terça-feira, 2 de março de 2010

Michelle e Clara

Layla, de Clapton; Julia, dos Beatles; Marina, de Caymmi, pelo menos um peso pesado Brazuca; e Michelle, também dos Fabfour.
Foram as opções que dei para o nome de nossa primeira filha.
Depois de quase dois anos casados, concordamos que era uma boa hora para termos um filho.
Pela última ultrassonografia, não restava mais dúvida do sexo da criança. Cabia agora à Lígia, a mãe, a grande escolha. Que, acreditem, se arrastou por dois meses.
Marina ela eliminou logo de cara. Era o nome de meu grande amor de adolescência. Expliquei que Lígia, de Tom, também estaria na lista, se não fosse o nome da mãe, mas acho que não convenci.
- Não me estresse, não me es-tres-se!!! Dizia, grávida de seis meses.
OK, tínhamos três opções ainda. Layla ela não gostou. Achou comum.
- Comum??? Perguntei. Já me via cantando Layla ao violão para a criança dormir.
- É, tive uma vizinha de apartamento que tinha uma poodle toy, barulhenta, chamada Layla. Não quero pensar na cachorrinha toda vez que chamar nossa filha.
Não tive como argumentar, e lá se foi minha opção predileta.
- Por que não Julia??? "Seashell eyes, windy smile, calls me..."
- Julia??? Dizia pensativa, no sétimo mês, torcendo o canto da boca.
- Julia é um nome lindo, sonoro!!! Um lindo nome pra uma criança linda!!! So I sing a song of love, Julia...Cantarolei.
Ela não disse que sim, nem que não.
No oitavo mês, acordou um dia, decidida:
- Será Michelle!!!
A opção que eu menos queria.
- Mas por que Michelle???
- Porque eu gosto!!! Respondeu.
- E Julia???
- O trato foi: suas opções e minha escolha. Respeite!!!
Era verdade, fui eu quem sugeri que fosse dessa forma. Quem mandou eu colocar Michelle na lista...

Tres Anos Depois

Michelle, aos tres anos, era uma criança adorável, esperta, doce e sociável. Frequentava a escolinha, e todos os dias tinha uma novidade pra contar.
Ela é do signo de Peixes e realmente nadava como um deles. Era a melhor da sua turma na escolhinha de natação.
Assistíamos desenhos animados juntos, sempre imitando os personagens. Por que as crianças assistem tantas vezes o mesmo filme???
Não via a hora de telefonar e ouvir sua voz, em minhas viagens, e ganhar seus desenhos, quando voltava para casa. Resistia colocar Michelle na cama, quando adormecia em meu colo. Só o pensamento que algo de mal poderia ocorrer a ela, já me causava dor. Queria estar sempre perto para protegê-la.
Adorava azeitona. Pizza para ela só se tivesse azeitona.
Diversas vezes me flagrava cantarolando: “Michelle, my belle, sont des mots qui vont tres bien ensemble...”. Até em importantes eventos musicais do trabalho.
É, eu estava loucamente apaixonado por ela!!! Uma paixão que crescia diariamente nos últimos tres anos.
Quando temos um filho, achamos que ensinaremos muita coisa a eles, mas na verdade somos nós que aprendemos muito mais.
Lígia me censurava, disfarçando o ciúme:
- Você estraga, não educa!!
Nosso casamento não andava grande coisa. De morno para frio, diria. Talvez até mais frio do que eu quisesse admitir. A única coisa que aquecia aquela casa, era a presença cheia de vida de Michelle.
Lígia andava meio quieta ultimamente, pensativa. Parecia meio fragilizada.
Recusava minhas tentativas de diálogo. Às vezes, se trancava no quarto e chorava.
Não se mostrava receptiva para o sexo. Em nada lembrava aquela “gata selvagem”, que parecia estar em um cio permanente, dos primeiros anos de nosso namoro e casamento.
Será que não soubemos evoluir e nos adequar ao passar dos anos???
Acordei no meio da noite com Lígia me cutucando. Eram 4:20 AM. Achei que estava roncando muito alto.
- O que foi??? Perguntei sonolento.
- Preciso te contar uma coisa...
“Deve ser sério”, pensei.
- Eu...eu estou grávida, disse pausadamente e sem alegria, já fiz o teste...
Não sabia o que dizer, nem como reagir.
- Pensei em tirar..., mas desisti. Contou suspirando.
- E se tirasse, não ia te contar.
- Por quê?
- Nós não estamos bem, você sabe...
- Quantos meses??? Perguntei já completamente sem sono.
- Quase dois... Pra mim também foi uma surpresa...
Surpresa??? Meu coração disparou. Eu não era nenhum santo, mas vinha me mantendo fiel, e a vontade de estar perto de Michelle, não me permitia ficar longe de casa além do tempo necessário. Nunca poderia imaginar uma infidelidade por parte de Lígia. Mas ultimamente quase não “transávamos”. Será que ela tinha arranjado um amante???
Notando minha inquietação completou:
- Foi naquele sexo “burocrático”, da nossa última vez. Sossegue!!!
Pelo menos o meu orgulho de “macho” sentiu um grande alívio.
- E a pílula???
- Eu parei, a gente já quase não transava...
Virou as costas para mim e desabou a chorar.
Abracei Lígia com força, tentando lhe passar calor e alguma segurança.
Não trocamos mais palavras, nem dormimos até o amanhecer.
Dias depois, fui me deitar às 2:37 AM., após finalizar um artigo em inglês, para a ‘”Rolling Stone” americana, sobre os movimentos musicais emergentes no Brasil.
Enquanto me ajeito no escuro, ouço a voz de Lígia:
- Se for menina vai se chamar Clara.
- Clara??? Por que Clara???
- Porque é como o céu azul, limpo, sem nuvens. Nada de trovoadas, nem tempestades. Cheio de claridade!!! Luz!!! Eu preciso de luz em minha vida!!!
- Bom, se você já decidiu. Mas, e Michelle??? Perguntei.
- O que tem Michelle???
- Ela não ilumina a sua vida???
- Sim, mas ilumina muito mais a sua do que a minha!!!
Acho que concordava com ela nesse ponto. Esperei mais um pouco e perguntei:
- E se for menino??? Na verdade eu gostava da idéia de ter um casal.
- Se for menino, você dá o nome que quiser, tá bom assim??? Mas sinto que é uma menina... Boa noite.
- Boa noite!!! Segurei e beijei a sua mão.
Antes de adormecer, pensei em Eddie, Eduardo Góes Soares do Nascimento, rockeiro fanático. Guitarrista exímio, tivemos uma banda juntos na adolescência. Eddie tinha três filhos: Eric, Jeff e Jimmy. Em homenagem aos deuses da guitarra inglesa. E dizia que, se tivesse mais um, seria Ritchie, em homenagem a Ritchie Blackmore, do Deep Purple. Para mim o curioso, agora, era como Eddie convencera sua mulher a colocar esses nomes. Quais os argumentos que ele usara??? Pelo jeito, Eddie não era somente um guitarrista virtuose, conhecia outros truques também. Não via Eddie há alguns anos, desde que fechou sua loja de LP’s raros, Gently Weeps, no Itaim-Bibi.
Em sete de junho de 2006, sob o signo de gêmeos, conforme a profecia materna, nasceu Clara.

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