quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Fausto e Otaviano

“...E assim sendo, podemos deduzir que essas obras de Manon Briscout, são de menor importância em sua carreira ou frutos de uma fase de notada ausência de inspiração.
Acreditamos que tão grandiosa comemoração pela presença dessas obras em Terras Brasilianas, seja um equívoco que atesta o total desconhecimento do potencial desse artista franco-belga e do melhor de sua obra...”
A coluna dos críticos Fausto e Otaviano não deixava pedra sobre pedra, como o habitual. Denegriam a capacidade do artista e evidenciavam nossa falta de apuro estético. Nosso papel era sempre o de pobres ignorantes, comprando gato por lebre.
Disfarçavam suas maledicências com uma retórica pomposa. Na verdade, parecia mais uma coluna de fofocas.
Enigmaticamente, alguns artistas passavam de “vilões” a “heróis”, ou vice e versa, em um passe de mágica, sem mais explicações. Será que a dupla era de alguma forma "agraciada" por essa inexplicável mudança de opinião???
Mas as críticas criaram um efeito dialético. Quanto pior a crítica, mais aguçava a curiosidade de seus leitores, que não eram poucos, e mais gente comparecia aos eventos, como às críticas da Folha de São Paulo em décadas passadas.
Assim, apesar de não serem queridos, eram quase sempre bem recebidos.
Era comum encontrá-los em teatros, ballet, restaurantes, recitais e concertos de música erudita, feiras de antiguidades e, claro, exposições de arte. Andavam sempre juntos, aliás, gostavam muito dos “holofotes”.
Não sei se sempre escreviam em parceria ou se, muitas vezes, era um vôo solitário, mas a coluna era sempre assinada pela dupla, melhor dizendo, pelo casal. Saiu até uma matéria na revista “Primal Faces”, quando se casaram, em primeiro de janeiro de 2007, no vilarejo de Campillo de Ramos, província de Guadalajara, a 90 minutos de carro de Madri, Espanha. Uma cidade casamenteira, considerada o paraíso do casamento gay.
Mas a parceria “artística” já existia desde 2004.
Conheci a dupla na mostra inaugural de uma exposição de artefatos da China Imperial, somente para convidados, em agosto de 2007. Na época, ainda estava casado, mas como não conseguimos babá, Ligia a contragosto ficou com as crianças. Fui só, sem nenhum amigo, para não aumentar sua irritação.
Inácio Villalba, curador da exposição, nos apresentou.
- Muito prazer!!! A-do-ra-mos suas críticas e artigos!!! Você é uma pessoa que merece nosso respeito e realmente enobrece a música!!! “Declamou” Fausto, de forma afetada. Otaviano limitou-se a concordar com a cabeça.
- Obrigado. Respondi, com uma sobriedade proposital, não acreditando em uma palavra do que dizia aquela “hiena”.
- E está gostando da exposição? Perguntou.
- Acabei de chegar. Na verdade, estava encantado com as peças expostas.
- Pois está fan-tás-ti-ca!!! Esses chineses vão dominar o mundo!!!
Apesar da sua tentativa de agradar, senti um extremo desconforto. Tudo soava falso naquela conversa.
- Com licença. Retirei-me, aproveitando a saída de Inácio.
- Arrivederci!!! Disse Fausto, dando ”tchauzinho” com a mão.
- Meio esnobe, não??? Eu achava que ele era mais alto, cochichou Fausto.
Notei que comentavam mais sobre os convidados do que sobre as obras de arte.
Os dois tinham aparências antagônicas. Fausto era pequeno, quase careca, gordo e elétrico. Usava roupas de cores berrantes e gosto duvidoso. Virava uma taça de espumante e logo saia na busca de outra.
Otaviano tinha a pele de um branco quase transparente, magro, muito magro, e alto. Um tipo longilíneo e esquizóide. Usando grandes óculos de aro preto e grosso, com um rosto pequeno de queixo quadrado. Blazer preto, camisa branca, calça preta e tênis All star roxo. Roxo???!!! Segurava com delicadeza sua taça de champagne, que consumia lentamente. Os dois tinham entre trinta e cinco e quarenta anos, Fausto era o mais velho, sem dúvida.
Fausto falava sem parar e se esticava todo para fofocar no ouvido de Otaviano, que concordava com a cabeça, sem pronunciar palavra alguma. Quando achava muita graça, dava uma risada fungada, de curta duração.
“Quanta maldade nesses coraçõezinhos”, pensei e me afastei.
Meia hora depois, ao me desviar de uma linda adolescente apressada, esbarrei casualmente no garçom que servia champagne a Fausto.
- Oh!!!Mil perdões!!! Tentei me desculpar.
- Otaviano!!! Otaviano!!! Me deram um banho!!! Minha roupa nova!!!Venha me ajudar!!! Gritava Fausto, me “fuzilando” com os olhos.
Acho que naquele momento acabara de entrar para a sua lista negra.
Dias depois, leio em Fausto e Otaviano:
“...mesmo sabendo que não é do nosso “metier” a crítica musical, muito nos surpreendeu, de forma negativa, o concerto do Fat Hat Trio, em sua performance burocrática e pouco inspirada, no Memorial da América Latina.
Música linear e letárgica, que sem dúvida, nada acrescentou `a sensação de estarmos ouvindo um interminável cd, World Music, de relaxamento.
Uma real decepção, é “vero”, para um concerto tão incisivamente recomendado e classificado como imperdível por nosso colega....”.
Era a vingança!!!

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