era fruto de confusão alcoólica
- Eram 7, mas são 6!!! Retifica Caubi.
- Como assim???
- Deixa eu explicar: O Mestre, caiu fora do grupo!!! Como ninguém mais gosta de velho sábio, ficou fora de moda e caro, (muito caro!!!), contrato antigo, desde 1937... foi obrigado a aceitar a proposta de demissão voluntária. Você acha que os Disney são bonzinhos??? O Soneca, foi diagnosticado com depressão crônica, tá internado. O Dengoso, se assumiu Gay!!! Com aquele dengo todo... era uma “boneca”!!! O Atchim (A TiM), acho que foi trabalhar com telefonia, mas quando atende o telefone mais espirra do que fala... Hahhaahhahahhaha  O Feliz, foi descoberto, é usuário de drogas pesadas!!! Também pra ficar feliz o tempo todo... Ah!!! E por que 6??? Porque no Brasil, a gente descobriu, que na vida real o Dunga... é o Zangado!!!
Os dois caem na gargalhada e Haroldo quase engasga com o gole de cerveja.
De trás do balcão, Postiga observa mal humorado, achando que a conversa é sobre ele.
- E que fim teve a Branca de Neve??? pergunta Haroldo.
- Olha, não tenho certeza, mas dizem que... Caubi para e suspira.
- Dizem o que, Caubi???
- Calma rapaz, você tem que aprender a respeitar a pausa dramática... O suspense ajuda a valorizar a história.
Voltam as gargalhadas.
- Dizem Haroldo, que a Branca de Neve fez operação de mudança de sexo, bronzeamento artificial, malhou muito e... virou o Negão, chefe do tráfico de cocaína no morro. E dizem ainda que ela fornece a Branquinha pra toda Hollywood!!!
A onda de gargalhadas soa mais avassaladora ainda, até quem passa na rua para pra olhar.
Notando a atenção dos transeuntes, Haroldo, em uma pequeno momento de vaidade, tira os óculos e guarda no bolso. E interrompendo o riso pergunta:
- Caubi... (com pausa dramática) e tem morro em Hollywood???
- Claro que tem, Haroldo!!! Não tem aquele morro escrito Ho-ly-wu-di??? Responde Caubi, acompanhando a fala com um movimento horizontal do dedo.
- É verdade!!! Tem razão nobre companheiro!!!
Bebem mais um pouco e respiram fundo, tentando voltar à pulsação normal entre as risadas intermitentes.
Pedem mais uma “saideira” para o emburrado português e brindam:
- Que nossas mulheres nunca fiquem viúvas!!!

terça-feira, 9 de julho de 2013

Luriana

Quando Luriana tinha três anos, seu pai saiu para comprar pão e nunca mais voltou.
Luriana, ou Lulu, como todos a chamavam, agora tem cinco anos, mas com tamanho de quatro. Frequenta precocemente o primeiro ano do ensino fundamental e mora com sua mãe em um pequeno apartamento quarto e sala, no quarto andar de um prédio sem elevador.
Léa, a mãe de Lulu, é enfermeira e tem dois empregos, um no hospital e outro em uma clínica particular, anda sempre estressada e desde o sumiço do pai, arca com todas as despesas, suas e da filha. Às 6:30h da manhã, coloca Luriana no carro, um Uno Mille 1999, modelo antigo, e a leva pra escola, rumando depois direto para o hospital.
Às 12:00h sai correndo no sentido inverso. Lulu é sempre a última aluna a ser “resgatada”  na Escola de Ensino Fundamental Aconchego.
Após um almoço corrido, Léa beija a filha, recomenda, como sempre, que ela não abra a porta pra ninguém e volta ao trabalho.  A pequena fica só, não pela vontade materna, mas pela falta de verba disponível.
Lulu divide suas tardes entre as tarefas da escola, brincar no computador da mãe e a televisão. Uma repetição tediosa e solitária.
Certa vez assistiu a um filme em que a companhia de um cachorro mudava a vida de um menino, acabava com sua solidão e se tornavam amigos inseparáveis. Depois disso, Lulu chegou a conclusão que um animal de estimação seria a solução de seus problemas. Atazanou o juízo de sua mãe, que tinha todos os motivos para não querer um bicho em casa, até que seu tio materno e padrinho abraçou a sua causa.
No almoço de domingo, César Augusto, seu tio, apareceu, como sempre, sem avisar, mas desta vez trazendo uma surpresa: um gatinho listrado, meio maltratado, magro, sem raça específica, ou seja; achado na rua.
- Lulu, minha querida, esse é o Brédi Piti e vai lhe fazer muito feliz!!! Não liga pra aparência dele, com um “trato” ele vai ficar lindo!!! Disse seu tio.
Lulu adorou a novidade, mas sua mãe...
Com muito custo e promessas de que ela cuidaria do bichano, limparia todas as suas necessidades e mais a ajuda da “lábia” do tio, sua mãe acabou cedendo.
Pronto, agora ela tinha um companheiro!!!
Na hora de ir embora, César ainda cochichou no ouvido de Luriana: - Lulu, esse gato é mágico, se tiver algo que você realmente queira, ele vai te ajudar a realizar, ”viu”???
Lulu feliz, abraçou seu tio e agradeceu.
Nos meses seguintes, Lulu e Brédi se tornaram tudo que o filme mostrou e mais um pouco. Acordavam, comiam, dormiam, e passavam todo o tempo juntos, só não iam juntos para a escola. Brédi cresceu, engordou, virou um gato bonito, bem cuidado, limpinho com os banhos semanais, não fazia sujeira fora de sua caixinha de areia e só levava bronca quando afiava as unhas no sofá.
Mas com o tempo, Brédi, começou a apresentar um comportamento estranho e desagradável, fugia sempre que podia, fazia xixi no apartamento dos vizinhos, miava forte, de maneira estranha, por longos períodos. Melhorava, mas ciclicamente o comportamento voltava.
Léa não aguentava mais a reclamação dos outros condôminos, só não jogou o gato fora, pelos pedidos chorosos da filha e ainda gastou dinheiro mandando consertar os buracos na tela de proteção do apartamento, para evitar as fugas do bichano.  As brigas ao celular com seu irmão, por motivo óbvio, se tornaram bastante frequentes.
Lulu começou a se sentir cada vez mais incomodada com o comportamento de seu gato, principalmente por que ele não parecia ser mais feliz morando com ela.
Certa vez, ela ouviu a senhora do apartamento 404 dizer que Brédi estava no cio, Luriana mora no 403. Lulu perguntou a sua mãe o que era cio, e ela respondeu que o gato precisava de uma namorada. O mundo de Lulu, onde ela e Brédi se completavam e não precisavam de mais ninguém, começou a ruir, lembrou então do que disse o tio e desejou que Brédi voltasse a ser aquele gato só seu...
Mas não funcionou!!!
Sua mãe marcou a cirurgia de castração e tentou explicar a fillha que era a única saída viável. Apesar de querer muito ficar com o gato, Lulu começou a se questionar se aquilo era realmente justo, Brédi não poderia ter filhotes, nem uma família, ela estaria impedindo seu gato de ser um bom pai... Será que não era muito egoísmo de sua parte???
Na véspera da castração, durante a aula, a professora de Luriana disse aos alunos que nunca fizessem aos outros o que não quisessem para si mesmos e que deveriam sempre respeitar a liberdade de cada um. Lulu foi para casa com aquelas palavras ressoando em sua mente.
Após o almoço, sua mãe como sempre saiu para o trabalho.
Lulu, sentou no sofá, em silêncio, com Brédi Piti em seu colo e enquanto acariciava seu gato, seus olhos encheram de lágrimas. Ela já tinha decidido o que fazer...
Mas como fazer???
Não podia deixá-lo simplesmente sair pela porta, só criaria confusão com os vizinhos, e como levá-lo para longe do prédio se ela nem ao menos podia sair de casa???
Pensou, até encontrar nas palavras do tio sua única saída. Sendo por uma causa nobre acreditou, que agora o desejo se realizaria.
Pegou a tesoura da cozinha e abriu um buraco na tela de proteção da pequena varanda da sala, abraçou o gato e desejou de coração que ele fosse feliz e voasse para a sua liberdade, por via das dúvidas, repetiu três vezes o desejo!!!
Despediu-se dele com um beijo... E o lançou pela fresta da tela.
E Brédi voou!!!  Voou por 2,7 segundos...!!!

PS: Levemente inspirado em fatos reais.

sábado, 8 de junho de 2013

A Fronteira Final

- A energia dos phasers está no fim!!! Grito para Spock, mas vejo que ele e Uhura já estão no GMMA* com três enormes Klingons.
Acerto outro inimigo e é o final da carga de meu phaser!!!
- Cuidado Capitão!!! Grita Sulu. Quando me viro, é tarde, o Klingon já estava disparando a arma na minha direção. De repente, Sulu se interpõe à rajada certeira e é alvejado em meu lugar.
O Klingon olha pra mim com um sorriso irônico e prepara o tiro derradeiro.
Aparecendo não sei de onde, Tchecov acerta a cabeça do invasor com um pedaço de metal.
- Morra, “miserrável”!!! Amaldiçoa o navegador russo.
- Sulu!!! Você está bem??? Apoio a cabeça dele em meu braço e chamo a enfermaria no comunicador: - Magro, emergência!!! Oficial ferido na ponte de comando!!!
O Dr McCoy responde: -São muitos feridos aqui também!!!
- Magro, preciso de você aqui, agora!!!
- Mas capitão...
- É uma ordem!!!
Sulu segura minha mão, olha para mim e diz: - Preciso lhe contar uma coisa...
- Calma, deixa pra depois...respire...
- Não, eu preciso contar agora...talvez seja a última chance...
- Diga Sulu...
- Capitão... Eu sou gay!!!*
A revelação não era assim tão secreta, eu já desconfiava, ele sempre foi de uma discriçåo excessiva,  muito reservado, mas fico meio sem saber o que dizer.
A voz de Tchecov quebra o silêncio:
- Invasão “contrrolada”!!! Os Klingons se “renderram”!!!
Gritos de comemoração soam pela nave!!!
Nessa momento McCoy chega com sua maleta médica e pede espaço junto ao ferido.
Ao levantar, noto que após derrubar o trio Klingon, Spock e Uhura estão abraçados ou é ela quem o abraça e ele se deixa abraçar.
Tento caminhar e sinto uma dor muito forte na coxa da perna direita, perto da junção da bacia com o fêmur, foi um ferimento causado pela adaga da embaixatriz Romulaniana.
Ela pediu abrigo à Enterprise, se dizendo perseguida pelos Klingons, na verdade era um plano conjunto de invasão para a libertação do líder Klingon, que transportávamos para julgamento na Corte Planetária.
Scott conseguiu alterar as coordenadas de fuga do teletransporte da embaixatriz para algum lugar desconhecido no espaço sideral.
Sento na cadeira de comando tentando abstrair a forte dor.
O frio cortante dentro da nave revela que há um rompimento no casco.
- Tchecov, relatório de avarias da nave!!!
- Sim capitão!!!
Olho para Sulu e penso: “Fique bem, velho amigo!!! Obrigado, você salvou a minha vida!!!”  Espero que ele sobreviva...
Spock se aproxima:
- Você precisa de cuidados médicos.
- Depois, Spock, agora eu preciso é...
Sinto a mão do Vulcano pressionar meu ombro e ainda ouço sua voz antes de perder os sentidos:
- É para o seu bem capitão...

SP 5:30 AM
Acordo do sonho estelar com a mão de minha filha mais velha sobre o meu ombro:
- Pai, você precisa dormir na cama...
Tinha adormecido sentado na sala, tentando achar uma posição suportável para a dor de uma crise nevrálgica no ciático, que se concentra principalmente na coxa, na altura da junção da bacia com o fêmur e depois irradia por toda a perna direita.
Apoiado em minha filha, vou para o quarto.
É uma manhã fria e chuvosa na capital Paulistana.

GMMA*: Galaxial Mixed Martial Arts
- Capitão...eu sou gay!!!* : em 2005, George Takei, que interpretou Hikari Sulu na série clássica, assumiu sua homossexualidade.

terça-feira, 26 de março de 2013

Delgado


Quando minha filha me perguntou, em um churrasco entre amigos, o que era  “Ironia", eu respondi: - Ironia, é o nome dele ser Delgado.  Indicando nosso anfitrião, que, com sua silhueta de “Carnivurus Cervejeirus”, meio “barrilzinho”, nada tinha de delgado. Risos generalizados, principalmente do próprio, sempre muito bem humorado.
Algum tempo depois, no aniversário de sua esposa, um Delgado já alegre, depois de muitas cervejas, reservou uma surpresa para mim. 
- Ah, você precisa ver isso!!! Disse entregando-me um antigo álbum de fotos, provavelmente com algumas décadas de existência.
As fotos de um colorido desbotado, revelavam um ágil bailarino em apresentações.
- Delgado,  quem é esse???
- Esse??? Esse sou eu!!! Ou pelo menos costumava  ser...
- Vo...vo...você foi bailarino??? Perguntei não acreditando no que eu via.
- E dos bons!!! Cheguei até a dar aulas!!! Disse animado.
Olhando atentamente, tirando uns 40 kg e os cabelos grisalhos, Delgado, tinha traços em comum com aquele bailarino, esguio, saltitante e... delicado.
- Mas você era...
- Del-ga-do!!!
- É, realmente!!! Mas você parecia tão...
- Tão???
- Tão, como diria... "gracioso"!!!
- Também!!! Eu fazia bem todas as posições, sabia??? Hahahhahha!!! Essas fotos foram de um Festival de Ballet no sul, em Joinville. Ah, e essa aí, com a medalha e as flores, eu ganhei o prêmio de "Bailarino Revelação"!!!
Como ele sempre brincava fazendo piada de si mesmo, não sabia o quanto de verdade tinha em suas afirmações regadas a álcool. Entretanto, o bailarino das fotos tinha uma postura e um olhar muito fortes, mas não de uma força masculina. Será que ele realmente era??? Era ou é???!!!
Fiquei, momentaneamente, sem ação e sem palavras...
Era simplesmente inacreditável, que aquelas duas figuras tão contrastantemente antagônicas, fossem a mesma pessoa!
- E por que você parou Delgado???
- Tive uma lesão no joelho e não pude continuar.
- Que pena!!!
- Aí não teve  jeito e resolvi seguir minha outra paixão.
- Sua mulher???
- Não, a fotografia!!!! Hahhahahhahaa!!! A mulher eu conheci tempos depois. Ela fez a produção de alguns trabalhos fotográficos para mim e acabamos nos apaixonando.
Delgado é fotógrafo, casado, pai de família, com dois filhos homens. Como suspeitar que ele tivesse tido um passado de “Princesa do Ballet"???
Fechei o álbum e comentei:
- Inacreditável Delgado!!! Inacreditável e insuspeitável! Se me contassem eu não acreditaria!!!
Delgado subiu em uma cadeira e guardou o álbum em uma prateleira alta. Com certeza, não era algo que ele mostrava para todos. Mas, por que ele resolveu revelar seu segredo para mim???
Nada contra a opção sexual de cada um, mas a surpresa tinha sido muito grande.
Será que ele realmente tinha mudado ou só escondeu seu passado em um lugar fora do nosso alcance??? E como alguém muda assim???
Olhando para mim, com a pergunta explícita escrita na minha testa, desdenhou:
- "Ser ou não ser, eis a questão"!!! E caiu novamente na risada!!!
Sua esposa veio nos chamar e eu não pude deixar de reparar em suas mãos grandes, com os dedos longos e roliços. Fomos nos juntar aos outros para cantar os parabéns.
Delgado nem sempre foi uma ironia, mas sim uma fantasia.

PS: Baseado em fatos e fotos reais.

   Quando perguntei a minha filha se sabia o que era delgado, ouvi essa resposta: "Claro, delgado é nome de intestino!!!"