sábado, 25 de junho de 2022

Get Away Stink!!! The Fight Between Nose and Toes

  “Madam Head, Madam Head,” called the always talkative Miss Mouthy.  “We have a big problem, and you need to find a solution!”
“What happened, Miss Mouthy?” responded Madam Head patiently, who always had to find a solution for each big problem.
“It is Nase, I mean Mr. Nose, he got into a fight with Mr. Fivetoes!”
“With the right or the left one?”
“With both of them, Madam Head!”
“How come, with both of them? What was it about?”
“Nase said that he could not stand the stink of Mr. Fivetoes anymore. Then Mr. Fivetoes got offended and said that he would not take Mr. Nose anywhere anymore. But if he doesn’t take Mr. Nose… we can’t go anywhere either!”
“True, Miss Mouthy. This is a BIG problem!”
“And you need to find a solution!”
After Miss Mouthy’s report, Madam Head started to think about how to solve the issue. First of all, she talked to Mr. Ear, who always listens to you. After explaining the situation, she asked him, “So, Mr. Ear, what do you think we can do?”
“Hummmmm.”
“So, Mr. Ear?”
“Hummmm... See, I hear and understand, it really is a big problem.  I am a good listener, but was never good at finding solutions. I don’t know how to help you in this stressful moment.”
After a little more thinking, Madam Head agreed and went to find others that might help her in this matter.
She found the twins Right Eye and Left Eye on the way.
Even before Madam Head told them again about the fight, they answered together in unison, “We saw all that happened and because we are close to him, we support Nase, or Mr. Nose. After all, he is the one that smells the stink. But we also know that without Mr. Fivetoes, we can’t go anywhere. So, we’d like to sit aside and refrain from stating an opinion.”
“I understand,” said Madam Head and she kept going, still trying to figure out the problem.
All of a sudden, she had a brilliant idea; she talked first with the skillful Hand sisters and then called everybody interested to a meeting.
As expected, all the body members attended the meeting, and Madam Head took the floor, “Fellow companions of my whole life, I had learned about what happened between Mr. Nose and Mr. Fivetoes, and agreeing with them both, actually with all three of them, that each one of them makes a good point, I feel I have a solution that might please us all.”
Before she could continue, Mr. Fivetoes yelled, “I don’t want a solution, I want to be as far as I can from the rude Mr. Nose!”
“And I don’t want to feel that stinky smell!!” responded Nase.
“Calm down, calm down…” Miss Mouthy intervened.
 “Gentlemen,” continued Madam Head, “this quarrel of yours harms us all in this body. We cannot and do not want to live without the others – without Mr. Nose we cannot breathe or smell anything, without Mr. Fivetoes we cannot go anywhere.”
“Or walk, run, jump…” said Mr. Fivetoes, the right one.
“Or score goals!” concluded Mr. Fivertoes, the left one.
“But without breathing no one can do anything!” said Mr. Nose with disdain.
“Hence we need a solution for everybody!” Madam Head interrupted vigorously.
“And that will be…?” Miss Mouthy asked.
 “Look, thinking together with the Hand sisters, we decided on the following: Any moment that Mr. Nose gives the alert of the stink, the left Hand sister will meet him and close his nostrils, while the right Hand sister executes a good washing procedure with Mr. Fivetoes, both of them, to clean away the bad smell. And, of course, Miss Mouthy, you will help with the breathing while the washing lasts. The Right Eye and Left Eye twins will oversee the operation. If everybody helps and acts in a coordinated way, we will soon solve this problem. What do you think?”
There was a three-and-a-half-second silence that seemed an eternity.
“Well… a bath with a perfumed soap is not bad at all,” said Mr. Fivetoes, the Right, breaking the silence.
“It is important to dry us well, too,” said Mr. Fivetoes, the Left.
“Don’t squeeze me too hard when closing my nostrils,” grumbled Mr. Nose.
And everybody cheered and applauded the solution to the big problem.
Even Mr. And Mrs. Ear, usually cautious, showed their approval by swinging the earlobes.
“You got it again, Madam Head, now, we are all happy!!” said Miss Mouthy.
“Let’s party, then!! Djs, be ready!!” Miss Head, excited, called.
The Hand sisters took over the sound and everybody sang and danced altogether to the hit song, loved by all:
“Head, Shoulders, Knees and Toes,
 Head, Shoulders, Knees and Toes,
Eyes, Ears, Mouth and Nose,
Head, Shoulders, Knees, and Toes!!”

Sai Chulé!!! A Briga do Nariz com o Pé

 - Dona Cabeça, Dona Cabeça, chamou a sempre falante Madame Boquinha, temos um problemão e a senhora precisa achar uma solução!
- O que foi, Madame Boquinha? Respondeu pacientemente Dona Cabeça, que sempre tinha que achar solução para todo problemão.
- É Nose, o Seu Nariz, ele brigou com o Seu Pé!
- Com o direito ou o esquerdo?
- Com os dois, Dona Cabeça!
- Com os dois? E por que foi que eles brigaram?
- Porque o Nose disse que não aguenta mais o chulé de Seu Pé! E Seu Pé ofendido, disse que não vai mais levar o Nose para lugar algum, mas se ele não leva o Seu Nariz… nós também não poderemos ir!
- É verdade, Madame Boquinha, esse é um problemão!
- E a senhora precisa achar uma solução!!!
Depois do relato de Madame Boquinha, Dona Cabeça pôs se a pensar em como resolver tal questão. Primeiro foi conversar com Seu Orelha, que era sempre um bom ouvinte. Após explicar a situação, ela perguntou:
- E então, Seu Orelha, o que acha que podemos fazer?
- Hummmm.
- Seu Orelha?
- Hummm… Veja bem, ouço e compreendo, realmente é um problemão. Eu sou um bom ouvinte, mas nunca fui bom para achar uma solução. Não sei como ajudá-la nesse momento de tensão.
Pensando bem, Dona Cabeça lhe deu razão e saiu a procura de outros, que pudessem ajudar naquela questão.
Achou pelo caminho os gêmeos Olho Direito e Olho Esquerdo.
Antes que Dona Cabeça contasse de novo a história da briga, eles responderam em coro e jogral:
- Vimos toda a briga e pela proximidade e amizade, apoiamos o Nose, Seu Nariz, afinal é ele que sente o cheiro ruim, mas sabemos que sem o Seu Pé, não vamos a lugar algum. Logo, preferimos assistir de camarote e não emitir opinião.
- Compreendo, disse Dona Cabeça, e seguiu pensando em como poderia resolver aquela situação.
De repente, teve uma brilhante ideia, conversou primeiro com as hábeis irmãs Mãos e convocou todos os interessados para uma assembléia.
Todos os membros do corpo, como não poderia deixar de ser, compareceram e Dona Cabeça pediu a palavra:
- Companheiros de toda uma vida, sabendo do desentendimento ocorrido entre Seu Nariz e  Seu Pé e concordando que os dois, aliás, os três, tem sua dose de razão, acho que encontrei uma solução que pode agradar a todos.
Antes que prosseguisse, Seu Pé, o esquerdo, gritou:
- Eu não quero nenhuma solução, quero é ficar longe desse mal-educado do Nose!!!
- E eu que não quero ter que sentir seu mau cheiro!!! Retrucou Seu Nariz.
- Calma, calma… interveio Madame Boquinha.
- Senhores, continuou Dona Cabeça, a briga de vocês prejudica a todos nesse corpo, não podemos e nem queremos viver uns sem os outros, sem o Seu Nariz não podemos respirar, nem sentir o cheiro das coisas, sem o Seu Pé não podemos nos locomover…
- Andar, correr , saltar… Disse o Seu Pé, o direito
- E marcar Gols!!! Completou o Seu Pé, o esquerdo.
- Mas sem respirar ninguém faz nada!!! Desdenhou o Seu Nariz.
- Logo, precisamos de uma solução boa para todos!!! Interrompeu enérgica a Dona Cabeça.                                         
- E qual seria? Perguntou Madame Boquinha.
- Vejam, mais cedo conversando com as irmãs Mãos pensamos no seguinte. Em qualquer momento que o Seu Nariz der o alerta chulé, a mana Mão esquerda vai ao seu encontro e tampa suas narinas, enquanto isso a mana Mão direita efetuará um bom procedimento de lavagem no Seu Pé, nos dois,  para espantar o mau cheiro. E claro, Madame Boquinha, enquanto durar a ação, você ajuda na respiração. Os gêmeos, Olho Direito e Olho Esquerdo, supervisionam a operação. Se isso acontecer de maneira coordenada com todos colaborando, logo resolveremos o problema. O que vocês acham???
Fez se um silêncio de três segundos e meio, que parecia uma eternidade.
- É… um banho com um sabonete perfumado não é nada mal. Disse o Seu Pé, o direito, quebrando o suspense.
-  Enxugar bem a gente é importante também!!! Disse o Seu Pé, o esquerdo.
- Só não me aperte muito quando tamparem minhas narinas, resmungou Nose.
E todos vibraram, aplaudindo a solução do problemão.
Até o Seu Orelha e sua senhora, normalmente comedidos, demonstraram aprovação balançando
os lóbulos!
- A Senhora conseguiu de novo Dona Cabeça, agora estamos todos felizes!!! Disse Madame Boquinha.
- Então vamos comemorar!!! A postos "Djs"!!! Chamou a entusiasmada Dona Cabeça.
As irmãs Mãos assumiram o comando do som e todos cantaram e dançaram muito, a música que era o “hit” preferido da galera:
“Cabeça, Ombro, Joelho e Pé
Cabeça, Ombro, Joelho e Pé,
Olhos, Ouvidos, Boca e Nariz,
Cabeça, Ombro, Joelho e Pé!!!”

Aka Tombo (O Vestido, Parte 2)


O Limbo

A ausência do vestido deixou um vazio não preenchível, inexplicável pela razão.
Um grande Nada pareceu envolvê-lo e a alegria de seguir naquele caminho desapareceu. Ele olhava ao redor e tudo parecia perder a nitidez. Foi tomado por uma sensação nauseante, por uma vertigem incontrolável.
Ela seguiu correndo, nua como Eva, banida do Paraíso. Não percebia o quanto corria e nem como se embrenhava mais e mais no Desconhecido. Não dançava mais ao Som do Mundo, não mais sentia ou ouvia a Sinfonia da Vida e começou a ser envolvida pelo grande Abismo devorador que, inesperadamente, apareceu para os dois.
Abrigou-se entre as árvores de uma pequena floresta com medo de predadores à espreita, da escuridão que crescia dentro de si e das nuvens pesadas que transformavam o dia em noite.
Assim foi naquele dia e no outro e outro mais...
Apesar da sequência dos dias, parecia que o tempo continuava estacionado. Estavam distantes, cada um encolhido em sua estranha inércia. A fome, o frio e o medo crescente eram companheiros fiéis enquanto permaneciam perdidos naquele vão em que se encontravam. A chuva também se fazia presente, encharcando seus corpos e almas. O Abismo espreitava, esperando que o desespero se tornasse insuportável e os fizesse desistir, para então poder devorá-los.
 
O Dragão

Era ainda o terceiro dia quando algo diferente aconteceu:
Dissipando as nuvens, surgiu um lindo Dragão, brilhante como o Sol! Era um daqueles dragões orientais, que voava serpenteando, sem asas. Trazia ele uma grande surpresa: o vestido perdido revoava em suas costas, parecia a capa de um deus!
Ele avistou o dragão com o querido vestido estampado e então, em um esforço hercúleo, conseguiu sair de dentro do Nada, recuperando sua vitalidade e suas memórias recentes do limbo. Soltou um longo assobio, que quebrou o silêncio e chegou ao Dragão, que o avistou, desceu e pousou junto a ele. Então, sem medo, ele deu um longo e forte abraço nessa radiante criatura, como se a conhecesse de tempos ancestrais.
Logo depois, voavam ambos, ele cavalgando o Dragão pelo céu. Flutuaram, subiram e voaram bem alto, procurando pela dona do vestido.
Passaram-se algumas horas até que, pouco antes do entardecer, de seu esconderijo, ela avistou o Dragão, que voava próximo, e seu cavaleiro, que balançava o seu vestido como uma bandeira. Sentiu a esperança brotar novamente dentro do seu ser. Saiu da floresta sem se importar com a sua nudez, caminhou trôpega, caiu de joelhos e chorou agradecida.
Ele a avistou, aproximou se veloz, saltou do Dragão, ergueu-a com cuidado e lhe entregou o vestido.
Enquanto ela se vestia, reparou em sua beleza natural e recordou a magia de cores, sons e sensações que ocorria quando ela e o vestido estavam juntos. As libélulas vermelhas contra o fundo azul brilharam nessa hora e já não estavam apenas na estampa. Foi com lágrimas nos olhos que ela sentiu aquele vibrante inseto místico pousar rapidamente em seu ombro e logo esvoaçar ao seu redor. Recordou de um sonho recorrente em sua infância, um sonho lindo em que vivia em outra terra e ouvia sua vó contar da tradição das libélulas vermelhas que protegiam todas as mulheres de sua família.... mas em que tempo, em que lugar teria sido isso? Ele viu suas lágrimas, sentiu sua emoção, mas não quis perguntar nada. O momento era de silêncio e reverência.  
Eternamente agradecidos, despediram-se do Dragão que havia recuperado o vestido e lhes ajudara a ter novas percepções e aprendizados sobre a Vida, o cada um e o Todo. Logo aquele ser mágico e imaginário levantou voo, deixando rastros de arco-íris pelo céu.
Acompanharam o Dragão com o olhar até ele finalmente desaparecer no azul infinito. Então, pela primeira vez, os dois se olharam, olhos nos olhos, e suas almas se encontraram. Uma explosão muda ocorreu, com a troca de um mundo de sensações. Naquele pequeno momento infinito, as peças se encaixaram, a Esperança triunfou e o Abismo devorador se fechou. Muitas perguntas obtiveram respostas e outras tantas deixaram de importar. Sentiram empatia, acolhimento, desejo e paz.
 
Aka Tombo

Abraçavam-se terna e intensamente, gerando uma onda de energia que trouxe de volta as flores com seu perfume, o canto dos pássaros, o balanço dos galhos ao vento e a suave brisa que misturava os seus cabelos. O Som do Mundo ressoava! A Sinfonia da Vida voltou!
Ela o convidou para dançar e, mesmo sem jeito, ele aceitou.
Naquele momento ele percebeu que o encanto maior só se realizava quando os três estavam juntos. Ela, ele e o vestido! Cada um com a importância de ser parte, mas o todo sendo muito mais significativo do que a soma das partes. A Mágica se realizou em sua plenitude, estavam unidos, mais juntos do que nunca!
Ele a segurou com mais força colando o corpo dela ao seu.
E assim seguiram, com dúvidas, mas cheios de coragem e disposição para caminharem juntos, descobrindo e desbravando novos caminhos, enfrentando medos, sem soltarem as mãos e guiados pelo vestido. 
As libélulas vermelhas voavam no vestido e no céu do entardecer anunciando o final de mais um dia.
 
P.S.: Esse texto foi escrito em Co-autoria com Ástrid Schein Bender 
        Aka Tombo significa Libélula Vermelha em Japonês.

"Staying Alive!!!"




"Nãaao!!! Não podia ser verdade!!! De tantas mentiras e ameaças infundadas proferidas por aquele ser desprezível, inominável*, por que logo aquela tinha que se tornar realidade???"
O desespero e a revolta tomaram conta de seu ser enquanto ele olhava incrédulo a sua imagem refletida no espelho.
No dia anterior tinha tomado mais uma dose da vacina contra o vírus, que assolava o planeta e, apesar de odiar injeções, ele era pela Ciência e pela Vida acima de tudo. Abaixo os Negacionistas!!!
Passou o dia meio febril, com calafrios e náuseas, fora o braço dolorido. Mas à noite, durante o sono, a febre aumentou. Teve pesadelos e alucinações. Sonhou que Mutano*, dos Jovens Titãs, ironicamente lhe dizia: “É, no dos outros é refresco!!! Experimenta no seu agora!!!”
Acordou de sobressalto, vendo que sua pele adquirira uma coloração cinza esverdeada. Ainda zonzo, tropeçou, derrubou vários objetos no caminho e correu para o espelho.
Trincou o espelho chocando-se contra ele, pois, ao se aproximar, não tinha noção do tamanho de sua boca. Ou seria focinho??? Incrédulo, tentou coçar os olhos, mas viu que seus braços estavam mais curtos do que o habitual. E esse contrapeso que sentia atrás??? Era uma cauda!!! Uma cauda enorme!!!
A imagem que via refletida no espelho, de um pesadelo do qual não conseguia despertar, era, sem dúvida, a de um… Jacaré!!!
Com certeza uma reação, um efeito colateral, mas temporário, duradouro ou permanente???
Uma maldição???
Ele passou horas pensando, preocupado, tentando não sucumbir ao desespero. Andando de um lado para outro, tentava com esforço manter-se equilibrado nas duas patas traseiras com a ajuda da cauda. Ficar em posição ereta lhe dava a sensação de ainda conservar resquícios humanos. Quando cansava, a cauda não lhe permitia ficar sentado e, deitado, só podia de bruços. E ficar de barriga pra cima lhe conferia um incontrolável sentimento de vulnerabilidade.
Quando sentiu fome, comeu pedaços de frango cru com ossos, sem se importar em temperá-los ou cozinhá-los. Sua boca enorme despedaçou tudo com uma voracidade assustadora!!!
Chorou sentindo nojo e pena de sua condição reptiliana.  
Se ao menos existisse um Dr Curt Connors* na vida real, poderia existir um antídoto.
Pensou em falar com alguém, mas quem poderia ajudá-lo??? Sua mãe entraria em pânico, seu melhor amigo, ia achar que era um trote, sua ex, que era um pretexto pra falar com ela, e sua terapeuta estava de férias…
E se a ABIN, a CIA, a KGB, os MIB*… estivessem monitorando as suas ligações??? Talvez eles tivessem injetado um chip com a vacina para poder segui-lo.
De repente poderia chegar uma "turma" toda equipada e dar sumiço nele!!! Depois fariam testes e mais testes!!! Talvez no final acabasse virando uma bolsa. Pensou em acessar o Google, no celular, para saber das leis de proteção aos jacarés, mas seu focinho longo e os bracinhos curtos inviabilizaram a tentativa.
Ele começou a fazer exercícios de hiperventilação, respirando longa e pausadamente para tentar evitar que o pânico tomasse conta da situação.
Algum vizinho próximo ouvia os "Bee Gees" cantando “Staying Alive” em alto volume. Naquele momento, para ele, a música soava como uma trilha irônica de um filme de terror.
De repente ouviu ruídos no apartamento vizinho, cuja janela dava para a sua.
A moradora do apartamento era uma morena bonita, enigmática, com ar meio blasé, que nunca se relacionou com ele, além dos bom dias ou boa noites, ao se cruzarem no corredor ou elevador do edifício onde  moravam. Nunca lhe direcionou o olhar, muito menos um sorriso.
Sua vizinha costumava andar nua ou em roupas íntimas pela casa sem nunca se importar com a existência ou não de olhares curiosos, os dele inclusive.
A cortina!!! Ele esqueceu a cortina aberta!!! Desajeitado, correu para fechá-la.
Após o momento de pavor de poder ser descoberto, ele espiou o apartamento da vizinha por uma fresta e se deparou com uma figura que tentava desesperadamente fechar a sua persiana emperrada; aliás, nunca fechada por anos. E era, para a sua surpresa, a figura de uma… Jacaré, jacaré-fêmea!!! Sua vizinha também tinha se transformado!!!
Instintivamente, ele abriu a sua cortina revelando a sua forma.
Ela, apavorada por ter sido descoberta, tentou, em vão, se cobrir com a persiana quebrada e ele, tentando acalmá-la, vocalizou um tímido "Oi", mas o que se ouviu foi um grunhido gutural.
Lenta e desconfiada, ela se revelou aos poucos e respondeu com um "Oi" similar, só um pouco mais agudo.
Pela primeira vez, em anos, os dois se olharam nos olhos, sentiram alívio, empatia e emoção, compaixão, talvez com paixão, choraram, sem lágrimas de crocodilo.
Chegar ao apartamento dela em sua nova forma foi um grande desafio.
Eles estavam vivos, vacinados e não estavam sós no Mundo!!!


Inominável: Referente ao Presidente Brasileiro, que governou nos anos da Pandemia de COVID 19.
Mutano*: Herói da DC Comics cujo poder é se transformar em qualquer animal existente ou que já existiu.
Curt Connors*: Personagem da Marvel Comics, cientista que inventou um soro para tentar recuperar seu braço amputado, mas que o transformou no vilão Lagarto.
MIB*: Homens de Preto personagens de filmes de ficção científica, teoria da conspiração, invasão alienígena, baseados em quadrinhos da Marvel.
O Grande Barato da Vida é Viver!!!

Belíssima!!!

 

14:30h Escritório de Isabela
“Alô?”
“Alô… Oi, Belinha! Sou eu, Pedro Ern…”
“Pedro Ernesto!!! O que você quer??? Já falei pra você não ligar no telefone da empresa!!!” Sussurrou Isabela, mas já querendo gritar com ele.
“Mas Belinha, se eu ligo no seu celular, você não atende…” Respondeu, contrariado, Pedro Ernesto.
“Não interessa, não atendo mesmo!!! Me respeita, Pedro Ernesto, eu estou Tra-ba-lhan-do!!! Tchau!!!”
“Não, Belinha! É importante!!! Pera, Belinha!!! Não desli…”
Tu-tu-tu-tu…
15h Escritório de Isabela
“Alô???”
“Oi, Belinha…”
“Não acredito, Pedro Ernesto!!! Vai procurar o que fazer!!!”
“Belinha, por favor! Só me ouve… Só ouve!!! Um pouquinho, vai???”
“O que é? Te dou trinta segundos!!!”
“Trinta segundos? Mas é muito pouco!!! Não pode ser um pouquinho mais???”
“Vinte segundos…”
“Mas Belinha…”
“Dez…”
“Pô, vc já foi mais legal comigo…”
“Seu tempo acabou!!!”
Tu-tu-tu-tu…
16h Escritório de Isabela
“Alô???”
“Olha pela janela, Belinha!!!”
“O que é, Pedro Ernesto???” Respondeu Isabela, já sem paciência.
“Olha, vai… Vc não vai se arrepender!!!”
“Ai, Pedro…”
Bela foi até a janela e pela fresta da persiana olhou lá pra baixo.
“Tá me vendo, Belinha???”
“Tô… O que é???”
Ele mostrou uma rosa vermelha que mantinha escondida nas costas e disse:
“É sua, vem buscar!!!”
“Me poupe!!! Você quer que eu saia no meio do trabalho pra pegar uma rosa??? Não esqueça que é esse emprego que paga as minhas contas e as de seu filho também!!!”
“Pô, mas é com tanto carinho…”
“Pedro Ernesto, qual é o seu problema? Em que confusão você se meteu? Por que cê tá me assediando desse jeito???”
“Confusão nenhuma, Bela. Só preciso conversar com você. É importante!!! Desce aqui, vai???”
“Ai, Pedro Ernesto…”
“Por favor…”
16:15h Café da esquina
“Pra você!!!” Disse ele oferecendo a rosa murcha.
“Tá, obrigada! Desembucha, Pedro Ernesto! Eu só tenho 15 minutos!!!”
“Calma Belinha!!! O assunto é delicado e tem que ser tratado com muito respeito!!!”
“Sim, e qual é o assunto???”
“Você tá malhando? Tá bonita, hein???”
“Sempre fui!!!" Realmente, Isabela era uma mulher bonita, chamativa e bem cuidada.
“Como vai o Pedrinho???”
“Vai bem e não é graças a você!!!”
“Que grosseria…”
“Olha, se vc quer saber de seu filho liga pra ele!!! E aproveita e explica porquê você sempre atrasa a pensão!!!”
“Mas eu paguei outro dia!!!”
“Sim, outro dia, depois de seis meses sem pagar!!! Quer saber??? Chega!!! Fale com o meu advogado!!!”
Bela fez menção de se retirar.
“Não, por favor! Calma!!! Eu só estou tentando quebrar o gelo. Isso é só uma introdução!!!”
Bela sentou de novo, mas com sua paciência por um fio.
“Sabe Bela, não sei como começar…
Respirou fundo e… mudou de assunto.
"Mas, aliás, esse seu advogado é muito antipático!!! Nada razoável!!!”
“Antipático pra você, não pra mim! Ele é ótimo!!!” Respondeu Bela com um certo sarcasmo provocativo na voz.
“Como assim??? Ele é algo seu, Isabela???”
“Isso não é problema seu!!!”
“Como não??? Isso é antiético!!!”
“Antiético??? Como assim???”
“Conflito de interesses!!! Se ele tem um envolvimento com você ele não vai ser imparcial. Não vai ser justo!!!”
“Que imparcial??? Ele é meu advogado, não seu!!! E agradeça, vc só não vai preso porque seu filho pediu. Chorou por você!!!”
“Foi mesmo???”
“Foi…” Disse Bela com um certo arrependimento de ter mencionado o fato.
Pedro ergueu as mãos para o céu e falou alto chamando a atenção de todos no Café:
“Obrigado, filho!!! Vida de ator é uma merda!! É cada humilhação …” Seus olhos não disfarçavam uma certa umidade.
Depois de uma pausa continuou:
"Mas Bela, se puder, troca esse advogado. Ele não é de confiança, não te merece!!!”
“Tá maluco??? Você tá é com ciúme!!!”
“Ciúme, eu? Desse otário??? Hahhahahahaha Você tá louca!!!”
“Bom acabou o seu tempo!!!!”
Bela levantou, mas ele a segurou pela mão.
“Não, por favor! Só mais cinco minutos…”
Ela se soltou da mão dele e sentou novamente.
“Pra você me deixar em paz. Só mais cinco minutos!!!”
“´É o seguinte, nem sei por onde começar…”
“Pelo começo e termine logo…”
“Sabe aquelas fotos, aquele ensaio que você fez há 12 anos???”
“Sim, minhas fotos nua!!! Antes de Pedrinho nascer…”
“Essas!!! São lindas!!!”
“Você achou??? Eu procurei tanto…”
“Sim, achei. Na verdade, eu escondi pra você não levar na separação…”
“Seu sacana, mentiroso!!! Disse que não sabia onde elas estavam!!!”
“Sim, desculpe! Mas é que elas são muito importantes pra mim!!!”
“Eu quero minhas fotos!!!”
“Eu sei, por isso eu quis conversar. Estava me sentindo culpado…”
“Que bom! Então devolva as minhas fotos!!!”
“Mas você deu pra mim! Foi um presente!!!”
“Sim, mas foi em outro contexto!!! Pedro, sou eu nas fotos, meu corpo!!!”
“Mas é por isso que eu queria me desculpar e pedir sua permissão…”
“Permissão? Permissão pra quê???”
“É difícil falar, mas estou confiando em você. Espero que não use isso contra mim…”
“Usar o que, Pedro???”
“Sabe, eu só consigo olhando suas fotos, imaginando você…”
“Consegue???”
“É…” respondeu ele, meio sem jeito, fazendo o gesto de ereção com o braço.
“Você é doente, Pedro Ernesto!!! Vá fazer terapia!!!”
“Eu já tentei… terapia, outras mulheres, namoradas, até profissionais, mas só rola "com você"!!!”
“Pare!!!” Bela cruzou os braços na altura dos seus seios "turbinados"em uma atitude de defesa.
“Pedro, faz 2 anos e 7 meses que estamos separados. Siga sua vida!!! Não quero você infeliz, não mesmo. Mas não aceito essa ligação doentia com você!!! Quero minhas fotos de volta!!!"
“Mas Belinha, quero sua permissão, por favor… Eu preciso das fotos, eu não consigo de outra maneira, é uma questão de saúde!!! E tem mais uma coisa que eu preciso te…”
“De saúde mental???”Interrompeu Isabela, já com fogo nos olhos e na língua!!!
"Não permito nada!!! Não autorizo, entendeu??? Se você não me devolver as fotos, eu processo você e conto tudo para o seu filho, seu "punheteiro"!!! E não tire cópias!!!”
“Isabela, por favor, eu não terminei…”
Dessa vez ela se levantou e realmente foi embora!!!
10:15h (Dois dias depois) Escritório de Isabela
Bela recebeu um envelope de um remetente anônimo em seu trabalho, trancou a porta de sua sala pra evitar algum colega bisbilhoteiro e abriu com cuidado. Eram as fotos!!!
As fotos, agora espalhadas sobre sua mesa, eram em preto e branco, de bom gosto, bem produzidas, um nu ousado, revelador, mas sem “baixarias”.
Quinze fotos!!! Estavam todas lá.
Doze anos atrás, ela fez aquele ensaio erótico como presente de primeiro aniversário de casamento para Pedro Ernesto.
Bela sentiu saudades daqueles tempos, quando aquela recém formada jornalista se apaixonara pelo ator da peça que foi assistir. Aquelas fotos retratavam aquela época. Retratavam aquela paixão avassaladora, que se perdeu no tempo. Na verdade, ela achava que Pedro é que se perdeu no tempo, que o ator sonhador não evoluiu, não se atualizou, e não soube acompanhá-la.
Junto com as fotos, dentro do envelope, havia um pedido de desculpas de Pedro Ernesto, pelo que ele tinha contado para ela e pelo que não tinha conseguido contar.
O celular de Bela tocou, era seu advogado, novo namorado .
Ela não entendeu nada, ele estava possesso, nervoso, querendo terminar a relação, dizendo que recebeu um link do OnlyFans de um anônimo. Ele mandou o link para ela, perguntou como ele iria justificar para a sua mãe, filha e os seus amigos, e desligou!!!
Ela abriu o link curiosa e descobriu que a dona da conta era uma tal de “Belíssima”, ou seja, para sua grande surpresa, ela mesma!!! A conta exibia aquelas fotos que ela acabara de receber.
Com certeza isso era obra de Pedro Ernesto!!!
Serviu-se de uma dose tripla de whiskey com gelo e teve uma crise histérica de gargalhadas enquanto olhava o "seu perfil" no OnlyFans.
Será que Pedro fez aquela conta pra espantar o advogado ou já vinha faturando algum dinheiro em tempos de crise??? A pensão de Pedrinho que ele finalmente pagou… Será???
Agora ela era a musa de outros onanistas pelo mundo, além de Pedro Ernesto, graças ao próprio.
Bela abriu a janela de seu escritório para poder respirar, sentiu se envergonhada, humilhada, o suicídio lhe passou pela cabeça, mas pensando em Pedrinho, logo desistiu, fora que o seu andar não era tão alto e se saltasse poderia não morrer e passar o resto da vida sequelada. Não, não era a solução!!!
Também não adiantaria só cancelar a conta, pois muitos já tinham o direito à suas fotos por assinatura, poderiam ter copiado, e isso poderia gerar um processo que se arrastaria por décadas. Qual seria a solução???
Tomou alguns goles de whiskey e sentiu até uma ponta de orgulho por poder ser admirada, desejada, por muitos. Dezenas, centenas, milhares, talvez.
Tomou outros goles de whiskey, pegou o celular, e cheia de coragem, resolveu ligar.
“Pedro Ernesto, você é um grandessíssimo filho da puta, mas vou lhe fazer uma proposta.
Ou eu acabo com você no tribunal e seu filho vai saber o pai canalha que ele tem, ou…
Eu quero 60% do que render o OnlyFans!!! E essa proposta só vale hoje!!! Amanhã sobe pra 70%!!!”
Ela resolveu virar o jogo, ou seja, já que entrou involuntariamente na chuva, vai ser a sócia majoritária do vendedor de guarda chuvas.

O Vestido (Parte 1)


 O Caminho
 
Em uma tarde solar, eles caminhavam por uma trilha estreita de terra, que cortava o campo. Ela ia na frente, feliz, dançando ao Som do Mundo, em seu vestido azul com estampas de libélulas vermelhas. Ele vinha atrás, meio distraído. Seu olhar se perdia na paisagem: flores e borboletas, pássaros, árvores e formas de nuvens, cheiros e sons, mas sempre procurava pelo vestido feliz para não se perder no caminho.
Ela caminhava sem questionar, mas era guiada pelo vestido. Sim, o vestido guiava os dois.
De repente, uma inesperada ventania! Um pé de vento tão forte - daqueles que fazem as bruxas levantarem voo em suas vassouras, com pedaços de mato e partículas sólidas de poeira - fez com que ele se encolhesse, segurasse a respiração e fechasse os olhos.
Ela foi envolvida por um redemoinho de vento que tirou seus pés dançantes do chão e que, antes mesmo de poder resistir, roubou seu querido vestido cheio de cores e o levou embora!!!
Repentinamente, como veio, a ventania se foi…
Ele abriu os olhos e se ergueu lentamente. Olhou a sua volta e só o que viu foi um corpo feminino, nu, que corria para longe, mas nada do vestido… nada de suas estampas… nada de sua alegria…
Suspirou fundo sem saber o que fazer e seus olhos se entristeceram. Sem aquele vestido, não havia direção a seguir… Ele estava completamente perdido!!!
 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Clarice

Passando por aquele ponto de ônibus vazio, no meio do nada, Guto viu aquela morena linda, rosto de anjo e corpo de rainha de bateria da Mangueira. Talvez um pouco mignon, mas tudo em um equilíbrio perfeito, vestindo uma blusa branca de alcinhas e com suas belas pernas torneadas surgindo de uma saia jeans muito curta, bolsa pendurada no ombro e sandália alta de cor branca.
Instintivamente ele freou o carro e deu uma ré:
“Oi! Quer uma carona?”
Ela hesitou, olhou nos olhos dele por um instante e entrou no carro.
“Pra onde você vai?” Perguntou ele.
“Pra onde você você quer ir?” Ela respondeu com uma voz aveludada.
“Pra onde era o ônibus que você estava esperando?"
“Ônibus???” Rebateu ela, com um estranheza inesperada. “Eu não estava esperando o ônibus!!!”
“Não? E por que estava sozinha ali naquele ponto no meio do nada???”
“Ah!!! Porque os clientes preferem encontros em lugares desertos, discretos. A maioria é casado, pai de família e não quer que ninguém fique sabendo. Entende???”
A ficha finalmente caiu naquele instante e ele ficou momentaneamente mudo. Mudo e envergonhado!!!
"Hahhahahhahaha… ela caiu na gargalhada. Você não sabia, não sabia mesmo!!!”
“É, nem desconfiava…” disse ele visivelmente sem jeito.
“É o seguinte, não tem problema. Você não quer aproveitar já que estou aqui e contratar meus serviços?”
“Seus serviços?”
“Sim, oral R$30,00, na frente R$50,00, atrás R$100,00, pode ser no carro. No Motel R$100,00 a hora, e só transo de camisinha. E nada hard core!!!. Realizo fantasias, mas nada extremo. Odeio apanhar, no máximo uns tapas na bunda!!!” Falou com firmeza, direta e com uma falta de pudor inesperada.
“Entendi…” respondeu meio desapontado, sem conseguir ainda imaginar aquela menina com rosto de anjo exercendo a profissão mais antiga do planeta.
Toca o celular no viva voz do carro, interrompendo o playlist de Guto.
“Alô???" Ele atendeu fazendo sinal de silêncio pra ela.
“Guto, você está atrasado!!! Tá todo mundo te esperando pra apresentar a nova campanha!!!”
Disse uma voz feminina impaciente do outro lado.
“Já tô indo!!! Daqui a pouco eu chego!”
“Daqui a pouco quanto???”
“Sei lá, uns 15 minutos! Enrola um pouco que eu já tô aí!!!”
“Ai, tá bom! Corre Guto, corre! Sempre atrasado!!!”
“Ok, tô chegando!!!”
Assim que ele desligou a chamada, ela perguntou:
“Namorada, Guto?”
“Não, colega de trabalho.”
“Mandona!!!! Parecia namorada…”
“É, já foi! Mas terminamos há um tempo…”
“Sabia!!!”
Sabida hein??? Ele pensou
"Bom, eu sou o Guto e você?”
“Clarice, mas é nome de Guerra.”
“E por que Clarice?”
“Porque eu amo Clarice Lispector!!!”
A resposta novamente surpreendeu Guto.
“E você lê Clarice Lispector?”
“Claro! Leio tudo de Clarice. Tudo!!!”
Guto não quis admitir, mas fora “A Hora da Estrela” ele conhecia pouco da obra de Clarice Lispector.
“Surpreendente, Clarice!!!” Comentou.
“Por que, Guto? Você acha que as putas são burras e incultas??? Pelo contrário, ao longo da história, as grandes cortesãs eram muito inteligente e cultas!!! E espertas também! Se um dia eu tiver tempo e "tempo"(fazendo com os dedos como se contasse dinheiro) ainda vou cursar letras, literatura, ou psicologia, porque alguns clientes me procuram mais pra conversar, contar os problemas, do que pra sexo.”
Guto reparou que Clarice era bem desenvolta e falava um português correto.
“Clarice, eu trabalho em uma agência de publicidade, sou redator. Posso tentar arrumar um estágio pra você lá!!!” Falou ele em um impulso, mas se arrependendo logo a seguir. Pensou em como justificaria isso para os colegas.
“Jura? Que legal, Guto, obrigada!!! Mas eu não posso aceitar, tenho um filho pequeno e uma mãe diabética que fica com ele pra mim. O estágio não vai render o necessário. Uma pena! Com a crise, a clínica onde eu era recepcionista fechou e agora tenho que literalmente “ralar" o dia todo pra segurar a onda.”
Guto suspirou aliviado por ela não ter aceito.
“E tudo bem pra você, isso de…???” Perguntou ele sem achar o termo adequado.
“Tudo bem, bem, não! Mas não sinto mais culpa ou choro a noite toda como no início. O dinheiro não é ruim, ganho mais do que antes, e ali no meu pedaço não tem cafetão querendo mandar em mim. Quero dar uma vida digna pra meu filho e poder comprar os remédios pra minha mãe. Claro, não é pra vida toda. Se Deus quiser, mais alguns anos e acabou!!! Por enquanto faço minha academia e uma terapiazinha pra cuidar da minha saúde.”
“Terapia? Clarice, estou admirado!!! Torço pra você conseguir sair dessa!!! Se quiser, claro.” Disse Guto em um misto de surpresa e indulgência.
“A vida é boa, Deus é bom!!! Eu vou conseguir!!!”
“E a polícia? Você não tem problemas com a polícia, Clarice?”
“Hahhahahha! Não! Meu irmão é da polícia. Quando contei, ficou um tempão sem falar comigo, mas agora manda um carro passar de vez em quando pra ver se estou bem.”
“Com segurança particular??? Legal!!!”
“E trabalho até sexta! Sábado só se algum cliente querido, muito vip, pedir. E tem que pagar bem!!! Domingo é dia da família!!! Dia do filho!!!”
Guto viu em Clarice uma consciência, uma coerência, e valores surpreendentes, insuspeitos, quando ofereceu carona àquela jovem figura.
“Ai, eu adoro essa música!!!
Na playlist do carro toca “Infinito Particular" e ela faz um dueto com Marisa Monte em uma interpretação deliciosamente sensual:

"Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular"

Essa menina não cansa de me surpreender!!! Pensou ele.
Guto, a essa altura,  já não sentia remorso algum pelo seu atraso.
“Escuta, sei que o papo tá bom, mas sei que você tá com pressa, Guto. Me deixa por aqui que eu pego um Uber e volto para o meu pedaço.”
Guto concordou. Meio a contra gosto, estacionou o carro e Clarice lhe estendeu a mão. Ele retribuiu com um aperto de mão, mas ela continuava com a mão estendida.
“O que foi?” Perguntou ele.
“Cinquenta reais!!! O Uber e o tempo de serviço que passei com você. E estou cobrando o preço mínimo da tabela.”
“Mas a gente nem… e eu não tenho dinheiro vivo…” Argumentou surpreso, meio contrariado.
“Tenho Pix, anota aí: 71 9981… Se vc quiser falar comigo, manda um zap. Já tem o meu número agora!!!”
Clarice deu um beijo de despedida no rosto de Guto, comentando:
“Sexo bom, conversa boa, se beijar na boca os homens logo se apaixonam!!! Só beijo no rosto!!! Hahhahahhhaha”
Hummm, que perfume gostoso!!! E que figura interessante!!! pensou Guto.
E lá se foi Clarice, jovem, rosto de anjo, corpo de deusa, inteligente, articulada, amante de homens e de poesia, afinada, surpreendente, com sua risada solta e contagiante.
E lá se foi Guto, atrasado, fascinado e meio apaixonado pela figura de Clarice. Mesmo com Pix, sem sexo, nem beijo na boca.

PS: "Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece..."  Clarice Lispector

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Pas de Deux

 “Mas eu sou casado e estou aqui de passagem, não quero te iludir...” Digitou ele no zap.
Ela fingia que não entendia, prometia o que podia e não podia e que faria até o que não poderia prometer: “Não importa, eu vou te dar tudo que vc quiser, o melhor sexo de sua vida, quero ser tua!!!”
Sexo, era um apelo bastante forte para um homem de meia idade, longe da forma ideal,
casado há mais de uma década com sua segunda esposa, em um relacionamento estável, previsível e fiel, mesmo com uma companheira extremamente ciumenta. Ser desejado dessa maneira por uma mulher bonita, jovem, com quase metade de sua idade era uma massagem e tanto para o Ego. Claro, ele chegou a se questionar algumas vezes, o porquê de ser ele o escolhido em meio a tantos outros daquela grande equipe de trabalho, mais de 60 pessoas vindo de diferentes lugares do país, mas preferiu acreditar que era por seu espírito de liderança, que lhe conferia visibilidade e seu “carismático charme pessoal”, que, agora, acreditava não ter perdido ao longo dos anos.
Na verdade, ele tinha conversado pouco com ela, que se mostrava competente em seu trabalho, mas não era uma pessoa muito extrovertida, até se mostrava meio tímida, o que tornava ainda mais surpreendente a sua investida explícita. Aliás, ela só era ousada em suas palavras via zap, no resto do tempo era extremamente discreta.
Tratando-se de uma grande campanha política para o Governo, a jornada era bastante cansativa, cerca de 12 a 15 horas por dia, durante três meses, e aquele dia, em especial, não tinha sido nada bom para ele, com direito a uma longa discussão telefônica com a mulher, que achava que se ele não tinha ligado era porque estava “aprontando”. E pra piorar uma terrível dor de dente com febre!!!
Seguindo a recomendação do dentista, ele tomou o analgésico, o antibiótico e foi mais cedo para o hotel descansar.
Quando ele estava quase pegando no sono, tocou o celular, era ela, preocupada, querendo saber se ele estava bem e dizendo que gostaria de poder estar lá para cuidar dele. E ele respondeu: “Você quer? E por que não vem?” Seu coração disparou, sentia culpa, era a primeira vez que se aventurava fora do casamento, mas também não se perdoaria se deixasse essa chance escapar. Pela primeira vez ele priorizava a sua vontade, o seu desejo.
 Ela chegou em uma roupa simples, quase sem maquiagem, que mostrava que ela não quis perder tempo se produzindo. Olhou para ele e fez um carinho na sua bochecha inchada, a do lado do dente inflamado. Ele segurou a sua mão e começou a beijar. Aproximou-se de seu rosto e beijou a sua boca. Continuaram a se beijar  com sofreguidão na cama e ele notou, enquanto a despia, que o sutiã e a calcinha preta de renda, que deixava à mostra quase toda a sua bunda, grande e firme, combinavam. Mostrava que ela teve cuidado com o detalhe, que julgara o mais importante, mas foi aquele descartado com maior rapidez.
Eles respiraram e dançaram juntos em uma sincronia surpreendente, da valsa ao rock and roll, do movimento suave, quase um tai-chi, ao golpe forte e direto, como do karatê. Transaram, se amaram, se possuíram, se engalfinharam, por horas, como se fosse a última coisa a ser feita nessa vida, tudo ou nada, sem limites, sem proibições, sem certos ou errados!!! A noção do tempo mudou, é como se o relógio tivesse parado ou andasse muito lentamente, como se estivessem imersos em uma redoma isolada do mundo. Ele era como um vampiro, que sugando a energia de cada orgasmo dela, se sentia mais poderoso, mais vivo. Ela, feiticeira, juntou os ingredientes, fez a mágica se traduzir na noite mais prazerosa de suas vidas. E o dentista tinha recomendado repouso!!!
Depois de muito gozar, ela separou seus corpos suados, se posicionou de maneira submissa, de quatro, e se ofereceu para uma penetração anal. Ele foi à loucura!! Não foi só o Grand Finale, foi o Extraordinário, não só a cereja do bolo, mas a cobertura toda!!!
 Ela se foi enquanto ele dormia.
Nos dias que se seguiram ele a procurou insistentemente para novos encontros, mas as tentativas nunca foram bem sucedidas. Sem nenhuma explicação razoável, mesmo admitindo que tinha sido maravilhoso, ela não queria mais.
Ele percebeu que a falta daquilo que o fizera sentir tão vivo, agora o enlouquecia, envenenava.
Era vital, como se faltasse oxigênio.
As lembranças povoavam a sua mente, noite e dia, o cheiro dela, seu sabor, roubavam até a sua concentração no trabalho. A convivência dos dois se tornou uma tortura, ela só falava o  profissionalmente necessário com ele. Até as roupas justas que ela usava, ressaltando as suas formas generosas, pareciam uma provocação pessoal. Sentia-se diminuído, impotente, rejeitado!!! Por quê??? Será que ele tinha sido só mais um troféu a ser conquistado para ela?
 Os arrastados meses de trabalho chegaram ao final, acabando com a convivência e sepultando qualquer esperança que ainda existisse. Na despedida só um formal beijo no rosto.
Ele sentia que tinha sido um completo otário!!!
 Ele voltou à sua realidade morna, incompleta, sentindo falta de algo, que talvez, nunca tivesse existido no seu casamento. Apesar do ressentimento, aquela noite tinha sido um marco, um grito de liberdade, que não poderia seria esquecido.
Algum tempo depois, não resistindo à curiosidade, resolveu xeretar o Instagram de sua ex colega de trabalho, e para a sua surpresa, achou uma foto dele durante aqueles meses de labuta, com a seguinte inscrição: “A pessoa mais incrível que já conheci! Meu amor impossível!”

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Calipígia (Flávia no Divã)

-Manda entrar!!! Dr Sig, pelo interfone, pede a Eva, sua secretária, que introduza o próximo paciente em sua sala.

Eva pergunta com uma certa hesitação na voz:
 
- Doutor, o Sr viu a anamnese, a entrevista prévia que eu fiz??? É um caso “diferente”…

Confiando em seus longos anos como psicanalista, Dr Sig responde sem muita paciência:

- Pode deixar entrar!

A porta se abre e para a sua surpresa a paciente entra andando de ré.
 Ela usava roupas estranhamente largas e essa era a sua primeira sessão.

- Seu nome é?

- Mile, Jamile

- Por favor, Jamile. Diz o terapeuta indicando o divã.

A paciente se deita de bruços.

Sem querer intimidá-la ele pergunta:

- Você está confortável assim?

- Sim e não. Mas é a posição devida.

- Devida por que?

- Por que? Eu sou somente a interlocutora, sua paciente é a… minha bunda!!!

- Sua bunda??? Perguntou o Doutor intrigado.

- Sim, minha bunda!!! Então ela não pode ficar por baixo na sessão, né?

- E por que sua bunda veio até mim?

- Porque ela estava muito triste e caída, quase em depressão. Ela é cheia de traumas!!!

Seria um caso onde a paciente incapaz de assumir suas questões, transferia tudo para
 uma parte de seu corpo??? Um caso incomum sem dúvida!!!

- Sim, e sua bunda tem um nome?

- Só apelidos, mas nenhum muito elogioso. Bullying, sabe???

- Entendo. Diga alguns.

- Ah, vários!!! Subnutrida, porque diziam que esqueceu de crescer; bundícula ridícula; gavetinha; mini-mini; prancha (de surf); trombou de ré no caminhão; where’s the bunda?, e assim vai…

Dr Sig fixou os olhos naquela bunda, sentiu sua tristeza e viu que havia maldade naqueles comentários, mas que também tinham procedência, mesmo ela estando disfarçada pelas roupas largas.

- E como ela gostaria de ser chamada?

- Pergunte para ela Doutor!
 
Dr Sig respirou fundo e perguntou para a bunda:

- E como vc quer ser chamada???

- Flávia! Responde Mile.

- E por que Flávia?

- Porque ela gosta desse nome. É de uma amiga de escola que a tratava bem.

- Então Flávia, me conte, por que você está aqui?

- Sabe Doutor… posso falar na primeira pessoa?

- Sim, claro!

- Então, minha vida era normal até o início de minha adolescência. Uma infância feliz como as das outras meninas. Mas, mais ou menos aos 12 anos, quando as meninas começaram a ganhar corpo e suas bundas cresceram, nada aconteceu comigo. Imagina a decepção.

- Sim, entendo. Continue…

- E a ficha caiu mesmo quando picharam no banheiro da escola: ”Jamile esqueceu a bunda em casa!!!” Foi um choque, muito triste!!!

- Entendo…

- Depois disso nós fomos ladeira abaixo..

- Nós?

- Sim, eu e Jamile.

- Entendo…

- Mile tentou disfarçar colocando enchimentos na calcinha, usando roupas largas, tentava fugir das aulas de educação física, não ia à praia, nem à piscina… Mas o bullying e as chacotas eram cada vez mais frequentes e violentos. Certa vez eu estava no chuveiro do vestiário, após uma aula de Educação Física que não pude faltar, e eu só tomava banho depois que todas saíam, mas as meninas voltaram, tiraram suas calças e dançaram um funk, tipo “twerk”, com aquelas bundas proeminentes viradas pra mim. Foi horrível!!! Aí, Mile começou a me culpar por toda a sua infelicidade e isolamento social.
- Sim, entendo.
- Nessa época, a única que ficou ao meu lado foi Flávia, que me apoiava. Minha única amiga!!! Compreensível também, pois ela era a segunda na categoria onde eu era a campeã disparada. Se eu era o 0 (zero), ela era 2, talvez 2 1/2. Mas Flávia tinha um trunfo, seus peitos eram mais precoces do que os das outras, lindos peitos, e Mile… "comissão de frente" nota 4!!!

- Você é muito severa com Jamile e com você mesma - Considerou Dr Sig.

- Passei uma boa fase sem querer me olhar no espelho!!!

- Sim, entendo.

- Depois, sem a obrigatoriedade de uniformes no ensino médio, Jamile passou a usar vestidos e saias largas. Sempre tentando desviar a atenção de mim. Passamos a nos relacionar somente quando necessário.

- Quem?

- Eu e Jamile. Calipígia...

- Como? Na verdade, Dr Sig não conhecia o significado da palavra.

- Calipígia*… era tudo o que Mile queria ser!!! Tentou academia, massagem, fórmulas mágicas, mas eu só cresço com cirurgia e aí o custo é inviável. E com esse trauma todo e o desprezo que ela me dispensa, não dá pra eu ser feliz, né???

- Entendo. E Flávia, sua amiga?

- Nunca mais vi… Sinto saudades!!! Hoje ela é jornalista.

- E sua relação com Jamile, como é hoje?
- Olhe, não somos amigas, convivemos porque é necessário. Com o Dudu, ela até ficou menos ressentida, até feliz. Pena que terminaram.

- Dudu?

- É. Foi namorado de Mile por 2 anos e 1/2. Ele era louco por ela e não me olhava com desprezo. Mas mesmo assim ela não gostava que ele me acariciasse não!!!

- E por que terminaram?

- Sei lá!!! Mile é complicada e ciumenta, vivia implicando com ele, achava que ele olhava pra todas as bundas que passavam!!!

- E olhava?

- Todo homem olha, né??? Mas ele era discreto e respeitoso. Ela que é paranóica!!!

- Eu paranóica??? Foi você que me deixou assim!!! Interrompeu Jamile.
Mile e Flávia iniciaram uma discussão e começaram a se exaltar!!! Estranhamente, dava para distinguir perfeitamente quem era uma e quem era a outra na discussão.

- Calma, calma!!! - Tentou apaziguar o Dr Sig.

Aquele era um caso raro, que ele nunca tinha presenciado antes. Não eram personalidades diferentes que se manifestavam em um único ser, um de cada vez, em um transtorno dissociativo de personalidade tipo "As Três Faces De Eva”, eram “seres” com vida própria, antagônicos, que eram obrigados a conviver simultaneamente, contra suas vontades, em um único corpo.
 Será que ele poderia cuidar de Jamile e considerar Flávia como um sintoma??? E se depois aparecerem o pé torto, o olho míope, o peito menor que o outro para se queixarem???

Três minutos depois, com os ânimos mais controlados, o Psicanalista suspira e prossegue:

- Pelo que entendi, a paciente não é só Flávia, Jamile. E não tenho como separar vocês duas para atendimento individual. Será como uma terapia de casal, só que o divórcio não é uma alternativa para vocês. Quero que vocês duas pensem bem em como querem se relacionar já que a convivência é necessária para a vida toda. Na próxima sessão a gente continua.

- Tá bom, Doutor! Obrigada e desculpe a briga… diz Mile meio sem jeito.

- Desculpe também, Doutor, mas Mile é descontrolada - rebate Flávia reiniciando a celeuma.

- Ops!!! - Intervém o terapeuta quando Jamile já tentava beliscar a própria bunda.

Jamile sai em silêncio de cara fechada acompanhada por Flávia.

Dr Sig se sentia exausto, diluiu um pó branco que guardava na gaveta em um copo de água, bebeu lentamente pensando sobre o caso que acabara de presenciar e anotou no seu bloquinho:
“Calipígia???”


 
 
Calipígia*: Referente àquela que tem formosas Nádegas.


segunda-feira, 7 de março de 2022

Zeca e Milla

E eles se encontraram pelas redes sociais durante a pandemia.
 

Engataram uma conversa como se fossem conhecidos de longa data, com muitas risadas, choros e até brigas. Conversavam por horas a fio, sobre livros, cinema, música, culinária, família, passado, presente, futuro, desejo, sexo terreno e sexo dos anjos, Deus, e, claro, pandemia. Tudo via internet.
 

Por muitos meses foi assim: já acordavam com saudade, conversavam até de madrugada e os assuntos jorravam feito água de uma mina inesgotável.
 Ela, mais recatada e literal, cheia de regras de conduta e defesas montadas, com um forte ciúme enrustido. Ele, mais “voador", sem muita censura na língua, não raro se arrependia daquilo que tinha dito.
 Ele, assumidamente apaixonado. Ela, dizendo que não havia possibilidade de paixão sem um encontro presencial.


Até que um dia, com a baixa dos índices de contaminação pelo vírus, os dois devidamente vacinados, resolveram que finalmente era a hora do tão desejado encontro presencial. Com a ansiedade à flor da pele, passaram a semana planejando e idealizando como seria o tão esperado encontro.
 Combinaram que seria a céu aberto, em uma praça da cidade e durante a semana, por ser menos frequentado, sem aglomeração. Cada um com seu tubinho de álcool em gel e usando máscara, claro.


Chegado o grande dia, eles se avistaram e se aproximaram com um aceno de mãos.


- Oi, eu sou o Zeca! Disse ele, meio sem jeito, sem saber onde por as mãos.


- Eu sei… eu sou a Milla. Respondeu ela, sem descruzar os braços.


Tentaram, por vezes, sem sucesso, quebrar aquele silêncio ensurdecedor, que contrariava todas as expectativas criadas, nos cinco minutos mais longos e angustiantes desde que Deus inventou o Tempo.


- Bom - disse ele - foi bom te encontrar! Até mais!


- Tá bom! Até! respondeu ela
.

Após um rápido abraço e um encosto de bochechas com som de beijo, foram embora sem nunca terem tirado as máscaras.


Ansiosos, chegando em casa correram para o computador.


- Oi!!! Já estava com saudades!!! Digitou Zeca.


- Eu tb!!! Muitas!!! Digitou Milla de volta.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Kora e Zé (E Deus Existe???)


 Naquela noite chuvosa de domingo, quando acabou a luz (e acabou por muito tempo), Kora acendeu algumas velas em círculo no chão da sala. Sentou-se, então, no centro, acompanhada de meia garrafa de vinho tinto seco (ou seria um Prosecco?) que havia sobrado da noite anterior e gastou longos minutos em vão tentando apagar as velas com o poder do pensamento.
Ela acreditava que a fé podia mover montanhas, mas a sua fé era no ser humano. Kora não acreditava em Deus.
Mesmo falhando em sua demonstração de poder telecinético, preferiu não gastar o restante de bateria do seu celular. Nem conversando com amigos, que tinha poucos, e, menos ainda, com sua mãe, que falava muito e ia se preocupar à toa com a prolongada falta de luz. Poderia precisar do telefone para uma emergência. Kora sempre se preocupava com emergências, com as coisas que não conseguia controlar.
Kora morava só. Só ela e Bela, sua gata, preta como a noite mais escura, que se escondeu com medo dos trovões.
Parecia que todo o bairro, talvez toda a cidade, estava sem energia elétrica.
A escuridão não incomodava Kora, ela sempre preferiu a noite em vez do dia. Definitivamente, ela não era uma pessoa solar, mas as janelas, fechadas por causa da chuva, causavam uma sensação claustrofóbica. E as velas acesas, junto com o vinho, aumentavam a sensação de abafamento e desconforto no ambiente.
Aliás, o vinho acabou.
De repente: “Toc, toc, toc…” alguém bateu em sua porta!!!
Kora ficou em silêncio.
“Toc, toc, toc…” a batida se repetiu!!!
— Quem é???, perguntou sem sair do lugar, em um misto de curiosidade e medo.
Não tinha luz, não tinha campainha!!!
Caminhou sorrateiramente, tentando não fazer barulho, naquele apartamento antigo com o chão de tacos de madeira encerados e cheio de sons estranhos!!!
Tentou ver pelo olho mágico quem é que estava a bater. Mas estava escuro lá fora, não havia luz no corredor e não dava para ver ninguém.
“Toc, toc, toc…” de novo!!! Kora deu um pulo para trás e, com a voz falhando, perguntou: — “Que-que-quem é???”
Pensou que poderia até ser Pérsio, seu ex, que depois de três meses sumido, teria vindo pedir perdão, querendo voltar.
Uma voz masculina interrompeu seus pensamentos.
— Desculpe, eu sou…
— Eu sou??? Repetiu Kora.
— Acredite…
— Em quem???
— Acredite…
— Só se você falar quem é!!!
— Kora, eu sou… Deus!!!
— Deus??? Mas eu não acredito em Deus!!!
— Eu sei, por isso estou aqui.
— Olha, eu não tô gostando dessa brincadeira!!! Vai embora ou eu chamo a polícia!!!
— Você só tem 5% de bateria no celular e a polícia está cheia de emergências nessa chuva. Eles não vão vir te ajudar porque você está conversando com Deus.
Kora olhou para o seu celular e viu que só restava mesmo 5% de bateria!!!
— Como você sabe da bateria do meu celular???
— Eu sou Deus, sei de tudo!!! Até coisas que eu não gostaria de saber.
— Mentira!!! Deus não existe!!!
— Existo sim. E estou aqui. Ah, e trouxe uma garrafa de vinho, que o seu acabou. Respondeu com toda a calma do mundo.
Kora hesitou, como ele sabia do vinho??? Será um vizinho voyeur? Mas, de certa maneira, aquela voz lhe soava familiar e passava uma certa confiança.
A curiosidade falou mais alto:
— Sr. Deus, ou seja lá quem for, afaste-se dois passos da porta! Não, três passos!!! Afastou???
— Kora, o corredor só tem três passos, estou grudado na porta de seu vizinho da frente.
Sem tirar a correntinha de segurança, com uma vela na mão, Kora olhou pela fresta da porta.
Ainda estava escuro, mas o ser lá fora aumentou sua luminosidade para poder ser visto.
— Melhor assim?
— Zéééééé!!! Gritou Kora, reconhecendo a figura no corredor e abrindo a porta.
— Pô Zé, que susto que você me deu!!! Brincadeira de mau gosto!!! Quase fiz xixi nas calças!!! Entra aqui. Você tá todo molhado!!!
Zé era um morador de rua para quem Kora sempre levava comida e com quem “batia altos papos” filosóficos.
— Mas Zé, como você sabia do vinho e do celular??? E o truque do “Vagalume” no corredor??? Disse enquanto era presenteada com a garrafa de vinho.
— Obrigada!!! Ih Zé, você tá cheirando a “cachorro molhado”, melhor você tomar um banho, pode se gripar!!
— Desculpe, era o único “ser disponível” nas redondezas. Comentou meio sem jeito.
Kora levou Zé para o seu banheiro e foi tirando suas roupas velhas e molhadas.
— Essas roupas vão para o lixo. Vou pegar umas roupas que o Pérsio, meu ex, “esqueceu” para você. A água tá fria porque não tem luz, tá? Mas pode usar meu shampoo.
Só quando saía, Kora "se tocou"que viu o Zé pelado! 
Quando voltou com as roupas, encontrou seu banheiro cheio de vapor.
Zé respondeu como se lesse seus pensamentos:
— Odeio banho frio!
As roupas de Pérsio ficaram um pouco largas no corpo magro de Zé.
Chegando na sala, Kora comentou:
— Está abafado aqui, né? Mas não dá para abrir a janela, senão entra chuva.
Zé fez um gesto com as mãos, como se empurrasse a chuva em outra direção e abriu a janela. Nem uma gota de chuva molhou a sala.
Kora caminhou até a janela sem acreditar no que tinha acabado de testemunhar.
— É algo parecido com o que você estava tentando com as velas. Disse Zé.
Kora pegou mais uma taça e se sentaram nas almofadas do chão.
— Zé, agora me explica tudinho!!! Como você faz essas coisas??? Você é um super-herói, um ET???
— Eu sou Deus.
— Ah! Para com isso, Zé!!! Deus não existe!!!
— Será? Então você está delirando?
— Pode ser. É bem provável!!!
— Então me explica…
— Explica você!!! Você não é Deus???
— Ah, então eu existo!!!
— Não, não existe!!!
— Hahahahahahaha!!!
Zé serviu o vinho e continuou:
— Eu explico, livre-arbítrio.
— Como assim, livre-arbítrio???
— Eu não queria vocês como marionetes, queria vocês com brilho pessoal, tomando suas próprias decisões. Criei o tal do livre-arbítrio. Deixei até vocês decidirem se acreditam ou não na minha existência. Mas o preço foi e é muito alto. O ser Humano não se mostrou preparado para tanta responsabilidade. Faltou equilíbrio!!! Ele se tornou seu próprio câncer!!!
— E por que você não intervém???
— Porque, se eu chegar a intervir, vocês viram marionetes!!! E minhas decisões são irreversíveis!!! O que é pior???
Kora refletiu pensativa, mas sem abandonar seu ceticismo.
Brindaram e saborearam o vinho.
— Que vinho delicioso!!! — Admirou-se Kora.
— Safra particular, Videiras do Éden!!!
Bela, a gata, apareceu e se aninhou no colo de Zé.
— Ela odeia estranhos… comentou Kora.
— Eu sou o pai dela. Respondeu Zé acariciando a gata.
A garrafa de vinho, como que por milagre, voltava a encher toda a vez que esvaziava.
Como Kora continuava dura na queda, difícil de convencer, Zé ainda fez um show de imitações perfeitas, cantando como Freddie Mercury, Maria Callas, Tim Maia, Elvis, e dançando como Michael Jackson e Fred Astaire.
Kora assistiu boquiaberta, estupefata, e aplaudiu como nunca!!!
E depois de muitas garrafas, conversas e risadas, Kora também se aninhou no ombro de Zé.
— Kora, eu existo, viu?
— Humrum, conta outra.
Kora adormeceu.
Na manhã seguinte, a chuva parou, a luz voltou e Kora acordou nas almofadas. Só ela e Bela, nada de Deus ou Zé. A garrafa vazia estava lá, a primeira, e só uma taça usada. Teria sido tudo fruto de sua imaginação???
Como de costume às segundas, Kora saiu para tomar café na casa de sua mãe. De chapéu Panamá, óculos escuros e protetor solar fator 100. Caminhou absorta em seus pensamentos sobre a noite anterior. Afinal, Deus existe ou não???
De repente ela ouviu uma voz conhecida, era Zé com uma alegria incomum:
— Kora!!! Obrigado pelas roupas!!!
 
PS: Tenha Fé!!!