Acordei com o barulho do abrir e fechar portas e gavetas do guarda roupa, o relógio no móvel de cabeceira marcando 6:12 AM.
- Mulher, você enlouqueceu??? São 6:10 h da manhã e você fazendo essa confusão??!!!
- Olha, me deixe, viu!!? Eu tenho uma reunião as 8h e não posso me atrasar e o trânsito está terrível, ainda mais com esse prefeito achando que o bom é tirar asfalto e colocar calçada! Respondeu já estressada. Pela luz que entrava por uma fresta na cortina via seu vulto andando do quarto ao banheiro e do banheiro ao quarto.
"Transito terrível, hoje?” Bom, reunião no sábado é pra estressar mesmo, pensei.
Voltou já maquiada e me deu um beijo na testa antes de sair.
- Ah! Deixei seu suco pronto. Disse, apontando o copo sobre o móvel de cabeceira.
Agradeci e tomei o meu suco de laranja com couve, gengibre, chia e mel de todas as manhãs
Engraçado, para um sábado cedo estava mesmo movimentado, ouvia barulho de muitos carros passando.
Abstraí e resolvi dormir mais um pouco.
9:48 AM
"Prrrrrrrrrrrrrrrrrrr, pant pant pam pam, pant pant pam pam…”(Tema de Missão Impossível de Lalo Schifrin )
O meu celular!!!
- Alô??? Atendi a contragosto.
- Oi, é Julia, você já tá chegando? Era minha assistente.
- Chegando aonde??? Perguntei ainda sonolento.
- Na reunião com o cliente, marcada para as nove e meia!
- Mas a reunião é só na segunda, Julia!!!
- E que dia é hoje? Hoje é segunda!!!
- Não, hoje é sábado!!! Retruquei irritado.
- Ai, ai… Olhe, vou pedir milhões de desculpas, e dizer que você acordou com uma enxaqueca terrível e não pode vir. Depois a gente se fala. Vou voltar para a reunião.
E desligou antes que eu pudesse dizer algo mais.
Olhei para a tela do celular que informava: segunda feira, 17 de agosto
"Segunda, como assim???""
Não consegui mais dormir e levantei da cama contrariado:
“Que saco!!! Se hoje é segunda, onde foi parar o meu sábado e domingo???”
Fui ao banheiro escovar os dentes e reparo que minha barba está crescida, como se eu não a fizesse há alguns dias, e eu só deixo de fazer a barba aos finais de semana.
Liguei o computador e as notícias eram as de segunda-feira de manhã e as resenhas do final de semana: O dólar inicia a semana em alta; O Governo cogita aumentar o IOF; Irã, Refugiados, a morte no mar; O Corinthians assume a liderança do Campeonato Brasileiro; sempre Djokovic, nada de novo…
A irritação, dá lugar a angustia. Eu não lembro de nada do final de semana!!!
Entro no Facebook, Instagram, e… Nada!!! Não tive nenhuma movimentação, nenhum post, nenhuma curtida ou comentário. Nem sábado, nem domingo!!!
O desespero aumentou.
O único post, na minha Timeline, era da segunda mesmo, um link patrocinado anunciando os shows de David Gilmour no Brasil. No post, ironicamente, Gilmour canta:
“Waiting for someone or something to show you the way… and you run to catch up with the sun, but it’s sinking…” (Time, Pink Floyd)
Levantei sentindo uma tontura muito forte. O mundo girava dentro e fora de minha cabeça!!!
Desmontei sobre o sofá da sala, ofegante.
Tentei me acalmar fazendo hiperventilação.
“Calma que tudo vai ter uma explicação lógica...” Repetia como um mantra.
Senti uma dor aguda no estômago, excesso de ácido clorídrico pelo nervosismo, mas fome também.
Voltei da cozinha comendo duas bananas amassadas com farinha láctea pensando no que fazer a seguir.
Peguei o celular pensando em ligar para minha mulher, mas por mais que tentasse não conseguia lembrar o seu número, e fiquei estupefato notando que tanto a agenda como o registro das ligações desapareceram!!!
Segurei o prato, mas o garfo foi ao chão.
O único número que restava era o da ligação de Julia essa manhã.
- Oi Julia…
- Oi, acordou?
- Sim, mas preferia que tudo fosse um sonho…
- O que foi?
Expliquei a situação e quase choro ao telefone.
- Fica calmo, não se preocupe com o trabalho que eu resolvo por aqui…
- Ok…
- Olha, eu tenho um tio neurologista, vou falar com ele pra te atender de urgência.
- Tá bom, obrigado…
- Se cuida, beijo.
Lembrei que Julia, curiosamente, sempre tinha parentes morando em todos os lugares, que íamos a trabalho e com profissões úteis e estratégicas.
"Pim!" (Barulho de zap 1)
“Meu tio vai te atender na hora do almoço, 12h em ponto. Vou mandar um motorista 11:40.”
Digitei: “Ok. Obrigado!”
"Pim!" (Barulho de zap 2)
Número de Lidiana (minha esposa): 9116… Liguei em seguida. - Oi, Lidi…
- Ainda estou em reunião, pode ser mais tarde?
- Preciso falar com você, é importante!!!
- Espera que eu vou sair da sala… Diga…
- Você sabe o que eu fiz no final de semana?
- Como assim?
Contei o ocorrido, ela se mostrou bastante nervosa e preocupada, estranhou minha ausência nas Medias Sociais, mas não se lembrava de nada diferente ou especialmente relevante que eu tivesse feito no final de semana.
- Você bateu a cabeça ou algo assim? Perguntou.
- Não, não que eu me lembre…
Contei que ia ao neurologista.
- Me ligue assim que sair da consulta, ok? Vou tentar sair mais cedo hoje.
- Tá bom…
- Beijo.
- Outro…
Desci as 11:35 e encontrei um funcionário varrendo a entrada do prédio.
- Bom dia!
- Bom dia… você é o…?
- Florisvaldo, Flori.
- Você é novo aqui Flori?
- Mais ou menos, faz 7 meses. Cheguei umas duas semanas antes do senhor trocar de carro.
- Ah, sim… Flori, você trabalhou no final de semana?
- Não, senhor, foi minha folga.
- Que pena… então você não me viu nem no sábado, nem no domingo.
- Não vi não, senhor. Respondeu com uma cara de que não estava entendendo a conversa.
- Soube de alguma coisa relacionada comigo?
- Não, é... só sua vizinha do 101…
- O que tem ela?
- Comentou que o senhor ouviu a mesma música chata o fim de semana todo!
- A mesma música??? Eu é que fiquei sem entender nada. - - - - Valeu, Flori!!!
O motorista chegou buzinando, fui ao seu encontro.
12:05 PM
Chegamos com 10 minutos de atraso devido ao trânsito e ao motorista “Roda Presa”.
- Obrigado, pode ir…
- Não posso não, Dona Julia falou pra eu trazer o senhor e levar pra sua casa. E quando Dona Julia fala, é ordem! Respondeu.
Dei uma risada irônica e segui para o consultório.
Dr Paulo de Tarso, tio de Julia, renomado neurologista, deve ter mais de setenta anos, homem de voz pausada, que pensa antes de cada fala, após um exame minucioso e cuidadoso, disse que era uma perda de memória recente, mas que aparentemente eu estava bem. Receitou uma tomografia computadorizada e repouso.
Não sabia se me sentia aliviado ou mais preocupado.
Voltei para casa.
Intrigado pelo comentário da música chata de Flori, interfonei para a vizinha. Mas ninguém atendeu.
Liguei o computador, fucei o histórico pra ver se achava alguma pista. Nenhuma, a não ser um link de uma página do youtube, cheia de conteúdos para meditar, relaxar e dormir, com sons de chuva, mar, água, natureza, um som leve e melancólico de mão direita de piano entrecortadas por cantos de baleias, que vinham lá de longe, passavam e iam embora. Uma repetição que durava horas. "Será???" Isso explicaria o comentário da vizinha.
Mas isso não seria suficiente para me fazer dormir dois dias…
"O suco!!! " Bastaria colocar Lexotan ou algo desse tipo e misturar no liquidificador.
Tanto tempo sem comer explicaria a fome também!!!
Então eu realmente poderia ter visto minha mulher sair no sábado de manhã, dormir e acordar só na segunda com a ligação de Julia achando que ainda era o mesmo dia.
"Mas por quê??? Teria sido Lidiana? Só nos dois estivemos no apartamento no fim de semana!!! Mas por que ela faria isso? Será que ela voltou para desligar o computador? Pra quê um plano tão mirabolante?
Teoria da Conspiração???"
Muitas idéias me passavam pela cabeça, mas nada que justificasse.
"Um amante???" Acho que não… Passávamos por uma fase tão boa, sem crises.
E a voz dela realmente transparecia nervosismo quando liguei. Acho que ela saiu na segunda mesmo pela manhã e eu estava sendo injusto com ela.
5:45 PM
- Oi Lidi, você já está vindo? Perguntei.
- Estou quase chegando. Quer que eu leve alguma coisa?
- Não…
- O que o neurologista falou?
- Me recomendou uns exames…
- E você está se sentindo melhor?
- Mais ou menos, quando você chegar eu te falo…
- Ok, amor, eu já estou chegando! Beijos…
Desliguei sem responder, louco para questioná-la, mas com muito medo das respostas.
Para minha surpresa vi que a agenda do meu celular tinha voltado, algo que sumiu sem explicação, voltou da mesma maneira. Teria sido um pane do aparelho ou da operadora?
Deitei na cama com a luz apagada tentando controlar o stress.
"O que era imaginação? O que era realidade???"
Ouvi o barulho de chave destrancando a porta.
Hora da confrontação!!!
Ela entrou apressada, acendeu a luz da sala, sei, pelo barulho, que nem tirou os sapatos como é de costume aqui em casa. Chegando ao quarto, correu ao meu encontro e me abraçou.
- Como você está, meu amor??? Perguntou demonstrando aflição e acendeu o abajur.
Nesse momento entrei em estado de choque. A roupa era a mesma que ela usava ao sair, a voz me soava familiar, mas eu não tinha a menor ideia… de quem era aquela mulher!!!
- Que-quem é você??? Perguntei gaguejando, quase sem voz.
"There's someone in my head but it's not me..." (Brain Damage/Pink Floyd)
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Segunda???
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Pizza à Portuguesa
Logo que chegaram à Pizzaria, ele pediu um vinho tinto seco, nacional e barato, claro, e apesar de seu gestual exagerado e sua fala em um tom que parecia querer que todo o restaurante ouvisse, ela achou muito chique ele gostar de vinho e o máximo o seu jeito “autêntico” de ser.
Antes de fazerem o pedido, ele, jornalista, persuasivo com as palavras, fez uma explanação eloquente de qual o seu sabor predileto de pizza e o porquê. Quase um monólogo, com pouquíssima participação dela.
- Eu gosto é de pizza à Portuguesa, não peço outra!!! Ela tem a cobertura cheia de ingredientes... lembra uma senhora portuguesa, gorda, daquelas que adoram cozinhar coisas deliciosas. É uma pizza que vale o dinheiro que você paga, dá pra matar a fome!!! Não é que nem pizza de Muzzarela, que não tem personalidade, parece sempre que falta alguma coisa, que é só a base pra um outro sabor... Não é mesmo???
Ela concordou meio sem jeito (na verdade, ela adorava pizza de Muzzarella) e nem ousou dizer que a Margheritta era o seu sabor predileto, com medo de decepcioná-lo.
Ele terminou a sua justificativa perguntando em seguida:
- Vamos pedir??? Que sabor você quer???
- Pode ser à Portuguesa... Respondeu ela querendo agradar.
- Ótima pedida!!! Garçon, a de sempre!!!
Na verdade, ela não gostava nem de presunto, normalmente apresuntado, e muito menos do indigesto farelo de ovo de gema dura que cobria a pizza à Portuguesa, mas inocentemente pensou: “Que mal haveria em fazer aquela concessão???” Sem imaginar que nos 20 anos seguintes, a pizza à Portuguesa passaria a ser um símbolo da dominação e do poder dele sobre ela.
Ela aceitava, no início por se sentir culpada, não querendo desmentir o primeiro encontro, e depois por resignação, achando que esse tipo de atitude, herança incrustada de sua forte formação católica, negando a si própria, ajudava a manter a relação familiar estável.
Negou tanto e por tanto tempo, que chegou a acreditar que aquilo seria o máximo da felicidade que lhe seria concedida nessa vida.
Mas, 23 anos, 21 de casamento, 2 filhos e muitas pizzas à Portuguesa depois, o inesperado acabou acontecendo. Na mesma pizzaria do primeiro encontro, que aliás nunca deixaram de frequentar, só os dois, na comemoração do aniversário de casamento, ele foi ao banheiro enquanto esperavam a pizza, e, por um descuido, esqueceu seu celular sobre a mesa.
Ela ouviu o som que avisava a chegada de um “zap” no celular do marido e não resistiu à curiosidade. Nunca tinha feito isso antes, mas aproveitando a demora dele, resolveu “xeretar” suas mensagens. Mas para desbloquear o celular tinha que primeiro descobrir a senha. Qual seria??? Tentou 18 08, o aniversário dele, e por incrível que pareça acertou. Pensando bem, era uma escolha lógica para alguém tão egocêntrico. Ela leu a mensagem que chegou, empalideceu, depois as mensagens anteriores, seu coração disparou, e as respostas dele, não conseguia respirar direito, pensou em fugir... mas acabou ficando.
Ele voltou do banheiro e olhando as mensagens no celular comentou:
- Pô, o Luciano mandou uma mensagem querendo que eu passe no jornal ainda hoje a noite... logo hoje??? Bom, se ele precisar muito eu dou só uma passadinha rápida!!! É trabalho, né???
Ela permaneceu calada com seus olhos fixos nele.
Ele continuou:- Então, vamos fazer um brinde??? À Nossa!!!
Mas em vez do encontro das taças, ele acabou recebendo um inesperado banho de vinho tinto!!!
- O que é isso??? Você enlouqueceu??? Perguntou ele.
- Seu cínico, canalha!!! Então é o Luciano que quer te dar hoje??? E no trabalho???
- Você... você mexeu no meu celular??? Isso é falta de respeito!!! Bradou ele, tentando mudar o foco.
- Mexi sim!!! Ainda bem que mexi!!! Quem é você pra falar de respeito??? Faz quanto tempo você me trai com essa mulher??? Pelas mensagens da pra ver que não é coisa nova!!! A quanto tempo você me engana???
Percebendo que a máscara caíra ele foi acometido por um incontrolável acesso de tosse.
Sentindo se livre para dizer o que queria como a muito não se sentia, ela emendou: - Eu quero que vocês vão se foder, você e essa sua querida putinha!!!
Nesse momento o garçom vinha chegando com a pizza.
- E tem mais, enfia essa pizza no rabo, porque eu odeio pizza à Portuguesa!!!
E levantando, pegou a bolsa e se retirou do recinto, deixando ali o marido, sério candidato a ex, atônito e sem saber onde “enfiar a cara”.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
No Bar do Portuga
Junto de um velho relógio para os clientes sem "se mancol" lembrarem da hora de ir embora, a parede do bar ostenta uma placa com a frase: ”Aqui se reúnem políticos, pescadores, publicitários e outros mentirosos.”
Caubi e Haroldo, companheiros de copo de longa data, semanalmente, bebem sua habitual cervejinha de final de tarde no Boteco do Postiga, ou Bar do Portuga, como é mais conhecido. O Postiga é um português meio mal humorado, meio “Seu Lunga”, que vindo de sua terra natal, Leiria, se estabeleceu no bairro de Itapuã, em Salvador, perto da colônia de pescadores, há mais de 30 anos.
Entre uma “saideira” e outra, os 2 amigos conversam sobre a conjuntura política nacional e mundial, barcos, fotografia, filmes, livros, artes em geral, futebol, mulheres... futebol... mulheres, e o que mais coçasse a língua.
Lá pelas tantas, quando o fim de tarde já é noite, Caubi, colocando a mão ao lado da boca, indaga cochichando:
- Haroldo, você sabe o que aconteceu com os 6 anões de Branca de Neve?
- Eram 7 anões, não 6! Responde Haroldo, achando que o erro matemático era fruto de confusão alcoólica
- Eram 7, mas são 6!!! Retifica Caubi.
- Como assim???
- Deixa eu explicar: O Mestre, caiu fora do grupo! Como ninguém mais gosta de velho sábio, ficou fora de moda e caro, (muito caro!!!), contrato antigo, desde 1937... foi obrigado a aceitar a proposta de demissão voluntária. Você acha que os Disney são bonzinhos? O Soneca, foi diagnosticado com depressão crônica, tá internado. O Dengoso, saiu do armário, finalmente se assumiu! Com aquele dengo todo, né... O Atchim (A TIM), acho que foi trabalhar com telefonia, mas quando atende o telefone mais espirra do que fala... Hahhaahhahahhaha! O Feliz, foi descoberto, é usuário de drogas pesadas! Também pra ficar feliz o tempo todo... Ah! E por que 6? Porque no Brasil, a gente descobriu, que na vida real o Dunga*... é o Zangado!!!
Os dois caem na gargalhada e Haroldo quase engasga com o gole de cerveja.
De trás do balcão, Postiga observa mal humorado, achando que a conversa é sobre ele.
- E que fim teve a Branca de Neve? pergunta Haroldo.
- Olha, não tenho certeza, mas dizem que... Caubi para e suspira.
- Dizem o que, Caubi?
- Calma rapaz, você tem que aprender a respeitar a pausa dramática... O suspense ajuda a valorizar a história.
Voltam as gargalhadas.
- Dizem Haroldo, que a Branca de Neve virou a chefe do tráfico no morro. E que com ajuda da Gang dos anões, ela fornece a Branquinha pra toda Hollywood. Que ela usa de fachada uma laje daquelas de bronzeamento com bikini de fita isolante. Vai lá um monte de famosos e famosas, que voltam bronzeadinhos, mas com o nariz branquinho! O Bronze da Branquinha, ou seria, La Plata da Branquinha? Está podre de rica!!! Hahhahhahahhahha
A onda de gargalhadas soa mais avassaladora ainda, até quem passa na rua para pra olhar.
Notando a atenção dos transeuntes, Haroldo, em uma pequeno momento de vaidade, tira os óculos e guarda no bolso. E interrompendo o riso pergunta:
- Caubi... (com pausa dramática) e tem morro em Hollywood?
- Claro que tem, Haroldo! Não tem aquele morro escrito Ho-li-u-di? Responde Caubi, acompanhando a fala com um movimento horizontal do dedo.
- É verdade! Tem razão, nobre companheiro!!! - "Bora" tomar a última que hoje tem jogo do Bahia!!! Apressa Caubi olhando o relógio na parede.
Bebem mais um pouco e respiram fundo, tentando voltar à pulsação normal entre as risadas intermitentes. Observam o gracioso sacolejo dos quadris das mulheres que passam pela rua, pedem mais uma “saideira” para o emburrado português e brindam:
- Que nossas mulheres nunca fiquem viúvas e BBMP*!!!
Dunga*: Referência ao ex-técnico da Seleção Brasileira de Futebol e sua fama de mal humorado. BBMP*: Grito de Guerra dos torcedores do time do Bahia.
terça-feira, 9 de julho de 2013
Luriana
Quando Luriana tinha três anos, seu pai saiu para comprar pão e nunca mais voltou.
Luriana, ou Luri, como todos a chamavam, agora tem seis anos, mas com tamanho de quatro. Frequenta precocemente o primeiro ano do ensino fundamental e mora com sua mãe em um pequeno apartamento quarto e sala, no quarto andar de um prédio sem elevador.
Léa, a mãe de Luri, é enfermeira e tem dois empregos, um no hospital e outro em uma clínica particular, anda sempre estressada e desde o sumiço do pai, arca com todas as despesas, suas e da filha. Às 6:30h da manhã, coloca a pequena no carro, um Uno Mille 2007, modelo antigo, e a leva pra escola, rumando depois direto para o hospital.
Às 12:00h sai correndo no sentido inverso. Luri é sempre a última aluna a ser “resgatada” na Escola de Ensino Fundamental Aconchego.
Após um almoço corrido, Léa beija a filha, recomenda, como sempre, que ela não abra a porta pra ninguém e volta ao trabalho. A pequena fica só, não pela vontade materna, mas pela falta de verba disponível.
Luri divide suas tardes entre as tarefas da escola, brincar no computador da mãe e a televisão. Uma repetição tediosa e solitária.
Certa vez assistiu a um filme em que a companhia de um cachorro mudava a vida de um menino, acabava com sua solidão e se tornavam amigos inseparáveis. Depois disso, a menina chegou a conclusão que um animal de estimação seria a solução de seus problemas. Atazanou o juízo de sua mãe, que tinha todos os motivos para não querer um bicho em casa, até que seu tio materno e padrinho abraçou a sua causa.
No almoço de domingo, César Augusto, seu tio, apareceu, como sempre, sem avisar, mas desta vez trazendo uma surpresa: um gatinho listrado, meio maltratado, magro, sem raça específica, ou seja: achado na rua.
- Luri, minha querida, esse é o Brédi Piti e vai lhe fazer muito feliz!!! Não liga pra aparência dele, com um “trato” ele vai ficar lindo!!! Disse seu tio. A menina adorou a novidade, mas sua mãe...
Com muito custo e promessas de que ela cuidaria do bichano, limparia todas as suas necessidades e mais a ajuda da “lábia” do tio, sua mãe acabou cedendo.
Pronto, agora ela tinha um companheiro!!!
Na hora de ir embora, César ainda cochichou no seu ouvido: - Luri, esse gato é mágico, se tiver algo que você realmente queira, ele vai te ajudar a realizar, ”viu”? A menina feliz, abraçou seu tio e agradeceu.
Nos meses seguintes, Luri e Brédi se tornaram tudo que o filme mostrou e mais um pouco. Acordavam, comiam, dormiam, e passavam todo o tempo juntos, só não iam juntos para a escola. Brédi cresceu, engordou, virou um gato bonito, bem cuidado, limpinho com os banhos semanais, não fazia sujeira fora de sua caixinha de areia e só levava bronca quando afiava as unhas no sofá.
Mas com o tempo, Brédi, começou a apresentar um comportamento estranho e desagradável, fugia sempre que podia, fazia xixi no apartamento dos vizinhos, miava forte, de maneira estranha, por longos períodos. Melhorava, mas ciclicamente o comportamento voltava.
Léa não aguentava mais a reclamação dos outros condôminos, só não jogou o gato fora, pelos pedidos chorosos da filha e ainda gastou dinheiro mandando consertar os buracos na tela de proteção do apartamento, para evitar as fugas do bichano. As brigas ao celular com seu irmão, por motivo óbvio, se tornaram bastante frequentes.
Luri começou a se sentir cada vez mais incomodada com o comportamento de seu gato, principalmente por que ele não parecia ser mais feliz morando com ela.
Certa vez, ela ouviu a senhora do apartamento 404 dizer que Brédi estava no cio, Luriana mora no 403. A menina perguntou a sua mãe o que era cio, e ela respondeu que o gato precisava de uma namorada. O mundo da pequena, onde ela e Brédi se completavam e não precisavam de mais ninguém, começou a ruir, lembrou então do que disse o tio e desejou que Brédi voltasse a ser aquele gato só seu...
Mas não funcionou!!!
Sua mãe marcou a cirurgia de castração e tentou explicar a fillha que era a única saída viável. Apesar de querer muito ficar com o gato, Luri começou a se questionar se aquilo era realmente justo, Brédi não poderia ter filhotes, nem uma família, ela estaria impedindo seu gato de ser um bom pai... Será que não era muito egoísmo de sua parte?
Na véspera da castração, durante a aula, a professora de Luriana disse aos alunos que nunca fizessem aos outros o que não quisessem para si mesmos e que deveriam sempre respeitar a liberdade de cada um. Luri foi para casa com aquelas palavras ressoando em sua mente.
Após o almoço, sua mãe como sempre saiu para o trabalho.
Luri, sentou no sofá, em silêncio, com Brédi Piti em seu colo e enquanto acariciava seu gato, seus olhos encheram de lágrimas. Ela já tinha decidido o que fazer...
Mas como fazer???
Não podia deixá-lo simplesmente sair pela porta, só criaria confusão com os vizinhos, e como levá-lo para longe do prédio se ela nem ao menos podia sair de casa?
Pensou, até encontrar nas palavras do tio sua única saída. Sendo por uma causa nobre acreditou, que agora o desejo se realizaria. Luri pegou a tesoura da cozinha e abriu um buraco na tela de proteção da pequena varanda da sala, abraçou o gato e desejou de coração que ele fosse feliz e voasse para a sua liberdade, por via das dúvidas, repetiu três vezes o desejo!!!
Despediu-se dele com um beijo... E o lançou pela fresta da tela com lágrimas nos olhos.
E Brédi voou!!! Voou por 3,7 segundos...!!!
PS: Levemente inspirado em fatos reais.
sábado, 8 de junho de 2013
A Fronteira Final
- A energia dos phasers está no fim!!! Grito para Spock, mas vejo que ele e Uhura já estão no GMMA* com três enormes Klingons.
Acerto outro inimigo e é o final da carga de meu phaser!!!
- Cuidado Capitão!!! Grita Sulu. Quando me viro, é tarde, o Klingon já estava disparando a arma na minha direção. De repente, Sulu se interpõe à rajada certeira e é alvejado em meu lugar.
O Klingon olha pra mim com um sorriso irônico e prepara o tiro derradeiro.
Aparecendo não sei de onde, Tchecov acerta a cabeça do invasor com um pedaço de metal.
- Morra, “miserrável”!!! Amaldiçoa o navegador russo.
- Sulu!!! Você está bem??? Apoio a cabeça dele em meu braço e chamo a enfermaria no comunicador: - Magro, emergência!!! Oficial ferido na ponte de comando!!!
O Dr McCoy responde: -São muitos feridos aqui também!!!
- Magro, preciso de você aqui, agora!!!
- Mas capitão...
- É uma ordem!!!
Sulu segura minha mão, olha para mim e diz: - Preciso lhe contar uma coisa...
- Calma, deixa pra depois...respire...
- Não, eu preciso contar agora...talvez seja a última chance...
- Diga Sulu...
- Capitão... Eu sou gay!!!*
A revelação não era assim tão secreta, eu já desconfiava, ele sempre foi de uma discriçåo excessiva, muito reservado, mas fico meio sem saber o que dizer.
A voz de Tchecov quebra o silêncio:
- Invasão “contrrolada”!!! Os Klingons se “renderram”!!!
Gritos de comemoração soam pela nave!!!
Nessa momento McCoy chega com sua maleta médica e pede espaço junto ao ferido.
Ao levantar, noto que após derrubar o trio Klingon, Spock e Uhura estão abraçados ou é ela quem o abraça e ele se deixa abraçar.
Tento caminhar e sinto uma dor muito forte na coxa da perna direita, perto da junção da bacia com o fêmur, foi um ferimento causado pela adaga da embaixatriz Romulaniana.
Ela pediu abrigo à Enterprise, se dizendo perseguida pelos Klingons, na verdade, era um plano conjunto de invasão para a libertação do líder Klingon, que transportávamos para julgamento na Corte Planetária.
Scott conseguiu alterar as coordenadas de fuga do teletransporte da embaixatriz para algum lugar desconhecido no espaço sideral.
Sento na cadeira de comando tentando abstrair a forte dor.
O frio cortante dentro da nave revela que há um rompimento no casco.
- Tchecov, relatório de avarias da nave!!!
- Sim capitão!!!
Olho para Sulu e penso: “Fique bem, velho amigo! Obrigado, você salvou a minha vida!!!” Espero que ele sobreviva...
Spock se aproxima:
- Você precisa de cuidados médicos.
- Depois, Spock, agora eu preciso é...
Sinto a mão do Vulcano pressionar meu ombro e ainda ouço sua voz antes de perder os sentidos:
- É para o seu bem capitão...
SP 5:30 AM
Acordo do sonho estelar com a mão de minha filha mais velha, Michelle, sobre o meu ombro:
- Pai, você precisa dormir na cama...
Tinha adormecido sentado na sala, tentando achar uma posição suportável para a dor de uma crise nevrálgica no ciático, que se concentra principalmente na coxa, na altura da junção da bacia com o fêmur e depois irradia por toda a perna direita.
Apoiado em minha filha, vou para o quarto.
É uma manhã fria e chuvosa na capital Paulistana.
GMMA*: Galaxial Mixed Martial Arts
- Capitão...eu sou gay!!!* : em 2005, George Takei, que interpretou Hikari Sulu na série clássica, assumiu sua homossexualidade. Esse conto é uma Homenagem a Star Trek, Jornada na Estrelas, criado por Gene Roddenberry, que começou como série em 1966, com seus personagens icônicos, e se prolonga em ramificações até os dias atuais.
terça-feira, 26 de março de 2013
Delgado
- Ah, você precisa ver isso!!! Disse entregando-me um antigo álbum de fotos, provavelmente com algumas décadas de existência.
As fotos de um colorido desbotado, revelavam um ágil bailarino em apresentações.
- Delgado, quem é esse???
- Esse??? Esse sou eu!!! Ou pelo menos costumava ser...
- Vo...vo...você foi bailarino??? Perguntei não acreditando no que eu via.
- E dos bons!!! Cheguei até a dar aulas!!! Disse animado.
Olhando atentamente, tirando uns 50 kg e os cabelos grisalhos, Delgado, tinha traços em comum com aquele bailarino, esguio, saltitante e... delicado.
- Mas você era...
- Del-ga-do!!!
- É, realmente!!! Mas você parecia tão...
- Tão???
- Tão, como diria... "gracioso"!!!
- Também!!! Eu fazia bem todas as posições, sabia??? Hahahhahha!!! Essas fotos foram tiradas em um Festival de Ballet no sul, em Joinville. Ah, e essa aí, com a medalha e as flores, eu ganhei o prêmio de "Bailarino Revelação"!!!
Como ele sempre brincava fazendo piada de si mesmo, não sabia o quanto de verdade tinha em suas afirmações regadas a álcool. Entretanto, o bailarino das fotos tinha uma postura e um olhar muito fortes, mas não de uma força masculina. Fiquei intrigado.
- E por que você parou Delgado???
- Tive uma lesão no joelho e não pude continuar.
- Que pena!!!
- Aí não teve jeito e resolvi seguir minha outra paixão.
- Sua mulher???
- Não, a fotografia!!!! Hahhahahhahaa!!! A mulher eu conheci tempos depois. Ela fez a produção de alguns trabalhos fotográficos para mim e acabamos nos apaixonando.
Delgado é fotógrafo, casado, pai de família, com dois filhos homens.
- Inacreditável Delgado!!! Inacreditável e insuspeitável! Se me contassem eu não acreditaria!!!
Delgado subiu em uma cadeira e guardou o álbum em uma prateleira alta. Com certeza, não era algo que ele mostrava para todos. Mas, por que ele resolveu revelar seu segredo para mim???
Será que ele realmente tinha mudado suas preferências ou só escondeu seu passado em um lugar fora do nosso alcance??? E como alguém muda assim???
Olhando para mim, com a pergunta explícita escrita na minha testa, desdenhou:
- "Ser ou não ser, eis a questão"!!! E caiu novamente na risada.
Sua esposa veio nos chamar e fomos nos juntar aos outros para cantar os parabéns.
Delgado nem sempre foi uma ironia, mas sim uma fantasia, um enigma.
PS: Quando perguntei a minha filha se sabia o que era delgado, ouvi essa resposta: "Claro, delgado é nome de intestino!!!"
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
O Dilema (Nepal Capítulo 4)
Acordei cedo e saí para andar pela aldeia.
Amanhã, Pradip subiria a montanha para nos levar de volta a civilização, o que me fazia refletir mais ainda sobre divulgar ou não os segredos de “Pedra Sobre as Nuvens” e seu povo.
Passei pelo curral dos yaks, onde as mulheres ordenhavam as fêmeas. Eles utilizavam quase tudo dos yaks: leite, lã, esterco, menos a carne.
Depois caminhei pelas plantações, em forma de grandes degraus, que só eram cultivadas na primavera e verão. Os aldeões usavam a água de um rio que se originava da neve e gelo derretidos no alto das montanhas para irrigar o plantio, aliás essa água era usada para tudo.
Passo por uma jovem mãe, que na frente de sua casa, sobre uma manta, aproveita o sol matutino para fazer exercícios de “rolamento” com o seu bebê, que ainda mal andava. Assim era a iniciação do “povo tatu bola”.
Todos me cumprimentavam no caminho, alguns até sorriam, e isso só me fazia sentir pior. Ou “trairia” os aldeões ou a confiança que Fabrício Quintana, editor da revista Cultura Paulistana (e meu melhor amigo), tinha depositado em mim e em meu trabalho. Publicar uma matéria dessas poderia me proporcionar também grande visibilidade e destaque profissional.
Pela manhã as crianças frequentavam a escola, na casa maior da aldeia, cuja professora era Ashmi, neta de Mama Tamushyo. Ashmi era bela e longilínea, mais alta e diferente do padrão geral dos habitantes da aldeia. Foi conversando com ela (ela falava inglês!!!), que conheci um pouco mais da vida da matriarca da aldeia e sua família.
Mama era muito irrequieta e curiosa quando jovem. Com vinte anos incompletos, ela foi embora da aldeia em busca de um universo mais amplo. Foi para Kathmandu, onde arrumou trabalho na casa de uma família aristocrática, muito rica. Incentivada por eles, aproveitou o tempo disponível para estudar. Sete anos depois, Mama, repentinamente, voltou para a aldeia. Trazendo com ela um bebe de colo, era Sophia, a mãe de Ashmi.
Dizem que o pai de Sophia era o filho caçula da família rica. Existiam versões de estupro e de uma grande paixão, mas de qualquer maneira, Mama e a filha não foram aceitas como membros da família e ela nunca quis falar sobre o assunto.
Usou o dinheiro que guardou, mais a “indenização” dada pela família, para construir a escola da aldeia e comprar o material didático necessário. Mesmo com a rejeição inicial dos mais velhos, a escola provou o seu valor e Tamushyo , sua primeira professora, começou a se tornar, ali, a mulher mais poderosa da aldeia.
Na adolescência, Sophia, foi mandada para a capital para estudar em uma escola de freiras, a “Sacre Coeur de Marie”. Contrariando a vontade de Mama, Sophia se apaixonou por um professor durante a faculdade de medicina e ficou morando em Kathmandu. Mas o professor, pai de Ashmi, veio a falecer em um acidente de carro, no trânsito caótico da cidade e Sophia retornou a “Pedra sobre as Nuvens”. Ashmi, só conheceu a aldeia e sua avó aos nove anos de idade e não sabia rolar, como um pneu, como as outras crianças. Nunca pode participar da competição de verão da aldeia, que era uma corrida “downhill” do “Povo Tatu Bola”. Era alvo de “bullying” por ser magra, alta e incapaz de rolar. Como professora, hoje, era muito respeitada, mas até a adolescência, odiava a aldeia e seu sonho era voltar a viver na capital.
Por falar em rolar, eu tinha feito minhas tentativas junto com Kumar, o maior dos três “meninos pneu” que eu conhecera no nosso primeiro encontro. Ele se tornou o meu melhor amigo na aldeia. Seguindo suas orientações e copiando sua movimentação, coloquei um casaco com capuz do maior morador da aldeia, com reforço na nuca e coluna e tentei rolar ladeira abaixo. Fracasso total!!! Tudo o que consegui foi uma crise de hérnia lombar. O chá e a massagem com mosha bustão de Sophia, mãe de Ashmi e médica da aldeia, ajudaram bastante em minha recuperação. Claro que tomei também os meus inseparáveis analgésicos e desinflamatórios alopáticos.
Encontrei Maritza tirando suas fotos pela aldeia.
- Bom dia!!! Aproveitando a luz da manhã??? Perguntei indo em seu encontro.
- Com certeza!!! E você, caiu da cama??? Ironizou.
- Estou meio ansioso, não consegui dormir bem. Digo alongando as costas, demonstrando um certo desconforto físico.
- É...temos que decidir que fim vamos dar a esse material. Se entregamos tudo, parte ou nada para Fabrício. E temos que decidir juntos, a minhas fotos não podem contrariar a sua matéria.
- Eu sei...de todo jeito vamos enganar alguém. O pior é que acho que como jornalista deveria entregar o trabalho que aceitei fazer...
- Mas a exposição desnecessária da aldeia e suas consequências me incomodam mais. Afirmou Maritza.
Sua convicção chegou a me perturbar, pois eu ainda não tinha conseguido chegar a uma decisão. Senti vontade de argumentar, mas cocei a barba mal feita e disse:
- É... você pode ter razão.
Voltei a caminhar só.
Retorno à cabana para o almoço. Cardápio: arroz, churpi, um queijo de leite de yak e verduras em conserva. Os complementos, palitos de carne seca (jerked beef sticks, made in USA), e os saquinhos de pozinho mágico para comer com o arroz (furikake, made in Japan), foram as saborosas contribuições de Maritza à nossa refeição.
Limpei a louça enquanto nossa fotógrafa armava seu carregador solar portátil para recarregar seu equipamento. Não sabendo que contaria com tal tecnologia, deixei o meu notebook em casa e fazia todas minhas anotações por escrito, em um bloco de papel. Maritza me ofereceu seu computador, mas orgulhoso, declinei, fingindo que preferia escrever.
A tarde encontro Kumar e saímos para caminhar.
Eu lhe ensino o nome das coisas em português e ele me ensina em Parbatya*.
Sentamos em uma grande pedra onde ele assobia, e logo, surgido do nada, temos a companhia de seu mascote, o leopardo das neves. O felino deita aos pés do menino e pede carinho como qualquer gato doméstico. Arrisco um primeiro e leve afago e vejo que o grande bichano não me estranha mais. Estar ali naquela paisagem grandiosa, com o “menino pneu” e seu leopardo, mexem comigo e me trazem lágrimas aos olhos. Kumar me pergunta por que choro.
- Paz...sinto muita paz aqui e tenho um grande dilema!!! Respondo sem precisar tentar traduzir e acaricio a cabeça do menino.
De dentro do casaco, tiro um de meus maiores tesouros e dou de presente a Kumar.
- Brazil!!! Football!! Grita o menino.
Era a camisa da seleção brasileira de futebol, campeã do mundo em 2002, com o autógrafo de Ronaldo, o Fenômeno.
- O-bri-go-do!!! Diz Kumar, extasiado.
- O-bri-ga-do. Corrijo.
- Ah!!! Obrigado!!! Repete o menino feliz.
Caminhamos por mais um tempo, com Kumar, já vestindo a camisa amarela, ensaiando jogadas maravilhosas com uma bola imaginária. Dava dribles desconcertantes em seu marcador implacável, o leopardo, e eu como se fizesse parte de uma torcida em um estádio lotado, vibrava e gritava olé.
Vejo ao longe Maritza com sua teleobjetiva, documentando aquele momento.
Até hoje essa foto é o papel de parede de meu notebook.
No dia seguinte Pradip, nosso guia, chega cedo a aldeia.
Temos que aproveitar a luz do sol, a viagem é longa.
Nos despedimos dos habitantes da aldeia com um profundo sentimento de gratidão, por essa experiência ímpar.
Ganhamos várias lembranças e Maritza leva como seu bem mais precioso, um grande saco de estopa, cheio da milagrosa folha “anti-chulé”, presente de Mama Tamushyo.
Na despedida Mama me aconselha:
- You’re a good man. Let your mind follow your heart.
Fico pasmo, como ela sabia do meu dilema???
Ashmi me da um abraço caloroso e um beijo no rosto.
- Gostou, hein??? Cutuca Maritza.
- Estou me sentindo o próprio Humphrey Bogart em Casablanca, respondo.
É hora de ir, subimos nos yaks para a partida.
Alguns aldeões vão até a entrada de “Pedra sobre as Nuvens” acenar, e
as crianças nos acompanham rolando por um trecho em ladeira.
Maritza com os olhos úmidos, não parava de tirar fotos.
Não vi Kumar, sinto sua falta, mas talvez ele não quisesse se despedir.
Uns dois kilometros adiante ouço o chamado de uma voz familiar.
Era Kumar e seu leopardo, em uma encosta lateral, sobre a nossa trilha.
Vestindo a camisa da Seleção Brasileira ele grita a plenos pulmões:
- Gooooool do Brasil!!!!!!!!
Emocionado, levanto o punho e soco o ar, comemorando com ele.
O eco de sua voz ressoa entre as montanhas.
Não tinha mais dúvidas, ali tomei minha decisão.
Parbatya*: língua das montanhas do Nepal